
Em um mundo ideal, a decisão de se vacinar contra uma doença potencialmente fatal ou incapacitante, como a COVID-19, com um produto aprovado pelas autoridades sanitárias, devidamente testado e demonstrado como seguro e eficaz, deveria ser basicamente parte autopreservação, parte preocupação com a saúde pública. A ascensão do movimento antivacina, a disseminação da desinformação a ele associada e sua captura por certos atores políticos, no entanto, complicou este cenário. Agora, além de características como eficácia, risco de efeitos adversos e duração da proteção, ela envolve fatores como o país de origem da vacina, o tempo de desenvolvimento do produto, e sofre forte influência da orientação ideológica, mostra estudo que usou uma metodologia inédita na avaliação da hesitação vacinal no Brasil no contexto de uma eventual futura pandemia como a de COVID-19.
De um tipo conhecido como Experimento de Escolha Discreta, o estudo publicado recentemente no periódico Health Policy and Technology apresentou a uma amostra de 3.001 participantes, representativa da população brasileira em termos de gênero, idade e região, uma matriz de cenários com sete variáveis. Cinco estavam relacionadas à vacina em si: eficácia (em quatro níveis, de 40%, 60%, 70% e 90%); risco de efeitos adversos graves (também em quatro níveis, de 1 caso em 100 mil a 20 em 100 mil, passando por 5 e 12 casos em 100 mil); duração da proteção (3, 6, 12 ou 24 meses); tempo entre o primeiro ensaio clínico e aprovação para uso (6, 12 e 24 meses); e país de origem do fabricante (China, União Europeia, Reino Unido, EUA ou Rússia). Já as outras duas eram medidas não farmacológicas de combate à pandemia: nível das restrições às atividades sociais (nenhuma permitida, algumas permitidas ou todas permitidas); e a exigência ou não da vacina para retorno ao trabalho. Os participantes também tiveram que responder a questões sobre o nível de confiança nas autoridades de saúde, posicionamento político e outros dados socioeconômicos como religião, escolaridade e renda, bem como seu status vacinal contra a COVID-19.
Com isso, os pesquisadores primeiro analisaram os fatores mais associados à adesão à vacinação. Neste sentido, o gênero foi um dos preditores mais fortes, com as mulheres significativamente mais propensas a se vacinar do que os homens. Renda mais alta se mostrou um fator marginalmente positivo, enquanto declarar-se cristão evangélico se destacou como negativo. A orientação política também teve um papel crítico, com os participantes que se identificaram mais à esquerda mais propensos a se vacinarem. A confiança nas autoridades de saúde foi outro fator com associação positiva à vacinação, enquanto escolaridade, idade e região de moradia não tiveram influência significativa.
Padrões de preferência
Um dos principais resultados do experimento foi a identificação de quatro grandes grupos com diferentes padrões de preferência relativos à vacinação e às políticas não farmacológicas de combate à pandemia no país: os “esquerdistas favoráveis à exigência de vacinação” (62,4% da amostra); os “esquerdistas favoráveis às restrições” (19,5%); os “centristas cautelosamente pragmáticos” (11,4%); e os “direitistas recusadores de vacina” (6,7%).
No primeiro caso, o grupo mostrou uma notável preferência por vacinas que sejam mais eficazes e forneçam uma proteção mais longa, de forma que sua obrigatoriedade permita suspender as restrições sociais com segurança. Já o segundo grupo é similar ao primeiro, com alta propensão a se vacinar e alta confiança nas autoridades de saúde, e forte preferência por vacinas que sejam mais eficazes e forneçam uma proteção mais longa. Mas exibe preferência por vacinas fabricadas nos EUA, Reino Unido e União Europeia, tendo maior tendência a optar por não se vacinar especialmente com produtos de China e Rússia, e também diferindo do primeiro pelo apoio à manutenção de restrições sociais no lugar de exigir vacinação para retomada da convivência coletiva.
O grupo dos “centristas”, por sua vez, demonstra níveis de confiança nas autoridades de saúde e de adesão à vacinação menores do que os grupos com orientação política mais à esquerda, mas ainda assim superiores aos dos direitistas. Também valorizam uma maior eficácia das vacinas e proteções mais longas, mas como o segundo grupo de “esquerdistas”, também mostram forte resistência à sua obrigatoriedade e maior preferência por produtos vindos de EUA, Reino Unido e União Europeia. Ainda assim, a possibilidade de recusarem a vacinação é menor do que a dos direitistas, indicando que não são fundamentalmente contra a vacinação, mas mais cautelosos e reflexivos nas suas escolhas.
