Política pública e discos voadores

Apocalipse Now
27 jan 2023
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investigador de ETs

 

Uma ideia ser idiota não a torna inócua. Dito assim, parece óbvio: se existe alguma relação entre o grau de estultice de um pensamento e seu potencial de dano, ela deve ser não inversa, mas direta: quanto mais idiota a ideia, mais perigosa.

Essa, no entanto, é uma abstração que se perde com muita facilidade quando chegamos ao reino do senso comum. Lá, ideias ruins, alegações demonstravelmente falsas e absurdos óbvios são rotineiramente tratados como inofensivos porque, argumenta-se, “ninguém seria capaz de levar isso tão a sério a ponto de...”

A realidade, é claro, discorda. De líderes políticos que se deixam guiar por astrólogos a pacientes de câncer que morrem por apostar em tratamentos alternativos, passando por movimentos políticos baseados em teorias absurdas de conspiração, a evidência do dano causado por crenças sem base na realidade é abundante – não importa o quanto a crença possa parecer obviamente absurda para quem está no que se poderia chamar de “corrente principal” da vida intelectual. E a própria “corrente principal”, é preciso dizer, tem lá seus duendes de estimação, como já discutimos em outras oportunidades.

O conceito de que certas crenças são ruins demais para serem levadas às últimas consequências, de que mesmo quem professa levá-las a sério só o faz, na verdade, de modo “recreativo”, não necessariamente insincero, mas superficial, limitado pelos freios do bom senso, consegue ser ao mesmo tempo otimista, condescendente e arrogante.

Otimista porque pressupõe que os freios do bom senso funcionam com eficiência máxima em todas as emergências; condescendente porque olha para o que, para um grupo significativo de pessoas, podem ser crenças definidoras de identidade e profundamente arraigadas como se não passassem de meras distrações superficiais; e arrogante porque pressupõe que a impressão subjetiva, irrefletida, de “absurdo” e “óbvio” adotada por um certo grupo culturalmente dominante não só seria imutável ao longo do tempo, como teria aplicação universal.

 

Pedindo para sair

Uma ilustração recente do erro de confiar nos freios do bom senso da opinião média é a escalada de absurdos que levou ao pedido de demissão, no fim do ano passado, do físico Sean Kirkpatrick do cargo de diretor do Escritório de Resolução de Anomalias de Todos os Tipos (AARO) do Departamento de Defesa dos EUA. O AARO havia sido criado pelo Congresso americano em 2023 para investigar avistamentos de óvnis.

Em artigo para o site da revista Scientific American (SciAm), Kirkpatrick indica por que considerava a missão do AARO importante: a ideia de que objetos avistados no espaço aéreo americano possam se manter “não identificados” seria inaceitável, dadas as tensões geopolíticas do mundo contemporâneo. O abate de um balão de espionagem chinês, no início de 2023, dá algum peso a essa avaliação. Mas, escreve ele para a SciAm, a tentativa de fazer um trabalho sério a respeito foi esmagada pela pressão política dos ufólogos e teóricos de conspiração, investidos na narrativa das naves extraterrestres. Nas palavras de Kirkpatrick:

“Depois de reunir, com grande esforço, uma equipe altamente talentosa e motivada, e de trabalhar com ela para desenvolver uma estratégia racional, sistemática e baseada em ciência para investigar estes fenômenos, vimos nossos esforços atropelados por alegações sensacionalistas, desprovidas de fundamento, que ignoraram evidência contrária, mas que capturaram a atenção dos políticos e do público, levando a batalhas legislativas e dominando a narrativa”.

O diretor demissionário então oferece um esboço das alegações – em linhas gerais, a narrativa que vem sendo promovida há anos pelo grupo formado em torno do milionário Robert Bigelow e da jornalista Leslie Kean, que conseguiu emplacar uma história sobre militares e discos voadores no New York Times em 2017. Nessa versão, alega-se que o Departamento de Defesa dos EUA tem alienígenas e naves alienígenas escondidos e sob análise há décadas.

Um pouco mais adiante, Kirpatrick oferece o seguinte diagnóstico:

“Parte do problema que enfrentamos hoje, no entanto, é que o ciclo atual dos meios de comunicação gera histórias numa velocidade maior do que o tempo em que investigação séria, a ciência e a revisão por pares podem validá-las. Mais preocupante é a disposição de alguns de fazer julgamentos e agir com base nessas histórias sem ter acessado, ou mesmo solicitado, a evidência a respeito, uma omissão que é ainda mais problemática quando as alegações são tão extraordinárias. Alguns membros do Congresso preferem dar palpites para a imprensa sobre alienígenas em vez de receber um briefing baseado em evidências. Os congressistas têm a responsabilidade de exercitar o pensamento crítico, em vez de buscar holofotes”.

 

Exceto pela recomendação utópica de que políticos eleitos se preocupem mais com racionalidade do que com holofotes, Kirkpatrick oferece uma avaliação sóbria do problema, e seu artigo tem ainda o mérito de juntar os diferentes fios das teorias de conspiração mais populares da atualidade sobre discos voadores e conectá-los a Bigelow.

O papel central do empresário na articulação da mitologia ufológica contemporânea é uma prova da imensa atração gravitacional do dinheiro – Bigelow patrocina campanhas de candidatos simpáticos a suas obsessões, compra terras em áreas de suposta atividade extraterrestre, financia pesquisadores. Em tempos mais recentes, seu interesse parece ter derivado para a questão da vida após a morte, mas a conversa sobre ufologia, ao menos em Washington DC,  ainda segue na órbita desenhada por ele.

 

 

Sinais na estrada

“A crença em uma afirmação é diretamente proporcional ao volume em que ela é enunciada e ao número de vezes que é repetida, não à verdade dos fatos”, lamenta Kirkpatrick em outro trecho de seu artigo. O reflexo disso na formulação de políticas públicas pode ir do preocupante (como no caso de setores do governo americano estarem tão preocupados com ETs que acabam deixando balões de espionagem passar incólumes) ao trágico, como a decisão de Uganda de declarar a homossexualidade ilegal, com base em preconceitos e teorias de conspiração. Há também o ridículo, como a tentativa, alguns anos atrás, de Câmaras municipais do interior de São Paulo proibirem “a marca da besta”.

Combinados, o otimismo, a condescendência e a arrogância do senso comum ofuscam o fato de que a estrada que vai do ridículo ao preocupante e ao trágico não é exatamente bem sinalizada, e de que a história está repleta de exemplos de sociedades onde as elites culturais só pararam de rir das bobagens “que ninguém leva a sério”, enfim dando-se conta do caminho em que se encontravam, quando já estavam chegando ao ponto final.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto)

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