
Deixe-me começar com uma breve história de bastidores. No fim do ano passado, após a publicação do meu artigo “OMS se enrola no paradoxo da medicina alternativa”, recebi elogios e, como esperado, críticas, educadas, por sinal. Nele, discuti a contradição no posicionamento da Organização Mundial da Saúde ao incluir a medicina integrativa no escopo da medicina tradicional, enquanto afirma que práticas em saúde devem se basear em evidências sólidas.
Entre as respostas, uma chamou atenção. Não vou expor o autor, embora tivesse autorização, mas trata-se de alguém que atuou, ou ainda atua, como consultor da OPAS/OMS em doenças crônicas e medicinas tradicionais e complementares. Em sua réplica, apresentou pontos razoáveis e me convidou para um debate.
Um de seus argumentos finais merece destaque. Segundo ele, a OMS não estaria promovendo irracionalidade, mas defendendo a necessidade de mais pesquisas, conduzidas de forma adequada à complexidade dessas práticas. Além disso, argumentou que os riscos não seriam exclusivos das terapias alternativas, já que iatrogenia, polifarmácia e erros diagnósticos na medicina convencional causariam mais danos.
Em parte, isso é verdadeiro. Problemas estruturais na medicina existem e devem ser enfrentados. Ignorá-los seria desonesto. Ainda assim, essa linha de raciocínio carrega uma falha importante: sugere, ainda que implicitamente, que os danos da substituição de tratamentos eficazes por alternativas sem comprovação seriam um “mal menor”.
E não são. Os riscos não se excluem. Eles se acumulam.
Isso fica mais evidente em casos concretos. Paloma Shemirani, uma jovem de 23 anos, morreu de linfoma não Hodgkin, um câncer com alta probabilidade de sobrevida quando tratado adequadamente. Influenciada pela mãe e por um histórico de “curas naturais”, abandonou a quimioterapia e optou pela terapia Gerson, baseada em dieta restritiva, sucos, suplementos e enemas de café.
Seu estado se agravou até o desfecho fatal.
O mais perturbador, contudo, não é apenas o resultado, mas o contexto. Sua mãe, uma enfermeira com registro cassado após promover desinformação durante a pandemia, continuou ativa nas redes sociais, acumulando milhões de visualizações e incentivando outras pessoas a seguir abordagens semelhantes.
Esse tipo de influência não ocorre de forma isolada. Insere-se em um ambiente em que a desinformação em saúde circula com facilidade, frequentemente associada a promessas simples para problemas complexos.
Nas redes sociais, esse conteúdo ganha tração com facilidade. Perfis que divulgam essas ideias acumulam milhares ou milhões de visualizações, sustentados por narrativas que atribuem doenças a “toxinas” e prometem reversão completa por intervenções naturais, desde que, claro, o interessado entre em contato.
Diante desse cenário, surge uma questão: pessoas que defendem práticas integrativas e alternativas tendem, necessariamente, a rejeitar a medicina convencional?
Diversos estudos investigaram essa relação sob diferentes perspectivas. Alguns analisaram o conteúdo digital produzido por praticantes de medicina alternativa, especialmente no contexto do câncer. Outros avaliaram como o uso de terapias alternativas, suplementos e fitoterápicos pode associar-se a piores desfechos clínicos.
Ao analisar esses achados, torna-se mais claro por que adotar uma postura cética em relação à maioria das práticas integrativas, alternativas ou complementares, independentemente do rótulo, não é apenas razoável, mas necessário.
Desinformações sobre câncer
Vale observar como as pessoas percebem a desinformação em saúde nas redes sociais. O estudo “Perceptions of Health Misinformation on Social Media: Cross-Sectional Survey Study” analisou 5.041 usuários nos Estados Unidos e mostrou que 35,61% percebem alta quantidade de desinformação, enquanto 66,56% relatam dificuldade em distinguir conteúdos verdadeiros de falsos.
Esse dado indica que o problema não está apenas no volume de conteúdo enganoso, mas também na dificuldade de reconhecê-lo.
Como descrito na revisão “Cancer misinformation on social media”, as redes funcionam como espaços de interação que ampliam o compartilhamento de informações, mas também favorecem a desinformação por meio de echo chambers, viés de confirmação e conteúdos de fontes sem afiliação institucional. Soma-se a isso o uso de linguagem sensacionalista, que destaca benefícios e reduz a visibilidade de informações científicas mais complexas.
Mesmo fontes consideradas confiáveis podem apresentar conflitos de interesse não transparentes, e análises de acurácia frequentemente identificam conteúdos enganosos. No estudo “Instagram and Prostate Cancer”, por exemplo, cerca de 90% das 126 mídias apresentavam qualidade baixa a moderada, e aproximadamente 40% continham desinformação significativa.
