Atacando a ciência, por lucro ou diversão: as armas mais comuns

Apocalipse Now
27 fev 2020
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crânio de dinossauro

Dos grupos antivacinação aos vendedores de “curas” naturais, dos terraplanistas aos negadores do aquecimento global, dos criacionistas aos que têm fobia de transgênicos, não faltam, no mundo contemporâneo, quem esteja disposto a tentar desconstruir o conhecimento científico, seja por ganho financeiro ou apenas por hobby. 

Dada a variedade de causas, interesses e metas envolvidos – há, por exemplo, os que buscam desacreditar a ciência e minar sua autoridade, e há os que buscam reivindicar os benefícios da credibilidade e da autoridade científica para si mesmos e seus produtos – é um pouco surpreendente perceber como o cardápio à disposição desse pessoal é compartilhado: não seria exagero dizer que todos usam os mesmos truques. 

Uma manobra quase onipresente é a equivocação: o uso da mesma palavra com sentidos e contextos diferentes, sem deixar claro ao leitor (ou ouvinte, etc.) que houve tal deslocamento. “Energia” é uma vítima frequente: num instante a palavra é usada num sentido metafórico, como sinônimo de otimismo e disposição, e no parágrafo seguinte, no sentido de quantidade física, como a que aparece na equação E=mc2. A conclusão final pode ser, digamos, que otimismo e disposição (“energia”) pode virar dinheiro (“matéria”), mas você precisa fazer o treinamento e pagar a formação especial para descobrir exatamente como – esse deve ser o c2.

Promotores de terapias alternativas fazem muito disso com a palavra “melhora”, que num instante quer dizer alívio genérico, subjetivo, dos sintomas (sentido “a”) e, no outro, ação específica e efetiva contra a causa da doença (sentido “b”). Numa breve prestidigitação semântica, a “melhora”, no sentido “a”, que um placebo qualquer pode produzir, é vendida como equivalente a “melhora” no sentido “b”, algo que se espera de uma terapia realmente digna do nome. 

A negação do aquecimento global representa ainda outro campo fértil, com equivocações envolvendo a própria expressão “aquecimento global”, deslocada do sentido técnico, de aumento progressivo das temperaturas médias globais ao longo de anos décadas, para o de “tudo está esquentando ao mesmo tempo, todo dia e de modo uniforme”, uma proposição bem mais fácil de refutar. Nesse caso, a manobra se aproxima da falácia do espantalho, que consiste em atacar não a proposta do oponente, mas uma caricatura – um “espantalho” – vagamente semelhante a ela.

Este cambalacho semântico, embora comum, não é a única peça do ferramental negacionista/pseudocientífico/curandeiro/picareta.  Abaixo, para fins didáticos, apresento uma coleção de dez truques muito usados (com numerais romanos, pra deixar a coisa mais solene):

I. Apelo à incredulidade pessoal

"Eu ainda não estou convencido..."; "Não consigo imaginar como..."; "Me parece inconcebível...". Claro, e a Terra vai parar de girar e as Leis da Natureza vão ficar suspensas só porque algumas pessoas têm dificuldade em assimilar certos fatos e conceitos. Não há nada de errado em manifestar perplexidade. Mas perplexidade, em si, não é argumento.

II. Apelo à motivação espúria

"Você precisa ver a agenda por trás disso aí...".  O fato de uma pessoa ter, talvez, motivos escabrosos para dizer que 2+2=4 não muda o fato de que 2+2=4. O apelo à motivação espúria é um dos modos mais eficientes de mudar de assunto: em vez de discutir os fatos, discute-se as intenções de quem cita os fatos.

III. Apelo à ignorância

"Ninguém sabe o que são essas luzes estranhas no céu, logo elas vêm de outro planeta" é o exemplo clássico. Se ninguém sabe o que elas são, logo ninguém sabe. Ponto. Dizer qualquer coisa além disso é a própria definição de não saber do que se está falando.

 

IV. Nivelamento das probabilidades

É a prima-irmã do apelo à ignorância: "Já que ninguém sabe o que aquela luz é, minha hipótese de que é uma nave de outro planeta tem tanto valor quanto a sua de que é um balão". Não, não tem. Diferentes hipóteses podem ter, e geralmente têm, diferentes graus de probabilidade e requerem diferentes níveis de prova, definidos pelo contexto científico maior: a existência de balões, por exemplo, já está bem estabelecida. A de naves alienígenas...

V. Expectativa exagerada 

"Ninguém tem uma compreensão completa do funcionamento do clima da Terra, então como se pode afirmar que o aquecimento global tem causa humana?"  Ninguém tem compreensão completa da gravidade, também, mas a compreensão que temos é suficiente para permitir que enviemos sondas a Plutão, construamos arranha-céus e saibamos que pular de arranha-céus é uma má ideia. A questão não é se sabemos tudo; é se o que sabemos é adequado e suficiente para embasar certas ações e alegações.

VI. Descontextualização dos dados

A seleção feminina de basquete é toda composta por mulheres mais altas do que eu. Isso não muda o fato de que, em média, homens são mais altos que mulheres. O uso de exemplos isolados para tentar negar afirmações sobre médias ou tendências gerais tem impacto retórico, mas é um forte indicador de desonestidade intelectual.

VII. Apelo à pesquisa irrelevante

Citam-se estudos sem ligação, ou com ligação muito tênue, com o tema, ou escolhem-se para citar trabalhos de má qualidade, que nunca foram reproduzidos, cujas conclusões foram negadas por estudos mais rigorosos ou, até, já retratados. Tem até quem cite estudos inexistentes. Aqui, a aposta é de que ninguém vai ter paciência de rastrear e avaliar as referências de forma crítica. 

VIII. Distorção das fontes

O exemplo clássico é o que criacionistas gostam de fazer com certas passagens de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, em que o grande naturalista escreve, por exemplo, que “supor que olho, com todos os seus recursos admiráveis (...) poderia ter sido formado por seleção natural parece, confesso, o maior dos absurdos”. Ou, ainda, “a crença de que um órgão tão perfeito como olho pode ter se formado por seleção natural é mais do que suficiente para espantar qualquer um”. O que se omite, nesses casos, são as passagens seguintes, em que Darwin se põe a mostrar como esses “absurdos” e “espantos” são, sim, muito bem explicados pela evolução.

 

IX. Surdez (ou cegueira) seletiva

Ocorre quando se insiste em reapresentar, como válida ou desafiadora, uma anomalia já devidamente explicada. O Sudário de Turim, a “ausência” de fósseis de transição e o “disco voador” de Roswell são casos clássicos. Uma variação comum é insistir num argumento já claramente refutado, ou na citação de um fato cuja irrelevância para o tema já foi bem estabelecida (como invocar a infame tabela da IARC para tratar do risco efetivo de câncer).

 

X. Conspiração

Se o patriotismo é o último refúgio do canalha e a violência, o último recurso do incompetente, a teoria da conspiração é o último refúgio, e recurso, do pseudocientista. Trata-se de uma espécie de argumento pot-pourri que, de um só golpe, sintetiza todos os anteriores: questiona motivos, valida a pesquisa irrelevante, vira a hierarquia das probabilidades de ponta-cabeça, e, por fim, reduz tudo a uma questão de incredulidade pessoal:  se “eles” controlam tudo, as pessoas então só podem confiar naquilo que concluem por conta própria... e no que os paranoicos dizem, é claro.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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