Depois do medo de transgênicos, glifosatofobia

Questão de Fato
26 dez 2019
campo de soja

A novela do herbicida glifosato ganhou um novo e inesperado capítulo no último dia 17, quando o advogado Timothy Litzenburg, de 37 anos, de Charlottesville, Virginia, foi preso e acusado por tentativa de extorsão. Litzenburg, solto sob fiança, foi o vitorioso no caso do jardineiro Dewayne Johnson, portador de linfoma não-Hodgkins terminal, que alega que sua doença foi causada pelo uso de glifosato no trabalho, numa ação que lhe rendeu uma indenização de US$ 290 milhões, hoje reduzida para US$ 75 milhões.

De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, antes de mover a causa, vencida em agosto de 2018, o causídico fez vários telefonemas e enviou email para “a empresa 1” (Monsanto), “posteriormente adquirida pela empresa 2” (Bayer) exigindo o pagamento de US$ 200 milhões, do contrário as ações da companhia seriam desvalorizadas em 40% e a firma viveria “um inferno na área de relações públicas”. Litzenburg não pretendia obter o dinheiro como indenização para seu cliente, mas para encher os bolsos da empresa em que trabalha,  em troca de manter este caso sob sigilo. Em bom português, o advogado iria embolsar o dinheiro. 

Como a empresa não concordou, o caso foi à Justiça na Califórnia, onde um júri sem formação científica lhe deu ganho de causa, por unanimidade, e abriu caminho para a abertura de 47 mil processos semelhantes, número que só aumenta.

Basta ligar a TV nos EUA para ser bombardeado com anúncios de advogados à caça de pacientes de câncer. “Você sofre de câncer? Costumava usar glifosato no seu jardim, calçada ou plantação? Fale conosco, porque você pode ter direito a uma indenização milionária.” Curiosamente, a esmagadora maioria dos processos abertos não é movida por agricultores, que só no ano de 2016, usaram 130 mil toneladas do herbicida dos EUA, mas por gente comum, que usa o produto em jardins domésticos, ou para matar o mato que nasce entre pedras e placas de cimento das calçadas. 

Pela lógica, se o glifosato realmente representa uma ameaça à saúde humana, a maioria dos casos deveria estar entre as pessoas mais expostas ao produto, e não entre as que usam doses mínimas.

Toxicologia

“É muito difícil reverter esse tipo de situação. Para os jurados esses casos são casos típicos de um coitado indefeso diante da grande corporação poderosa, e o advogado do primeiro processo foi muito esperto, ao tirar o foco do glifosato e levantar dúvida sobre os demais componentes do Roundup Ready, o nome comercial do herbicida. Na sua argumentação, Litzenburg admitiu que o glifosato tinha sido exaustivamente testado, mas que nada se sabia sobre seu outro componente, um surfactante, ou seja, um detergente que ajuda na absorção do produto pela planta,” explica o médico toxicologista Flavio Zambrone, presidente do Instituto Brasileiro de Toxicologia.  “É uma espécie de Fla x Flu em que é difícil contrapor argumentos, até pela dificuldade de compreensão, pelo público em geral, da ciência envolvida.”

Todos os processos abertos até agora têm como base um relatório da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), com sede em Lion, na França, que é o braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para câncer e que classifica vários agentes em cancerígenos, “possivelmente” cancerígenos e “provavelmente” cancerígenos. O IARC tende a fazer anúncios bombásticos de seus relatórios, como foi o caso do bacon e embutidos, que foram manchete durante dias. 

Uma análise da agência de mais de mil substâncias, processos e atividades classificou praticamente todos como “cancerígenos”, “provavelmente cancerígenos” ou “possivelmente cancerígenos”. Só uma molécula escapou e foi declarada “provavelmente não carcinogênica para humanos”: a caprolactama, usada na fabricação de náilon.

A IARC, portanto, avalia perigo e não risco e leva em conta qualquer indício de carcinogenicidade, descartando dados importantes como a dosagem e a exposição a que a pessoa é submetida. Isso significa que para a agência tanto faz a situação da vida real como a de laboratório, quando se criam situações improváveis, como a exposição de roedores a dosagens que jamais ocorreriam no dia-a-dia. No caso do glifosato foi exatamente isso que ocorreu: foram usados dados obtidos em laboratório porque as evidências em seres humanos foram consideradas “limitadas”.

O mesmo tipo de avaliação levou o café a ser considerado “provavelmente cancerígeno” pela agência, a despeito do fato de que a dosagem relacionada à doença, em animais de laboratório, corresponde a 50 litros de café ao dia, todos os dias e por um ano, em humanos.

Também “curiosamente”, duas semanas após a divulgação do relatório, o epidemiologista de câncer Christopher Portier, que presidiu a comissão da IARC que priorizou o glifosato, assinou um contrato milionário para ser consultor de uma firma de advocacia envolvida nos processos contra a Bayer/Monsanto. 

Opinião isolada

A IARC é a única agência oficial que aponta o produto como provavelmente cancerígeno. Nem a Health Canada, a European Chemical Agency, o Instituto Federal para Avaliação de Risco da Alemanha, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), entre outras, endossam o parecer do IARC. Canadá, União Europeia, Austrália e Estados Unidos e, no Brasil, a Anvisa não têm a menor intenção nem de proibir nem de obrigar a empresa a altera o rótulo do produto. 