De forma consistente, conteúdos enganosos geram maior engajamento e chegam às consultas médicas. Em um estudo com 2.183 profissionais, 94,2% relataram que pacientes trouxeram desinformação no último ano. Em outro, com 603 adultos, 55,9% relataram exposição a tratamentos alternativos, dos quais 71,3% acreditavam ser verdadeiros ao menos ocasionalmente, proporção maior entre pacientes com câncer.
Em conjunto, as evidências indicam que, embora as redes ampliem o acesso à informação, a desinformação é um problema generalizado, com potencial de prejudicar o cuidado oncológico. Diante do volume de conteúdo, médicos não conseguem responder sozinhos, o que reforça a necessidade de atuação de sociedades profissionais, plataformas e governos.
Aprofundando-se no conteúdo audiovisual, o estudo “Alternative Health and Conventional Medicine Discourse About Cancer on TikTok” analisou 831 vídeos e identificou três padrões: alta prevalência de desinformação, distorção da compreensão pública e o papel das redes na promoção da saúde alternativa. Dados do Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH) mostram aumento no uso dessas práticas (19,2% em 2002 para 36,7% em 2022), acompanhado por fenômenos como o crowdfunding para tratamentos não comprovados, que arrecadou cerca de US$ 10 milhões no Reino Unido entre 2012 e 2018, e por narrativas de desconfiança na “Big Pharma”.
Nos vídeos, conteúdos de saúde alternativa exibem mais rostos, cenários naturais e tons frios, enquanto nos de medicina convencional predominam ambientes clínicos. Narrativamente, a medicina convencional enfatiza doença e sofrimento, enquanto a alternativa constrói uma estética de bem-estar. Embora ambas usem depoimentos, na convencional eles coexistem com conteúdo educativo e sinais de autoridade; na alternativa, experiência pessoal e autoridade se confundem.
O estudo “The Use of Traditional, Complementary, and Integrative Medicine in Cancer: Data-Mining Study of 1 Million Web-Based Posts From Health Forums and Social Media Platforms” analisou mais de 1,6 milhão de postagens sobre medicina alternativa e câncer e verificou que postagens positivas destacavam melhora de sintomas, benefícios gerais para corpo e mente, redução do uso de medicamentos e alívio de efeitos colaterais de tratamentos convencionais.
Algumas postagens relataram efeitos adversos, como dor e sangramento associados a suplementos, além de potenciais interações com terapias convencionais. Também houve críticas à falta de base científica, com relatos de recusa ou atraso no tratamento convencional, associados a pior prognóstico. A falta de conhecimento por parte de profissionais e a escassez de informações confiáveis surgem como barreiras adicionais.
Os autores concluem que pacientes utilizam ativamente essas plataformas para compartilhar experiências, o que reforça a necessidade de comunicação mais eficaz e de maior abertura dos médicos ao discutir essas práticas.
Uma conclusão que, a meu ver, somada aos achados dos demais estudos, permite delinear uma visão clara do conteúdo sobre câncer nas redes sociais, pode ser sintetizada da seguinte forma: embora seja importante que profissionais conheçam essas terapias para dialogar com seus pacientes, isso não deve ser interpretado como aval. Pelo contrário, esse conhecimento é essencial para mitigar riscos, como interações entre suplementos e medicamentos, e para explicar por que muitas dessas intervenções carecem de evidência ou plausibilidade, como a homeopatia.
Os riscos
Publicado no JAMA Network Open, o artigo “Use of Complementary and Alternative Medicine in the Management of Breast Cancer” avaliou a associação entre o uso de medicina complementar e alternativa (CAM) e a sobrevida em pacientes com câncer de mama.
Foram analisados dados de mulheres diagnosticadas entre 2011 e 2021 no National Cancer Database, que cobre cerca de 70% dos novos casos de câncer nos Estados Unidos. As pacientes foram classificadas em quatro grupos: terapia tradicional isolada, CAM isolada, combinação de ambas e ausência de tratamento.
A amostra incluiu 2.156.219 pacientes: 97,6% receberam terapia tradicional, menos de 0,1% utilizaram apenas CAM, menos de 0,1% combinaram abordagens e 2,3% não receberam tratamento. Este último grupo era mais velho, com idade mediana de 67 anos, versus 62 no grupo tradicional e 54 no combinado. Observou-se que aquelas que utilizaram apenas CAM eram, à exceção do câncer, mais saudáveis, com maior proporção de índice de comorbidades de Charlson — ferramenta que estima a mortalidade causada por outras doenças e problemas de saúde num intervalo de dez anos — igual a zero.
