Para quem quer invadir a Área 51

Apocalipse Now
9 ago 2019
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Disco voador no Capitólio

Evento criado no Facebook para combinar a invasão da Área 51, uma base de testes da Força Aérea americana no Estado de Nevada, contava, no fim do mês passado, com mais de 2 milhões de participantes inscritos. Nestes tempos em que a diferença entre mera trollagem e ameaça séria nunca parece ser muito clara, já há militares preocupados. A “ação coletiva” está marcada para 20 de setembro.

A Área 51 tem enorme importância histórica – lá foram testados, por exemplo, os aviões de espionagem U-2 e os F-117 “stealth”. Lá também foram armazenados e estudados aviões militares soviéticos MiG capturados pelos Estados Unidos. O lugar é uma verdadeira relíquia da Guerra Fria. Muitas das informações oficiais sobre a base, que hoje estão em domínio público, só vieram à luz com a liberação de documentos secretos da CIA, em 2013. Mas os invasores que se organizam na rede social não são entusiastas de história militar. Não estão interessados em MiGs. Querem discos voadores!

A conexão da Área 51 com o a mitologia ufológica é antiga – ou talvez nem tanto. Um relatório da CIA especula que os testes de aviões U-2, nos anos 50, teriam alimentado a onda de avistamentos de discos voadores que marcou a época (o início do furor ufológico do século 20 costuma ser datado do fim da década de 40), mas há especialistas que disputam essa avaliação

A versão da CIA diz, por exemplo, que a reação de perplexidade das testemunhas civis que assistiram à passagem de um U-2 pelo céu – aviões cuja existência foi mantida em segredo durante um bom tempo – teria levado ao estabelecimento do Projeto Livro Azul, uma investigação oficial sobre óvnis. Mas há um problema: os U-2 começaram a ser testados em 1954, e o Livro Azul data de 1951.

De acordo com The Mammoth Encyclopedia of Extraterrestrial Encounters, a Área 51 entra mesmo no folclore dos discos voadores em 1989, quando um certo Robert Lazar aparece em Las Vegas alegando ter trabalhado na “engenharia reversa” de naves alienígenas nas imediações da base. 

O verbete sobre a base aérea ressalta que as afirmações de Lazar “não têm comprovação”, e que investigações posteriores demonstraram que as credenciais que ele apresentou para sustentar o que alegava – tanto acadêmicas quanto profissionais – eram falsas. De qualquer modo, uma indústria turística formou-se em torno da base, e o governo do estado de Nevada resolveu apelidar uma estrada próxima de Via Extraterrestre (The Extraterrestrial Highway”). 

De qualquer modo, a ideia de que naves alienígenas estariam guardadas lá se encaixa muito facilmente em outro ponto do folclore ufológico, o da queda de um disco voador em Roswell, no estado do Novo México, em 1947. Daí à ilação de que haveria cadáveres de pilotos extraterrestres armazenados no local é um pulinho: o complexo Roswell-Área 51-ETs mortos foi explorado, por exemplo, no filme Independence Day(1996) e na promoção do “filme da autópsia do alienígena”, uma fraude que causou certo furor em 1995.

O circo montado em torno do suposto disco voador de Roswell merece uma crônica à parte, mas resumindo: em 1947, um oficial de Relações Públicas das Forças Armadas americanas decidiu que seria uma boa ideia acobertar a queda de um balão experimental – usado para erguer microfones na alta atmosfera e tentar captar vibrações produzidas por testes nucleares do outro lado do mundo – dizendo à imprensa que se tratava de um disco voador

Numa daquelas ironias que só a vida real é capaz de produzir, o acobertamento de um segredo militar real deu margem a décadas de especulação sobre acobertamentos de segredos militares fantasiosos.

Nos últimos tempos, a ideia de que o governo dos Estados Unidos mantém materiais de origem alienígena guardados em locais secretos, e os utiliza para pesquisa militar, passou a ser promovida por uma organização chamada To the Stars Academy of Arts and Science (TTSA), que se apresenta como instituição educacional e de pesquisa, mas que aparentemente não é muito mais do que uma produtora de documentários sensacionalistas: seu trabalho mais recente foi uma série ufológica para o infame canal de TV por assinatura History  “Alienígenas do Passado”  Channel.

Figuras ligadas à TTSA têm alguma influência sobre a pauta de The New York Times, e volta e meia o diário nova-iorquino publica alguma bobagem promovida pela TTSA, ou usando seus representantes como fonte. Isso já fez o jornal ser alvo de críticas de comentaristas céticos especializados em temas “extraterrestres”, como Jason Colavito  e  Robert Sheaffer

Numa postagem de seu blog, Sheaffer aponta que o fragmento de  “veículo aeroespacial avançado de origem desconhecida”  adquirido recentemente pela TTSA é, muito provavelmente, o mesmo material enviado anonimamente para o falecido apresentador de rádio e promotor de crenças paranormais e teorias da conspiração Art Bell, nos anos 90.

Teorias da conspiração, claro, abundam em torno da Área 51. A presença de discos voadores e cadáveres alienígenas na base estão entre os rumores menos exóticos, na verdade. Um livro que goza de certa popularidade no underground paranoico, The Dulce Wars: Underground Alien Bases and the Battle for Planet Earth, assinado por alguém que usa o pseudônimo “Branton”, diz que, segundo “fontes”, a Área 51 “talvez pertença a forças que não são leais ao governo americano, ou sequer à raça humana”.

“Branton” acrescenta que um “funcionário da Área 51” afirma que certas sociedades secretas “concordaram em ceder mais de três quartos do planeta aos Cinzentos, se puderem ficar com 25% parea si mesmos e ter acesso à tecnologia alienígena de controle da mente”. Já escrevi sobre os ETs cinzentos em outro texto.

É muito difícil determinar quantas das pessoas que confirmaram participação no evento  “Storm Area 51” acreditam em alguma dessas bobagens ou estão nessa “só pelo lolz” (ou pelas camisetas), mas diversos analistas de mídias digitais e especialistas em pensamento conspiratório já chamaram atenção para o fato de que essa ambiguidade entre crença sincera e pura diversão é uma característica – e um dos perigos – do ecossistema atual de comunicação, na medida em que o tom quase-humorístico tende a suavizar a rejeição imediata com que certas ideias e propostas seriam recebidas, em condições normais, por um público mais esclarecido e civilizado.

A Lei de Poe, que já citei em outro artigo, diz que, na internet, é impossível distinguir a defesa sincera de uma ideia absurda de uma paródia escrachada da ideia absurda, a menos que o autor se esforce para deixar sua intenção clara.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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