O último grupo distingue-se dos demais tanto com relação às preferências sobre os atributos das vacinas quanto às restrições sociais. Com os mais baixos níveis de confiança nas autoridades de saúde pública, seus integrantes tendem a aderir menos à vacinação e a optar por não se vacinar em diversos dos cenários propostos, indicando desde uma forte hesitação vacinal até uma postura completamente antivacina. Outro sinal disso é sua baixa ou inexistente sensibilidade a melhorias nos atributos da vacina, como eficácia e duração da proteção.
“Este grupo mostra pouca responsividade aos atributos da vacina e uma forte preferência pela ausência de restrições sociais e por optar não se vacinar, indicando uma resistência geral à vacinação e medidas de restrição do governo”, resumem os autores do estudo: Ana Rita Sequeira, da Murdoch University, Austrália; Marcello Antonini, da Universidade de Manchester, Reino Unido; e Bernardo Andretti, da Neoma Business School, França.
Contágio ideológico
Diante disso, os pesquisadores consideram que a polarização política parece ser central para os resultados observados.
“O que torna nossas evidências particularmente relevantes é o fato de que a orientação política estrutura as preferências por vacinação, mesmo em um futuro cenário hipotético, e não apenas o comportamento retrospectivo de vacinação contra a COVID-19”, comentou o trio em entrevista via e-mail. “O gradiente de orientação política da esquerda-direita é consistente com o que a literatura descreve como ‘contágio ideológico’: à medida que a vacinação se tornou uma questão politicamente contestada durante a pandemia de COVID-19 no Brasil, os indivíduos passaram a adotar cada vez mais a posição sobre vacinação de seu grupo político de pertencimento”.
Os autores destacam, no entanto, que os dados de seu estudo foram coletados entre julho e setembro de 2022, durante a campanha presidencial, o que provavelmente intensificou a politização dos comportamentos em saúde. Um dos artigos que citam no estudo, publicado em maio de 2024, por exemplo, mostra que a diferença na adesão à vacinação contra a COVID-19 entre bolsonaristas e não bolsonaristas no país diminuiu significativamente ao longo do tempo - de 20,71 pontos percentuais em 2021 (51,51% contra 72,22%) para 4,25 pontos em 2022 (92,74% contra 96,99%), impulsionada principalmente pela adoção mais rápida entre aqueles inicialmente mais céticos.
“Nosso experimento de escolha discreta captura um retrato desse dinamismo: em meados de 2022, a população brasileira em geral apresentava uma aceitação muito elevada das vacinas (82% pertenciam à classe pró-vacina um artigo anterior nosso na Social Science and Medicine, a mais alta entre todos os 21 países avaliados), mas a heterogeneidade remanescente parece ser fundamentalmente estruturada pela identidade política”, acrescentam.
Eles ressaltam ainda que fatores que se poderia esperar que previssem fortemente as preferências por vacinação — como escolaridade, idade ou região de residência — não foram significativos nos modelos de regressão ou tiveram influência limitada na associação aos diferentes grupos.
“Isso reforça a interpretação de que o alinhamento ideológico, em certa medida, deslocou os determinantes sociodemográficos tradicionais da aceitação vacinal no Brasil”, avaliam. “A única exceção é a religiosidade: cristãos evangélicos apresentaram probabilidade significativamente maior de recusar a vacinação, o que, no contexto brasileiro, está estreitamente entrelaçado com a identidade política de direita”.
Comunicação de risco
Assim, os pesquisadores consideram que o estudo oferece diversas contribuições baseadas em evidências para estratégias de comunicação de risco e a adesão vacinal no caso de uma nova pandemia. Para começar, a observação de que melhorias nas características das vacinas, como maior eficácia, menor risco de efeitos colaterais e maior duração da proteção, aumentaram significativamente a disposição em se vacinar não só em quase todos os grupos identificados na população brasileira – à exceção dos “direitistas recusadores” - como nos indivíduos hesitantes no estudo anterior em 21 países, “significa que a comunicação de risco deve ser específica e transparente sobre o que uma determinada vacina pode e não pode fazer, fornecendo dados claros e comparativos sobre eficácia e segurança, em vez de recorrer a mensagens genéricas pró-vacinação”.
