A nova viagem à Lua e os "céticos" do espaço

Artigo
2 abr 2026
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Missão Artemis 2 no espaço

 

Parece até mentira, mas depois de mais de 50 anos, uma missão tripulada da Nasa volta à Lua (mas sem deixar pegadas, por enquanto). Será o primeiro voo tripulado além da órbita terrestre desde a Apollo 17, em 1972. A viagem deve durar cerca de dez dias, com os astronautas orbitando a Lua e retornando à Terra. Como já sugeri, não haverá pouso. A missão será histórica por incluir a primeira mulher, o primeiro homem negro e o primeiro astronauta não americano (canadense) em uma viagem ao redor da Lua. O lançamento ocorreu com sucesso no dia 1º de abril, um presente de verdade no Dia da Mentira.

(A imagem que ilustra este artigo captura o momento da separação, já no espaço, entre estágios do foguete que leva a cápsula Orion à órbita lunar.)

Sempre me surpreende o fato de que uma espécie de primata que surgiu por volta de 300 mil anos atrás já tenha conseguido ir à Lua, a centenas de milhares de quilômetros de distância. E mais de uma vez! Melhor ainda, nas décadas de 1960 e 1970! Fantástico! Porém, para algumas pessoas, o uso da palavra não é figurativo, mas literal. Muitos ainda acreditam que o ser humano nunca visitou ou pisou no nosso satélite natural.

Uma pesquisa Datafolha, realizada entre os dias nove e dez de fevereiro de 2026, ouviu 2.086 brasileiros com mais de 16 anos, espalhados por 123 cidades e diferentes regiões do Brasil. O resultado positivo é que a maioria das pessoas (58%) aceita o fato de que já fomos à Lua. Por outro lado, não menos que um terço dos entrevistados (33% deles) diz que é mentira. Apenas 9% disseram não saber.

Cabe uma pergunta: esses 33% são uma surpresa, ou não deveríamos nos espantar com essa fração de “céticos”? Penso que não é surpresa alguma. Como já discuti em “O Campo Gravitacional das Pseudociências”, conspirações e crenças estranhas tendem a se aglutinar. Afinal, não é só uma questão de informação, mas de forma de pensar. Quem pensa de forma conspiracionista, quem não consegue levar em conta os fatos ou sopesar evidências, muito frequentemente acredita em coisas absurdas.

Como o Pirulla sempre gosta de lembrar: parece mesmo que todo o mal converge para Mordor. Para os não iniciados em Tolkien, isso significa que tudo que é de ruim e maligno converge para uma determinada região sombria da Terra Média, Mordor, onde o vilão da trilogia, Sauron, habitava e fazia seus planos.   

Essa impressão não é apenas uma frase de efeito, mas é corroborada pela literatura. Por exemplo, Alper e colaboradores (2025) conduziram uma investigação sobre as chamadas crenças epistemicamente suspeitas (CESs), como teorias da conspiração, crenças paranormais e pseudociência. O trabalho fez duas perguntas centrais: primeiro, se essas crenças estão inter-relacionadas (ou seja, se a crença em uma delas é um bom preditor da crença em outras CESs); segundo, se esse padrão também vale para crenças totalmente fictícias, criadas pelos autores e desconhecidas pelos participantes entrevistados.

Os resultados mostram que todas essas crenças estão correlacionadas entre si, independentemente de serem alegações que algumas pessoas realmente levam a sério ou pura invenção. Ou seja, pessoas que tendem a acreditar em uma teoria da conspiração também têm maior probabilidade de acreditar em outras, incluindo ideias completamente artificiais que nunca tinham visto antes. Esse padrão foi replicado em diferentes amostras (Turquia e Reino Unido), sugerindo que o fenômeno é robusto e não depende de contexto cultural específico. O mal, parece, converge mesmo para Mordor.

Além disso, o estudo mostra que os mesmos fatores psicológicos e sociais estão associados tanto às falsas crenças originadas na sociedade quanto às inventadas pelos pesquisadores. Variáveis como religiosidade, ideologia, traços de personalidade e baixa reflexão cognitiva aparecem agrupadas como preditores gerais. Isso sustenta a ideia de que existe uma espécie de “mentalidade geral” de aceitação de crenças duvidosas, mais do que adesão a conteúdos específicos. Como já disse: o problema não é só informação, mas a forma de pensar.

Na verdade, até existe evidência de que o modo de pensar científico age como um protetor contra crenças epistemologicamente suspeitas (Čavojová e colaboradores, 2020). Esse artigo investigou o papel do raciocínio científico como um conjunto de habilidades cognitivas voltadas à avaliação de evidências, identificação de inferências válidas e julgamento da qualidade de estudos científicos.

Veja, isso é bem diferente da mera alfabetização científica baseada em conhecimento de fatos e consensos científicos. O raciocínio científico diz respeito à capacidade prática de interpretar dados, compreender aspectos de desenhos experimentais (como controle e randomização) e distinguir explicações bem fundamentadas de afirmações sem sustentação. O estudo parte da hipótese de que essa habilidade funciona como componente central do repertório cognitivo necessário para tomar decisões racionais e evitar erros sistemáticos de pensamento.

