
Não faz muito tempo, ela era mais conhecida por criadores de animais e pais às voltas com infestações de piolhos em seus filhos, além de organizações que lutam contra a desnutrição e a cegueira provocada por vermes e outros parasitas nas regiões mais pobres do planeta. Mas, alçada a “bezerro de ouro” durante a pandemia de COVID-19, de lá para cá ela foi transformada em uma verdadeira panaceia universal. É a ivermectina, que nos últimos anos tem sido promovida - especialmente em círculos ditos “conservadores” - como supostamente capaz de prevenir ou curar uma ampla gama de doenças, desde outros vírus respiratórios, como a gripe, diabetes, autismo e até, mais recentemente, câncer e o hantavírus.
Com isso, também veio uma explosão no seu uso, com riscos de efeitos colaterais graves e danos à saúde pública. Na época da pandemia, por exemplo, só um dos laboratórios produtores do medicamento no Brasil viu suas vendas dispararem de 2 milhões de unidades de quatro comprimidos em 2019 para 62 milhões no ano seguinte, com um faturamento que alcançou R$ 470 milhões em 2020, uma alta de quase 30 vezes frente ao ano anterior.
O fim da crise sanitária, no entanto, não significou o fim das crenças em torno do medicamento. Dos infames “kits Covid” a ivermectina migrou para os chamados “protocolos de desparasitação” promovidos via redes sociais por adeptos da “medicina integrativa” como forma de “desintoxicação” do organismo para prevenção de diversas doenças, além de falsa alegação de que a infecção por vermes estaria associada ao desenvolvimento de diabetes. Esta última inclusive rendeu uma decisão preocupante da 1ª Vara do Juizado Especial Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo em 2024, que condenou duas divulgadoras científicas por danos morais por desmentirem esse tipo de desinformação, propagada por um nutricionista que “posa” de médico praticante de “saúde integrativa” no Instagram. A sentença, felizmente, acabou anulada pelo STF ainda em 2024, e o processo definitivamente arquivado e extinto em março deste ano.
Já nos EUA, a ivermectina conquistou adeptos principalmente entre partidários do presidente Donald Trump e seu movimento “Make America Great Again” (MAGA). Lá como cá, o antiparasitário inicialmente foi promovido como um tratamento para COVID-19 e, com o fim da pandemia, continuou sendo amplamente usado por este público como suposta prevenção ou terapia de outras doenças, respiratórias ou não. E também continuou sua exploração política. Diante da procura, governadores e legisladores de diversos estados americanos - notadamente os de tendência conservadora, como Arkansas, Kentucky, West Virginia, Louisiana, Georgia, Alabama e Texas – assinaram decretos ou propuseram leis para que o medicamento pudesse ser vendido sem receita, tudo em nome da “liberdade médica”.
Do cinema para a desinformação
E foi justamente em meio a este movimento que a ivermectina ganhou fama como um “tratamento alternativo” para o câncer. Deixando de lado o fato de que o câncer não é uma única doença, com diferentes características e prognósticos dependendo da localização e das células envolvidas, nos últimos anos surgiram relatos de supostas curas que atingiram um ápice em janeiro do ano passado, quando o astro de cinema Mel Gibson apareceu em um dos mais ouvidos e assistidos podcasts dos EUA, o Joe Rogan Experience, afirmando que uma combinação de ivermectina e um outro medicamento antiparasitário de uso exclusivo veterinário, o fenbendazol, havia curado três amigos seus de “câncer em estágio quatro” – classificação dada quando a doença já se espalhou do órgão ou tecido originais para outras partes distantes do corpo e a cura não é mais possível, restando apenas tentar frear sua progressão e cuidados paliativos voltados para qualidade de vida.
Mesmo sem qualquer evidência de eficácia, o episódio fez explodir a prescrição e uso da ivermectina por pacientes com e sem câncer nos EUA, como mostra estudo publicado recentemente no periódico científico JAMA Network Open. Nele, os pesquisadores compararam o padrão de prescrições mensais da combinação ivermectina-fenbendazol entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025 com o mesmo período do ano anterior, antes da entrevista de Gibson.
Com base em dados anonimizados dos prontuários eletrônicos de pouco mais de 68 milhões de pessoas de uma rede de pesquisas multicêntrica americana e após uma série de ajustes estatísticos, eles observaram que a taxa de prescrição da combinação de remédios antiparasitários mais que dobrou no período para pacientes em geral com entre 18 e 64 anos (2,12x). Não por acaso, o aumento foi maior entre pacientes brancos (2,61x) do que de outras etnias e nos estados americanos do Sul – conhecidos pelo seu alinhamento com o conservadorismo – do que de outras regiões dos EUA (3,12x).
Já entre pacientes com câncer, a alta foi ainda mais pronunciada, chegando a 2,68x na mesma faixa de 18 a 64 anos. Novamente, pacientes brancos recorreram a este tipo de prescrição com mais frequência do que os de outras etnias (3,05x), assim como os habitantes dos estados do Sul dos EUA comparados com os de todas as outras regiões do país juntas – alta de 3,91x contra 1,27x).
Segundo os pesquisadores, estes padrões e aumento na prescrição da combinação é uma amostra de como a desinformação em saúde impacta de forma diferente vários setores da população em função de seu padrão de consumo de informações.
“O podcast em que celebridades endossaram a combinação ivermectina-fenbendazol para o tratamento de câncer foi visto por mais de 60 milhões de indivíduos em múltiplas plataformas”, destacam. “As variações demográfica e regional que observamos nas taxas de prescrição reflete as características das audiências dos podcasts e plataformas de mídia que promovem estes regimes, sugerindo um alcance e amplificação seletivos da desinformação em saúde”.
Os autores do estudo também lamentam como este tipo de desinformação atinge principalmente pacientes de condições graves como o câncer, colocando em risco suas vidas ao adiar ou substituir o a aplicação de tratamentos comprovados contra a doença, e alertam para a crescente tendência do público de considerar confiáveis as informações passadas por celebridades e influenciadores com base apenas em sua fama e número de seguidores, ignorando fatores de credibilidade como conhecimento técnico e científico.
“Nossos achados expande trabalhos prévios sobre o potencial da influência do endosso de celebridades sobre os cuidados com a saúde”, acrescentam. “Tal influência ganha mais tração com a erosão da confiança institucional. Proteger populações vulneráveis de desvios desinformados de cuidados baseados em evidências requer um trabalho coordenado de médicos, sistemas de saúde, pesquisadores e formuladores de políticas”.
Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência
