
A questão da "neutralidade da ciência" é um daqueles debates que só existem porque ou as pessoas estão sendo intelectualmente desonestas, usando as palavras "ciência" e "neutralidade" com dois ou três sentidos diferentes na mesma frase de forma deliberada, ou intelectualmente desleixadas, usando as palavras "ciência" e "neutralidade" com dois ou três sentidos diferentes na mesma frase, mas sem notar o furdúncio desnecessário que estão criando.
Quando se definem os termos com o mínimo necessário de precisão para que a conversa seja produtiva, fica claro que a pergunta "a ciência é neutra?" comporta duas respostas: sim e não. Depende do que você quer dizer exatamente com "ciência" e "neutralidade".
Começando pelo "sim": a "ciência é neutra" se você estiver usando "ciência" para significar "teorias científicas bem embasadas" e "neutra" para significar "objetiva", no sentido de independente de vontades, opiniões ou desejos humanos. A gravidade, os vírus, a evolução existem independentemente das vontades, opiniões e interesses de quem quer que seja. Mesmo que nenhum ser humano jamais tivesse existido, a Terra ainda seria redonda, a Lua ainda teria crateras e Marte, montanhas; a força eletromagnética seguiria obedecendo à lei inversa do quadrado da distância; a energia seria conservada; e assim por diante.
Numa escala menor, se um experimento científico é conduzido de forma honesta, competente e com metodologia adequada, então o ponteiro do contador Geiger, a cor final do produto da reação química, o número de curas no grupo tratamento em comparação com o grupo placebo são o que são e revelam fatos objetivos do mundo, fatos independentes da vontade ou das expectativas dos pesquisadores, dos financiadores, de Bill Gates, Donald Trump ou quem quer que seja. Todo cientista que já viu um experimento "dar errado" sabe exatamente do que estou falando.
Agora, “ciência” nesse sentido de “teorias bem embasadas, observações e experimentos bem planejados e conduzidos” não é “neutra” se, por “neutra”, alguém estiver querendo dizer “indiferente”: resultados científicos têm implicações e consequências. Mas é “neutra” no sentido de que ninguém escolhe essas implicações e consequências – elas decorrem logicamente dos resultados, não das vontades e desejos de quem quer que seja. Que a lógica pode ser pervertida por retórica é um dado da natureza humana. Mas é a ciência que, no fim, permite detectar e corrigir essas perversões, quando ocorrem.
Dizer que "a ciência não é neutra" também passa a ser verdade se você estiver usando ciência para referir-se à "comunidade científica", "comunidade acadêmica" ou "grupos de pesquisa", e "neutra" para significar "isenta de valores e de desejos": é óbvio que sempre há interesses em jogo, seja os dos financiadores da pesquisa, seja a própria curiosidade dos pesquisadores: ninguém vai a campo sem ter um palpite, um resultado favorito em mente, ou o desejo de publicar e avançar na carreira.
A agenda de pesquisa, o que merece ser investigado, qual aspecto da realidade será tratado como mais relevante, quem vai investigar, qual a hierarquia de prioridades – nada disso é neutro, no sentido de “desinteressado” ou “indiferente”.
Também, a "ciência não é neutra" se por "ciência" você estiver querendo dizer "resultados científicos tal como aplicados à criação de tecnologias" e "neutra" como, mais uma vez, "desinteressada": tecnologias são, por definição, criadas para resolver problemas, e a decisão de quais problemas merecem ser resolvidos é tomada com base em valores e interesses, que, também por definição, nunca são neutros.
A palavra “interesses” tem uma carga semântica negativa – evoca a imagem de homens sinistros de chapéu e sobretudo conversando em becos escuros –, mas é preciso ter em mente que há interesses perfeitamente legítimos que muitas vezes entram em conflito, e que decisões sobre quais priorizar podem ser tomadas de forma democrática e transparente.
Além disso, a estrutura social da comunidade científica, com sua ênfase em ceticismo organizado, reprodutibilidade e revisão sistemática, bem como as ferramentas metodológicas das diferentes ciências, foram construídas ao longo de séculos, por tentativa e erro, exatamente para filtrar, no processo de consolidação das teorias maduras e das confirmações observacionais e experimentais, fatores que não correspondam diretamente aos fatos do mundo relevantes para o fenômeno estudado.
Como tudo o que é humano, esses filtros são imperfeitos, mas os seguidos sucessos da empreitada científica – o espantoso aumento da expectativa de vida, as tecnologias que nos cercam no dia a dia, as viagens à Lua, o controle da recente pandemia – mostram que, aplicados de forma recorrente ao longo do tempo, geram resultados extraordinários.
Os impactos gerais do conhecimento científico nos rumos da sociedade também não são “neutros”, no sentido de “indiferentes”: a aplicação das tecnologias e dos fatos científicos à realidade social depende de decisões sobre o que usar, quando, como e em qual contexto, decisões que, mais uma vez, são baseadas em valores e interesses.
A decisão de lançar ou não uma campanha de vacinação pode conter uma série de subjetividades e pressupostos ideológicos, e pode ser vista como correta ou errada de acordo com valores e perspectivas divergentes, mas os dados sobre a eficácia e segurança da vacina, e sobre os riscos da doença que ela vai evitar, são o que são.
O falso debate sobre a neutralidade da ciência seria apenas um caso menor de desperdício de energia se não se prestasse, de novo e de novo, ao papel de mutreta retórica para mobilizar os contextos que validam a frase "ciência não é neutra" a fim de minar exatamente aqueles sentidos em que "ciência" significa, sim, informação objetiva, retrato do real baseado numa descrição honesta e correta (ou na descrição mais correta possível) dos fatos do mundo, e não um mero discurso construído a parir de valores, desejos e subjetividades.
Desse modo, abre-se caminho para um perspectivismo obtuso que nega a validade universal de resultados bem fundamentados, colocando-os no mesmo plano de alegações de base mítica ou ideológica, viabilizando e facilitando a circulação de teorias da conspiração e de negacionismo. Já virou clichê dizer que há debates que produzem mais atrito do que luz. Só é preciso acrescentar que, em muitos desses debates, pelo menos um dos lados nunca está sinceramente interessado em ver, ou produzir, alguma luz: atrito é o nome do jogo, a verdadeira alma do negócio.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "What Science Says About Astrology (Columbia University), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto).