Os três julgamentos ocorridos até agora, todos com ganho de causa para os queixosos – ainda cabem recursos – são de pessoas que têm ou tiveram linfomas não-Hodgkins (LNH), doença que tem origem nos linfócitos, células do sistema imunológico. Ninguém sabe a causa dos linfomas – existem 60 subtipos diferentes – e tudo que se tem, por enquanto, são associações estatísticas que indicam grupos de risco. 

Linfomas não-Hodgkin são mais comuns em pessoas com mais de 60 aos, embora possam ocorrer em pessoas mais jovens, são mais frequentes em homens, em pessoas com imunodeficiências ou que sofrem de doenças autoimunes, que tiveram infecções por HTLV-1, vírus de Epstein-Barr ou HHV-8 (herpes) ou infecções de longo prazo por Helicobacter pylori (úlcera e gastrite) e Chlamydophyla psittaci (psitacose). Os sites sobre câncer do MD Anderson Cancer Center, da American Cancer Society e do National Cancer Institute (NCI), entre outros, dizem ainda que algumas pesquisas “sugerem que benzeno, alguns herbicidas e pesticidas podem estar associados a um maior risco, mas ainda são necessários estudos que comprovem essa possibilidade”. 

Desde 2005, o respeitado NCI acompanha 54 mil pessoas expostas a altas doses de glifosato  e na última atualização, publicada em 2018, não houve qualquer aumento na incidência de linfomas e outros 20 tipos de câncer nessa população, onde a incidência da doença não é diferente da incidência na população em geral. 

O IARC, que sabia que essa atualização estava em andamento, ignorou completamente a pesquisa em seu relatório e a juíza do terceiro caso do glifosato, Winifred Smith, não permitiu que a Bayer a apresentasse, por considerá-la “irrelevante”. A juíza sentenciou a empresa a pagar indenização de US$ 2 bilhões ao casal Alva e Alberta Pilliod, ambos com histórico de doenças imunológicas, e que usavam o produto nos jardins de suas três propriedades, sem máscara ou outra proteção. Num primeiro recurso, esse valor baixou para US$ 75 milhões.

O glifosato é o herbicida mais usado em todo o mundo há 45 anos, desde que foi lançado pela Monsanto, em 1974. Ele inibe uma enzima, que só existe em plantas e bactérias. Sem ela, a planta não consegue produzir proteínas e morre. O glifosato é degradado por bactérias de solo e tem uma vida média de 47 dias na terra. Estima-se que seja eliminado do organismo humano, caso haja alguma contaminação, em 33 horas. Animais de laboratório, expostos continuamente ao produto por semanas, não mostram mais sinais de glifosato no organismo após dez dias de “jejum”.

Vale lembrar que a patente do glifosato caducou no ano 2000 e que, em países como o Brasil, o produto mais usado não é o Roundup Ready, da Monsanto/Bayer, mas genéricos produzidos na China.

Pós-transgênico

O glifosato era um ilustre desconhecido da maior parte da população até 1996, quando a Monsato lançou sua primeira semente transgênica, a da soja RR, resistente ao glifosato por ter recebido um outro gene que produz os mesmíssimos aminoácidos. Ou seja, o glifosato inibe a enzima-alvo  da soja transgênica, mas ela sobrevive porque tem um “gene de reserva”, enquanto as ervas daninhas da plantação morrem.

Nos EUA, 94% da soja é transgênica, além de 90% do milho e do algodão. O glifosato é o produto mais usado em toda história da agricultura, e o mercado mundial do herbicida deve chegar US$ 12 bilhões em 2024. “Ele é literalmente fabuloso,” declarou Andy Bensend, fazendeiro do Wisconsin, em entrevista a The New York Times, em setembro. Bessend usa o produto há 40 anos em cultivares de soja, milho e alfafa. “Sem Roundup Ready, acaba o plantio direto,” diz outro agricultor, Glenn Brunkow, referindo-se à técnica, vinda da agricultura orgânica, que permite o plantio de nova safra sobre a palha da anterior, na qual se aplica glifosato após a colheita. A técnica dispensa a necessidade de revirar o solo para nova semeadura, mantém a água no terreno e, assim, evita a erosão, preserva a microbiota do solo, reduz as emissões de gases do efeito estufa e o uso de fertilizantes.

Desde que começaram os processos, o glifosato virou uma espécie de pai de todos os males, com “argumentos” que lembram muito os usados na década de 90 contra os transgênicos.

Causa autismo, causa câncer, é a verdadeira causa da doença celíaca (que era conhecida muito antes do glifosato) contamina tudo que toca qual praga bíblica, causa mortandade de peixes e logo, logo, vai aparecer alguém dizendo que causa impotência sexual masculina, como se dizia dos transgênicos. O medo estimula um mercado próprio. Pelo menos desde 2017 existe, nos Estados Unidos, uma certificação “livre de resíduos de glifosato”, que pode ser obtida pelo custo aproximado de US$ 2 mil; há cerca de 300 produtos certificados até agora, de mais de 50 diferentes marcas.

“As pessoas não conseguem mais bater nos transgênicos, e passaram a investir contra o glifosato”, avalia Zambrone. Bem-vindo ao mundo da glifosatofobia. 

 

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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