Na análise de sobrevida não ajustada, a terapia tradicional apresentou as maiores taxas de sobrevida global — período desde o diagnóstico ou início do tratamento até a morte — em cinco anos (85,4%), seguida pela combinação (81,2%), CAM isolada (60,1%) e ausência de tratamento (47,8%). Na análise ajustada, todas as demais abordagens estiveram associadas a maior mortalidade em comparação à terapia tradicional: CAM isolada apresentou risco 3,67 vezes maior, ausência de tratamento 3,53 vezes maior e a combinação, 1,45 vez maior.
Diante da maior mortalidade no grupo combinado, os autores investigaram a hipótese de omissão de tratamentos convencionais. De fato, embora a cirurgia tenha sido amplamente mantida, houve menor uso de radioterapia, quimioterapia e terapia endócrina. Essa omissão pode refletir efeitos adversos, idade, comorbidades, barreiras de acesso ou receio de toxicidade.
Os autores concluem que a sobrevida global foi inferior entre pacientes que utilizaram CAM, isoladamente ou em combinação, em comparação à terapia tradicional isolada. Ainda assim, a combinação foi superior à ausência de tratamento, enquanto a CAM isolada apresentou desfechos semelhantes ao não tratamento.
Apesar disso, o impacto individual permanece incerto, e o estudo não permite estabelecer causalidade nem avaliar adequadamente pacientes que aderiram plenamente à terapia convencional e apenas adicionaram CAM. Tampouco é possível, com base nesses dados, refutar ou apoiar o uso adjuvante de práticas específicas, algumas das quais podem contribuir para o manejo de sintomas e a qualidade de vida.
Outro ponto relevante é a provável subnotificação do uso de CAM no banco de dados, já que estudos anteriores sugerem prevalências próximas de 30%. Como o registro depende de prontuários, muitos pacientes podem não relatar o uso, especialmente quando não discutem essas práticas com seus oncologistas. Esse cenário pode favorecer o uso concomitante sem supervisão e aumentar o risco de abandono parcial do tratamento convencional.
Ainda assim, o conjunto sugere que a presença de terapias alternativas, mesmo como coadjuvantes, está associada à redução da sobrevida, seja por menor adesão a intervenções eficazes, seja pela substituição de tratamentos baseados em evidências.
Esse ponto se torna ainda mais relevante quando consideramos que muitas dessas abordagens envolvem “produtos naturais”, como suplementos, extratos ou fitoterápicos, frequentemente percebidos como inofensivos, mas que podem apresentar riscos.
Um estudo recente, intitulado “Analysis of 386 alternative medicinal products implicated in liver injury reveal clinically relevant associations with potentially hepatotoxic botanicals, pharmaceutical adulteration, heavy metal contamination, and undisclosed animal content”, que analisou produtos de CAM associados à lesão hepática em um centro médico no sul da Índia, ilustra o problema.
Foram incluídos 91 pacientes com eventos adversos atribuídos a esses produtos, que utilizaram, em média, mais de quatro formulações. Eventos hepáticos ocorreram em 86% dos casos, sendo a insuficiência hepática aguda sobre crônica (ACLF) a mais comum, com mortalidade de 38,9%. A mortalidade global foi de 22%, e a presença de ACLF foi o principal preditor independente de morte, com risco cerca de 4,7 vezes maior.
Entre os produtos, cerca de 62,2% eram regulados. O consumo de produtos não rotulados esteve fortemente associado à mortalidade, com relação à dose-resposta.
Foram identificados 518 ingredientes distintos, e cerca de 35% dos produtos continham ao menos um composto botânico com potencial hepatotóxico. Mais de dois terços dos pacientes foram expostos a essas substâncias.
Além disso, observou-se ampla contaminação por metais pesados, frequentemente acima dos limites recomendados, com exposição relevante a mercúrio, chumbo e cádmio.
Dentre as limitações, destaca-se que o estudo é observacional, não permitindo inferir causalidade. Além disso, por ter sido conduzido em um único centro, há risco de viés de seleção e de super-representação de casos mais graves.
A substituição de tratamentos eficazes por terapias alternativas já é um problema conhecido. Mas mesmo o uso concomitante pode se associar a piores desfechos, especialmente quando envolve omissão ou baixa adesão ao tratamento convencional, seja por medo, desconhecimento ou falsa sensação de segurança.
Isso não significa que todas as terapias alternativas ofereçam os mesmos riscos, nem que todo uso complementar resulte nos mesmos problemas. Ainda assim, diante do nível de evidência disponível, a postura mais coerente segue sendo a cautela. Profissionais de saúde devem explorar os motivos que levam os pacientes a buscar essas abordagens, discutir os possíveis efeitos adversos e reforçar que os melhores desfechos continuam associados a intervenções com eficácia demonstrada.
No fim, trocar evidência por crença raramente é uma boa estratégia quando o que está em jogo é a própria saúde.
Mauro Proença é nutricionista
REFERÊNCIAS
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