A pesquisa utilizou uma escala de raciocínio científico (Scientific Reasoning Scale, SRS) para medir o raciocínio científico, juntamente com medidas de habilidade cognitiva, disposições de pensamento (como pensamento analítico e dogmatismo), crenças epistemicamente suspeitas (paranormais, conspiratórias e pseudocientíficas) e suscetibilidade a vieses cognitivos. A SRS é uma medida do raciocínio científico que avalia a capacidade de interpretar e julgar evidências científicas. Ela consiste em 11 cenários curtos envolvendo situações de pesquisa, nos quais os participantes devem avaliar afirmações relacionadas a conceitos metodológicos, como controle experimental e randomização. A pontuação corresponde ao número de respostas corretas e reflete não o conhecimento em si, mas a habilidade de compreender como evidências científicas sustentam conclusões. Mais uma vez, essa é uma distinção importante.

Os resultados mostram que o raciocínio científico está positivamente associado à inteligência e ao pensamento analítico, e negativamente associado ao dogmatismo, às crenças infundadas e aos vieses cognitivos. Ou seja, pessoas que pontuam melhor na SRS tendem a ter melhores índices de pensamento analítico e menor propensão ao dogmatismo e a crenças não justificadas epistemicamente.

Apesar de esse ser um resultado importante, devo dizer que o efeito do raciocínio científico sobre CESs é bastante modesto (explicando cerca de 2% adicional da variância), e o modelo total explica apenas cerca de 6% da variabilidade dessas crenças. A implicação é clara: embora o raciocínio científico desempenhe um papel importante, está longe de ser o único fator relevante.

Que outros fatores podem contribuir? Aqui vão alguns exemplos: identidade cultural, ideologia política, traços de personalidade e motivação para pensar de forma racional. Em outras palavras, mesmo indivíduos com boas habilidades de raciocínio científico podem sustentar crenças infundadas quando estas estão alinhadas a suas convicções prévias. O leitor mais assíduo pode lembrar que já consideremos isso em “A Persistência do Criacionismo”.

Considerando o contexto, fui levado a pensar sobre se existe algum grau de correlação significativa entre os resultados dessa pesquisa sobre a ida de humanos à Lua e outro levantamento feito pelo Datafolha em 2010, sobre um tema diferente: crenças relativas à evolução e criacionismo. À época, 4.158 pessoas foram entrevistadas, também de diferentes regiões do Brasil.

Segundo os resultados desse levantamento, 59% dos entrevistados concordaram com a seguinte afirmação (não muito bem elaborada, na minha opinião): “Os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas com Deus guiando esse processo de evolução”. Pensando pelo lado positivo, isso significa que mais da metade da população amostrada está disposta a aceitar até mesmo a evolução dos seres humanos. Isto é, aceitam uma teoria empiricamente bem estabelecida. Por outro lado, isso também significa que a maioria pensa que os mecanismos naturais são insuficientes para explicar a evolução biológica.

Particularmente, depois de alguns cabelos brancos, simplesmente aderi ao lema “menos errado é melhor que mais errado”. Vivo feliz com isso? Não. Mas vida que segue.

O levantamento ainda categorizou as crenças de acordo com a religião. Os espíritas são o grupo que mais aceita a ideia de que os seres humanos evoluíram a partir de outras formas de vida sob a orientação divina (74%). Entre católicos e evangélicos, esse percentual é de cerca de 60%. Evidentemente, sendo teístas, isso faz todo o sentido. Por outro lado, chama atenção, mas não surpreende, a proporção de umbandistas (33%) e de evangélicos pentecostais (30%) que defendem a ideia de que os humanos foram criados por Deus de uma só vez, praticamente como são hoje, em algum momento dos últimos dez mil anos. Estamos falando aqui dos criacionistas da Terra jovem.

E com isso, vamos voltar ao levantamento recente sobre a ida à Lua. Quando os resultados foram categorizados por religião, temos o seguinte cenário: 34% dos católicos não creem que fomos à Lua; 37% dos evangélicos também não acreditam. Na categoria daqueles que não declararam ter religião, 27% não acreditam na ida à Lua.

Existe, ainda, um aspecto relevante para a nossa discussão: como o nível de escolaridade afeta as crenças. Considerando o nível de escolaridade, 42% dos entrevistados pelo Datafolha que estudaram apenas até o ensino fundamental classificaram a ida à Lua como “mentira”. Esse percentual diminui para 33% entre aqueles com ensino médio e cai ainda mais, para 19%, entre os que têm ensino superior. A escolaridade afeta tanto o conhecimento de fatos em si, como a capacidade de pensar de forma científica. Qual será o fator principal por trás desse padrão?

Infelizmente, não tenho os meios para testar se há correlação entre criacionismo e negação da ida à Lua. Pode bem ser verdade que, em média, um criacionista esteja mais propenso a duvidar da nossa capacidade científica e tecnológica do que um não criacionista, mas seria leviano da minha parte afirmar isso agora. Essa é uma investigação que pode ser conduzida. Quem sabe reside aí uma boa oportunidade para um trabalho de conclusão de curso? A sugestão está dada!

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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