Quando a universidade vira "lavanderia" de pseudociência

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14 abr 2026
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vulto na chuva

 

Palavras como greenwashing, pinkwashing e purplewashing têm sido aplicadas a empresas que incluem pautas sociais em suas estratégias de marketing, mas sem abraçá-las de fato no dia a dia – e até seguindo com práticas que as contradizem. Nesses exemplos, greenwashing refere-se à pauta ambiental, pinkwashing à pauta LGBT e purplewashing a temas ligados ao direito das mulheres ou à igualdade de gênero. O sufixo washing, que remete a “lavar” ou "lavagem", surge aí com o sentido mais específico de “pintar” ou “cobrir com uma camada fina”.

Nesse mesmo campo semântico, que metaforicamente conecta o ato de limpar ou lavar algo ao acobertamento do que é falso ou vergonhoso, encontramos ainda a expressão “lavagem de dinheiro”, ou “money laundering”, a prática de fazer recursos de origem ilícita parecerem legais. Valendo-se dessa família de associações, Jonathan Simmons, sociólogo da religião, cunhou a expressão “epistemic laundering”, literalmente “lavagem epistêmica”, que apresenta em artigo publicado na revista Skeptical Inquirer:  “Epistemic Laundering: How Universities Sell Pseudoscience”. Ali, Simmons acusa universidades de se prestarem ao papel de “lavanderias de pseudociências”.

No rótulo “lavanderia epistêmica”  não há maquiagem de conduta, como nos casos de empresas petrolíferas que fazem greenwashing, mas a transmutação de uma coisa intelectualmente ruim, frágil ou pseudocientífica em algo com aparência de conhecimento legítimo. Como exemplifica Simmons: “As portas de vidro brilham com o mesmo polimento, e a sinalização usa a mesma identidade visual da universidade. O cardápio interno, porém, lista reiki e equilíbrio energético ao lado de aconselhamento nutricional. Essa semelhança de ambientação faz mais do que confundir os pacientes. Indica um recuo institucional mais profundo em relação à objetividade”.

A introdução de reiki em universidades ignora a fronteira que separa rigor acadêmico de esoterismo, aproximando a Academia de uma clínica de bem-estar. Emprestar a reputação de instituições de ciência para divulgar e dar espaço a crendices é passar para a população a ideia de que existe debate genuíno e interesse relevante em torno de assuntos que já foram examinados e descartados pela maioria esmagadora da comunidade científica.

No caso específico do reiki e outras terapias energéticas, a inexistência de uma energia sobrenatural curativa pôde ser verificada facilmente em um projeto de feira de ciências feito por uma criança de nove anos. O estudo da criança avaliou 21 praticantes de “toque terapêutico”, submetidos a 280 testes cegos para verificar se conseguiam detectar um suposto “campo de energia humana” – a alegação dos praticantes é que são capazes de perceber o suposto campo sem contato físico.

Os praticantes ficavam sentados com as duas mãos apoiadas sobre uma mesa, mas sem ver o que acontecia do outro lado de uma barreira visual. A experimentadora colocava a própria mão acima da mão direita ou esquerda do participante, escolhida ao acaso, e o praticante precisava dizer de qual lado ela estava. Os acertos foram de 44%, taxa compatível com o esperado por mero acaso. O artigo foi publicado no Journal of the American Medical Association - JAMA.

Apesar de Simmons se referir a realidades de instituições da América do Norte, a conivência institucional com práticas negacionistas e pseudocientíficas também aparece no Brasil de modo muito semelhante. Basta, por exemplo, entrar na página de algum curso de medicina e verificar os temas ensinados no âmbito da disciplina de Práticas Integrativas e Complementares (PICs). Nesse caso, a presença de afirmações que colidem frontalmente com o que se sabe de física, química e biologia – como a de que a água tem memória, no caso da homeopatia, ou a de que o corpo é percorrido por meridianos de energia vital, no caso da acupuntura – é vergonhosamente ignorada por gestores que dizem defender a ciência.

Quando não prevalece a usual vista grossa, adota-se um discurso escorregadio de apelo ao pluralismo, ornamentando a fala e ignorando o avanço da fantasia sobre a realidade. A ciência passa, então, a ser tratada como uma narrativa capaz de acolher qualquer coisa, por mais absurda que seja, por meio de compartimentos fictícios: ciência indígena, medicina chinesa e assim por diante.

Para os adeptos da “divulgação Odara”, afeitos a ver a ciência apenas como construção social e a diluir qualquer diferença entre conhecimento científico e crença, o parágrafo acima pode ferir sensibilidades. Basta, porém, transportar a situação para outro contexto para ver com mais nitidez o ridículo desse comportamento. Raygun, representante da Austrália na competição de break dance dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, depois de uma apresentação arrasada pelos jurados, relativiza o critério de avaliação apelando à “diversidade de abordagens do breaking”. É o mesmo malabarismo intelectual que menciona “outras epistemes” para apoiar um congresso de reiki.

A universidade, ao se anunciar publicamente como defensora da ciência e, ao mesmo tempo, fomentar práticas e atividades mais apropriadas a espaços esotéricos, compromete sua imagem e contribui ainda mais para seu descrédito perante a sociedade. É importante decidir o que se quer para a instituição: afinal, nenhuma universidade tem o direito de se considerar muito melhor do que a pior atividade que promove com dinheiro público.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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