Em segundo lugar, eles lembram que a confiança nas autoridades de saúde pública se mostrou um preditor decisivo das decisões de vacinação no Brasil, que apresentou um dos níveis mais elevados de confiança institucional entre os 21 países do estudo anterior: 81,5%.
“Trata-se de um ativo crucial que a comunicação em saúde pública deve proteger e aproveitar”, consideram. “A comunicação de risco veiculada por autoridades de saúde confiáveis e institucionalmente independentes, como o SUS, a Anvisa e a Fundação Oswaldo Cruz, tende a ser muito mais eficaz do que comunicações percebidas como politicamente motivadas. No atual ambiente polarizado do Brasil, despolitizar as mensagens de saúde pública é essencial”.
Outra questão é que o artigo comparativo entre países também constatou que a transição de restrições sociais totais para nenhuma restrição — sem melhorias nas características das vacinas — produziu apenas um pequeno aumento na adesão prevista (geralmente inferior a 5% entre os países).
“Isso sugere que enquadramentos coercitivos ou punitivos (‘vacine-se ou enfrente restrições’) são menos eficazes do que uma comunicação positiva e baseada em evidências sobre a própria vacina”, frisam. “As estratégias de comunicação devem, portanto, destacar os benefícios da vacina em vez de enfatizar as consequências da não vacinação por meio de restrições”.
Além disso, é preciso levar em consideração que atualmente, para grande parte do público, a origem do fabricante da vacina importa. Novamente, tanto o estudo focado na população brasileira quanto o anterior envolvendo 21 países detectaram preferências significativas por vacinas produzidas nos EUA, Reino Unido e União Europeia em detrimento das provenientes da China ou da Rússia.
“Do ponto de vista da comunicação de risco, isso significa que informações transparentes sobre onde e como as vacinas são produzidas, aliadas a esforços para fortalecer a confiança nos processos nacionais de aprovação regulatória, podem também influenciar de forma significativa a aceitação”, apontam os pesquisadores.
Assim, entre suas propostas estão criar sistemas de monitoramento de preferências populacionais (como pesquisas anuais de opinião sobre vacinas em nível estadual) para permitir que os formuladores de políticas detectem mudanças nas atitudes públicas e adaptem as estratégias de acordo.
“Isso é particularmente importante para garantir que a desinformação não se propague e para combatê-la com comunicação científica”, avaliam.
Outra ação importante seria buscar um compromisso entre os partidos políticos para despolitizar os programas de vacinação e, de forma mais ampla, as campanhas de saúde pública.
“Dessa forma, a vacinação deixa de ser uma escolha partidária e passa a ser um comportamento compartilhado na sociedade”, indicam. “Esse esforço pode ser promovido por meio do aproveitamento de plataformas digitais e redes sociais para amplificar mensagens de vozes confiáveis e potencialmente politicamente neutras, como líderes comunitários e profissionais de saúde, o que pode ajudar a mitigar a resistência política e fortalecer a confiança nas campanhas de vacinação. As autoridades também devem considerar como enfrentar os deepfakes (vídeos gerados por inteligência artificial) que disseminam informações enganosas”.
Por fim, eles defendem maior investimento em letramento em saúde nas escolas, incluindo a educação sobre vacinação, para evitar que no futuro as pessoas sejam capturadas pelo discurso antivacina.
“Nossos resultados mostram que a orientação política e a confiança nas instituições — e não o nível de escolaridade, a idade ou a região — são os preditores mais fortes das decisões de vacinação entre adultos no Brasil, sugerindo que, quando os indivíduos consolidam suas identidades ideológicas, suas atitudes em relação à vacinação já estão profundamente moldadas por elas”, acrescentam. “Intervir mais cedo, por meio de programas de letramento em saúde nas escolas, oferece uma oportunidade de construir uma cultura pró-vacinação antes que as influências partidárias se consolidem. Educar crianças e adolescentes sobre o papel da vacinação pode fomentar um senso de responsabilidade coletiva resiliente à polarização política”.
Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência
