
No dia 18 de março, a Netflix lançou a série "Emergência Radioativa", que, em 5 episódios, conta uma história inspirada no que é considerado o maior acidente radiológico do mundo até agora: o caso de Goiânia, em 1987, envolvendo uma fonte radioativa abandonada de césio-137. A série não é o único produto audiovisual lançado sobre o assunto. Ela sucede filmes (“Césio-137: o pesadelo de Goiânia”, 1990), documentários (“O Brilho da Morte: 30 anos do césio-137”, 2017) e reportagens especiais (como a do programa “Linha Direta”, TV Globo, 2007).
Embora algumas críticas tenham surgido em relação à nova série – como a ausência da participação da associação das vítimas na produção, as gravações terem sido realizadas majoritariamente no estado de São Paulo e a pequena quantidade de pessoas representadas na equipe de resposta à emergência para fins dramáticos –, o fato é que os elementos principais da tragédia estão bem contados, permitindo ao espectador um vislumbre panorâmico do que aconteceu.
Neste artigo, vamos explorar o que são materiais radioativos e colocar o evento de Goiânia em perspectiva.
Para os não iniciados, materiais radioativos emitem, aleatoriamente, ou pequenos fragmentos de matéria (como um elétron), ou um breve “pulso” eletromagnético (de “luz” gama, por exemplo, que é mais energética que a faixa luminosa que conseguimos enxergar). Essas emissões, quando atingem o corpo humano em grande quantidade e em curto intervalo de tempo, geram danos biológicos que o organismo pode não conseguir reparar. E é isso que leva aos efeitos da exposição a altas doses de radiação.
O caso de Goiânia
De acordo com dados divulgados pela Netfilx, cerca de 4 milhões assistiram à série em apenas uma semana. Mas você pode não ter sido uma delas. Além disso, pela minha experiência, muita gente nem sequer sabe que um evento desse porte aconteceu no Brasil. De acordo com o relatório oficial:
Em 1987, uma máquina de radioterapia contendo uma cápsula de césio-137 de alta atividade radioativa ficou abandonada em um casario semidestruído depois que o Instituto Goiano de Radioterapia mudou de endereço: uma das fontes pertencentes à empresa, de cobalto-60, foi levada na mudança; a outra, contendo um pó de cloreto de césio-137, ficou para trás. No dia 13 de setembro, dois catadores de sucata levaram a cápsula de césio e, depois, romperam parcialmente a blindagem de chumbo no terreno da casa de um deles. No dia 18, venderam a peça para um ferro-velho. Os funcionários continuaram a desmantelar o envoltório de proteção e, no escurecer da noite, o proprietário do estabelecimento se surpreende com um brilho azul vindo do pó radioativo no interior da cápsula. Ele resolve, então, levá-la para casa e mostrar à família.
Nos dias seguintes, diversas pessoas, entre familiares e amigos, passam a ter contato com o pó curioso: manipulam a substância, passam nas mãos, no rosto, no corpo; alguns chegam a levar consigo um pouco para casa, como o irmão do proprietário, pai da menina Leide, de 6 anos de idade, uma das vítimas fatais da tragédia. Muitos dos envolvidos começaram rapidamente, em menos de dois dias, a manifestar sintomas característicos da exposição a altas doses de radiação, como vômitos e diarreia. Ao procurar atendimento médico, o diagnóstico característico recebido era de algum tipo de intoxicação alimentar.
Apenas no dia 28, a esposa do proprietário do ferro-velho resolve que é hora de, no mínimo, levar a cápsula à investigação, pois ela associa (corretamente) o estado deteriorado de todos à manipulação do aparato: acompanhada de um funcionário do ferro-velho, buscam a cápsula com o pó de césio (que, a esta altura, já havia sido novamente vendida e estava em outro ferro-velho) e a levam, dentro de uma sacola, em um ônibus urbano, até uma sede da Vigilância Sanitária. Ao chegar, relatam preocupação com a peça, o que faz com que um dos funcionários, por receio, leve uma cadeira para a área externa e coloque a sacola em cima para passar a noite, além de encaminhar os dois para atendimento médico.
No hospital, um dos médicos começa a desconfiar de que as lesões na pele que estavam aparecendo em várias das vítimas que examinou pudessem ser consequência de exposição à radiação. Faz contato com um médico do Centro Toxicológico, que também fora procurado, de modo independente, pelo funcionário da Vigilância Sanitária para reportar a preocupação com a peça recém-chegada. Este médico, então, na manhã seguinte (29 de setembro), consegue falar com um físico conhecido seu que estava de férias em Goiânia, pedindo que investigue a peça. O físico, usando medidores emprestados, segue para o local e verifica a presença de um material de intensa atividade radioativa.
A partir daí, começaram todas as ações de resposta à emergência radiológica. Isso envolve investigar locais com contaminação para providenciar evacuação e isolamento; localizar as pessoas que possivelmente sofreram exposição ou contaminação e encaminhá-las aos tratamentos adequados; preparar um local isolado para atendimento médico das vítimas contaminadas; prestar esclarecimentos à população; e descontaminar o ambiente.
