A autocrítica de Yale traz lições para o Brasil

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11 mai 2026
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Um comitê formado por dez professores de Yale estudou, durante um ano, as possíveis causas da perda de credibilidade da educação superior perante a sociedade americana. O relatório, datado de 10 de abril, foca em Yale, mas traz diversas reflexões que podem ser transportadas, com as devidas adaptações, para o cenário brasileiro, e desenha um panorama que ajuda a explicar por que as universidades têm perdido prestígio junto à sociedade.

Além de Yale, outras sete universidades privadas americanas – Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, University of Pennsylvania e Princeton – fazem parte da chamada Ivy League, termo que originalmente designava uma liga esportiva, mas que se tornou sinônimo de elite acadêmica. O ingresso nas instituições da Ivy League passa por uma seleção que combina histórico escolar, testes padronizados, redações, cartas de recomendação e atividades extracurriculares. Pagam-se também valores elevados para estudar nesses estabelecimentos, em contraste com o cenário brasileiro, no qual o ensino superior nas instituições mais bem ranqueadas – públicas – é financiado por impostos.

O comitê identificou três fatores imediatos que afetam a confiança nas instituições americanas: o preço elevado da educação superior; o sistema de admissão pouco transparente; e questões relacionadas à liberdade de expressão, ao viés político e à autocensura. O relatório também cita, logo nas primeiras páginas, outro fator relevante para o descrédito: a incerteza a respeito do propósito fundamental e da missão da educação superior. Os fatores relacionados ao custo e à forma de ingresso não se aplicam da mesma maneira às universidades públicas brasileiras. As demais causas, porém, apontam para questões que venho mencionando há tempos.

A recuperação da imagem da universidade passa por fazer bem aquilo para o que ela foi criada. O discurso e as ações de caráter populista que vendem a universidade pública como redentora de todas as mazelas sociais também aparecem lá fora: em 2016, Yale ampliou sua missão para incluir objetivos como “melhorar o mundo”. Não se trata de desmerecer esses objetivos, ainda que difusos, mas de entender que, se os recursos não são infinitos, não é possível acomodar tudo. Além disso, manter o foco na missão fundamental ajuda a tornar mais clara, para o público, a função da universidade. Como afirma o relatório, em tradução livre: “Recomendamos que Yale adote uma declaração de missão institucional, válida para toda a universidade, mais precisa e concentrada, como a que já consta de seu próprio Faculty Handbook: ‘A missão da Universidade Yale é criar, disseminar e preservar conhecimento por meio da pesquisa e do ensino.’”

A utilização responsável dos recursos públicos, com prioridade para as atividades-fim da universidade, exige uma gestão que saiba onde quer chegar e que possa defender publicamente por que é preciso seguir por um caminho, e não por outro. Sem isso, a instituição fica à mercê de questões conjunturais que acabam por comprometer a confiança dos públicos interno e externo. De acordo com o relatório de Yale: “Uma universidade comprometida com a investigação baseada em evidências e com um rigoroso autoexame deve ser capaz de dizer, com franqueza, em que áreas o crescimento administrativo serviu bem à sua missão e em quais não serviu. E deve ser capaz de demonstrar esse juízo com a mesma qualidade de evidências que exigiria de sua própria produção acadêmica”.

O relatório afirma que a autocensura, o efeito da pessoa se calar por causa de intimidações da própria comunidade, e o viés político são fatores que afetam a imagem pública da instituição: “As principais universidades do país, incluindo Yale, tendem a excluir tradições intelectuais conservadoras. Alguns apontam para a composição partidária do corpo docente, observando que os professores se identificam, de forma esmagadora, com o Partido Democrata. Outros se concentram no currículo ou na sugestão de que professores liberais doutrinam seus alunos. Tomadas em conjunto, essas críticas apresentam as universidades como câmaras de eco intelectuais e ideológicas”.

Dados do relatório mencionam que de acordo com a Gallup, empresa americana de pesquisa de opinião, o percentual dos que se identificam como republicanos e dizem confiar na educação superior caiu de 56%, em 2015, para 26%, em 2025. Entre os democratas, a queda foi bem menor: de 68% para 61% no mesmo período. O que deveria chamar atenção aqui não é a diferença de confiança de acordo com a inclinação política, mas o simples fato de existir uma diferença tão significativa, mostrando que a imagem das universidades se aproxima da de partidos políticos. Uma conduta universitária adequada não deveria mostrar diferença em relação a preferências políticas.

A pesquisa “O Brasil Invisível”, da More in Common com a Quaest, mostra que a concordância com a ideia de que as universidades públicas promovem mais ideologia de esquerda do que educação de qualidade cresce de 7% entre os “Progressistas Militantes” para 82% entre os “Patriotas Indignados”. Nos demais segmentos, 20% da “Esquerda Tradicional”, 41% dos “Desengajados”, 54% dos “Cautelosos” e 77% dos “Conservadores Tradicionais” concordam com essa afirmação. O resultado, obtido em uma pesquisa com 10.002 entrevistados em todo o Brasil, é preocupante e sugere que a imagem da universidade pública está, para uma parcela expressiva da população, associada à percepção de militância política.

O relatório de Yale, ainda que associado a uma instituição com características muito distintas das universidades públicas brasileiras, traz contribuições importantes que poderiam ser consideradas por reitores e pela comunidade acadêmica. Recentemente, também foi lançado no Brasil um manifesto em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica, chamando a atenção para desvios de rota nas universidades. Mais do que críticas externas ou ataques à universidade, esses documentos apontam para uma necessidade urgente: a universidade deve ser um ambiente em que ideias sejam debatidas livremente e em que a sociedade reconheça que os recursos públicos estão sendo bem utilizados.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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