Mais de 100 mil pessoas passaram por sondagem de contaminação radioativa em uma operação montada no Estádio Olímpico. Cerca de 150 apresentaram contaminação corporal interna ou externa, e outras 120 apenas em roupas ou sapatos. Houve quatro mortes.
O relatório oficial aponta que cerca de 550 pessoas participaram dos trabalhos de resposta à emergência, que durou meses. No total, 6 mil toneladas de rejeitos foram enterradas em dois fossos construídos em Abadia de Goiás, no Parque Estadual Telma Ortegal, onde deverão permanecer pelos próximos séculos. Como uma forma de registrar a relevância do evento, a bandeira da cidade passou a ostentar o símbolo conhecido como trifólio da radioatividade.
Quando passam a conhecer os eventos do acidente de Goiânia, as pessoas costumam rapidamente se lembrar da explosão da usina nuclear de Chernobyl (Ucrânia, 1986) e das detonações das bombas atômicas sobre o Japão, ao final da II Guerra Mundial. As conexões existem, afinal todos esses eventos estão relacionados à liberação de material radioativo no ambiente. No entanto, as detonações das bombas não se encaixam na definição de “acidente”; e a tragédia de Chernobyl, por estar associada a uma usina nuclear, é definida como “acidente nuclear”. Portanto, considerando-se apenas “acidentes radiológicos” (desconectados da cadeia de geração de energia em usinas nucleares), o caso de Goiânia costuma ser apontado como o pior do mundo até agora.
Um “pedaço de metal”
Um dos primeiros casos de acidente radiológico envolvendo o público de que se tem registro aconteceu no México, em 1962. Como isso já faz mais de 50 anos, alguns detalhes da história são imprecisos, mas essas são as informações do relatório oficial de 1964.
Em algum momento entre 21 de março e 1º de abril, um menino de 10 anos encontra uma fonte radioativa no quintal da casa recém-alugada pela família. A fonte, diferentemente do caso de Goiânia, era sólida, em formato parecido com um pequeno rebite de construção, com tamanho aproximado de 2 cm ou menos. De onde veio a fonte, não se sabe.
O menino mantém a fonte no bolso frontal esquerdo de suas calças por alguns dias, até que começa a perceber uma lesão avermelhada na pele. Em 1º de abril, a mãe encontra o objeto na calça e, por também não saber do que se trata, simplesmente o guarda em uma gaveta do armário da cozinha. Ao longo dos próximos dias, a família segue acumulando doses cada vez maiores de radiação. Logo todos começam a passar mal.
No dia 17, a avó paterna do menino vai passar um tempo na casa. Não demora muito e ela também começa a apresentar sintomas. A avó é a primeira a perceber o enegrecimento dos copos de vidro guardados no armário – uma consequência da irradiação prolongada do material.
O menino morre no hospital no dia 29. Quanto à fonte, continua na gaveta da cozinha. A família seguiu sendo irradiada, passando mal e procurando atendimento. A mãe, de 27 anos e grávida de cinco meses e meio, morre no hospital no dia 19 de julho. No dia 22, finalmente, a fonte é removida da casa, sem qualquer esclarecimento, pelo proprietário do imóvel. Seu paradeiro final é desconhecido. Por volta da primeira quinzena de agosto, os médicos começam a desconfiar de que os efeitos que a família vem sofrendo são consequência de exposição à radiação. A irmã do garoto, de 2 anos e meio, morre no hospital no dia 18 de agosto. Logo em seguida, no dia 20, o pai e a avó são internados. O pai, de 30 anos, consegue escapar e é liberado no dia 6 de outubro; a avó, aos 57, morre no dia 15.
Construções radioativas
O caso a seguir também vem do México, mas a situação foi identificada nos Estados Unidos, em 1984. No dia 16 de janeiro, um caminhão transportando vergalhões de construção civil acabou errando um caminho e passando por dentro de um portal de detecção de radiação de um laboratório em Los Álamos, no Novo México. O detector acusou um nível elevado de radiação e, automaticamente, registrou uma foto do caminhão. As autoridades norte-americanas investigaram a origem da carga e o acidente foi finalmente descoberto. Eis o que aconteceu:
No final da década de 1970, uma máquina de radioterapia foi vendida dos Estados Unidos para uma clínica no México. No entanto, nenhuma equipe capacitada para a operação da máquina foi contratada, deixando-a sem uso por cerca de seis anos. Em 1983, um funcionário é autorizado a desmantelá-la e vender as peças. Neste ato, ele acaba rompendo a blindagem externa da fonte. Diferentemente do caso de Goiânia, a fonte desta máquina não era um pó, mas um aglomerado de cerca de 6 mil pequenas pastilhas metálicas de cobalto-60. O material é colocado no compartimento de carga de uma caminhonete e tudo é levado a um ferro-velho.
Não é preciso um grande esforço intelectual para imaginar que as minúsculas pastilhas foram caindo pela caminhonete, e dela pela estrada, durante o transporte. No ferro-velho, peças de metal eram carregadas nos caminhões de transporte usando grandes eletroímãs, o que contribuiu significativamente para um espalhamento descontrolado das pastilhas radioativas por todo o local. Os caminhões carregados seguiram para locais de fundição, onde os rejeitos metálicos foram derretidos e transformados em novos produtos, como vergalhões de construção civil e peças para móveis.
Uma vez que a fundição de um material radioativo não muda sua radioatividade, isso resultou na produção e na distribuição de milhares de vergalhões e de pés de mesa metálicos contaminados com cobalto-60. Estima-se que 4 mil pessoas tenham sido expostas inadvertidamente à radiação. A imensa maioria, a doses baixas, sem maiores consequências. Pelos registros oficiais, cinco indivíduos receberam doses mais altas, mas nenhuma morte foi registrada.
Uma grande operação de rastreamento desses produtos foi colocada em prática, recolhendo-se mais de 2 mil unidades das mesas já distribuídas para serem enviadas para o descarte apropriado no México; o mesmo aconteceu com os vergalhões: cerca de 800 prédios públicos e privados foram identificados com níveis inaceitáveis de radiação e passaram por demolição total ou parcial. Pastilhas radioativas foram encontradas caídas em algumas estradas, além de contaminação mais preocupante na caminhonete do transporte inicial e no ferro-velho. Tudo reunido, virou lixo radioativo que foi enterrado de modo similar ao que aconteceu em Goiânia.
Utilidade pública
Escolhi esses dois acidentes mexicanos porque estão relacionados intimamente com o caso de Goiânia: todos foram causados pelo manejo inapropriado de fontes radioativas, pondo-as ao alcance de pessoas que não faziam ideia de com o que estavam lidando. Mas esta não é a única causa possível para eventos desse tipo, e ocorrências envolvendo materiais radioativos são mais comuns do que o público imagina. Isso porque estão presentes em inúmeras aplicações.
Outro caso que ganhou relevância internacional ocorreu na Austrália, na segunda quinzena de janeiro de 2023, quando uma fonte de césio-137 foi simplesmente perdida durante uma viagem de caminhão: a fonte aparentemente caiu porque os parafusos da caixa se soltaram durante o trajeto. Quando identificaram o fato, no destino, rapidamente se estabeleceu uma grande operação de busca. Equipes se mobilizaram ao longo da rodovia e comunicados de alerta foram produzidos para o público. Felizmente, em 1º de fevereiro, a fonte foi encontrada.
Aqui no Brasil, em julho do mesmo ano, foram encontradas duas fontes de césio em uma empresa de sucata de São Paulo. Haviam sido roubadas cerca de duas semanas antes, de uma mineradora, em Minas Gerais. E em Florianópolis, onde moro, participei, em 2024, de uma ocorrência deflagrada pelo possível encontro de materiais radioativos na residência de um senhor recentemente falecido. Felizmente, a atividade radioativa não era significativa.
Nas últimas décadas, principalmente depois do caso de Goiânia, regulamentações brasileiras foram criadas ou melhoradas. Hoje existe um controle maior sobre o uso de fontes radioativas. E o mesmo vale para os órgãos de segurança pública, que vêm sendo familiarizados ao tema (e, alguns, até especializados nisso) em diferentes lugares do Brasil. Aqui em Santa Catarina, por exemplo, faço parte da chamada Comissão Estadual “P2R2” (Prevenção, Preparação e Resposta Rápida a Emergências Ambientais com Produtos Perigosos) na função de assessoria relacionada a ocorrências com produtos radioativos.
O que fazer se você se deparar com algum material radioativo? Como fontes radioativas não têm uma forma específica – como um parafuso, por exemplo –, a recomendação é que as pessoas estejam atentas a objetos estranhos, principalmente se eles estiverem marcados com o símbolo internacional da radioatividade, o famoso trifólio preto e amarelo. Nesse caso, jamais manipule o material. Fique afastado e mantenha outras pessoas também longe. Faça contato com a Agência Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), que dispõe de um telefone de plantão 24 horas, ou, se você se esquecer, já vai ser de grande ajuda se reportar o caso a alguma das agências de segurança pública da sua região, como o Corpo de Bombeiros ou a Defesa Civil. Se a série da Netflix traz o assunto das emergências radiológicas de volta à tona, então aproveitemos o momento para ficar alerta: é assim que evitamos que novas tragédias aconteçam.
Marcelo Girardi Schappo é físico, com doutorado na área pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é professor do Instituto Federal de Santa Catarina, participa de projeto de pesquisa envolvendo interação da radiação com a matéria e coordena projeto de extensão voltado à divulgação científica de temas de física moderna e astronomia. É autor de livros de física para o Ensino Superior e de divulgação científica, como o “Armadilhas Camufladas de Ciências: mitos e pseudociências em nossas vidas” (Ed. Autografia)
