Universidade para educar ou para mimar?

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1 jun 2026
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estudantes hipnotizados em sala de aula

Geração floco de neve, mimizenta ou Nutella. Você certamente já esbarrou em algum desses rótulos, usados pejorativamente para se referir à atual geração de jovens: pessoas supostamente incapazes de lidar com dissensos e críticas, que precisariam ser protegidas em “espaços seguros” e cujo conforto emocional deveria ser preocupação central das instituições de ensino, em todas as instâncias – do cardápio vegano no restaurante universitário aos cursos de comunicação não violenta para funcionários.

Essa caricatura da geração universitária pode soar um tanto exagerada, ainda mais quando formulada de modo generalizado e com base em impressões pessoais. Leitores desta revista já estão acostumados a ver como o autoengano é um fenômeno comum. Porém, a cultura contemporânea de superproteção, alimentada em parte pelo aumento de diagnósticos de sofrimento psíquico, é real e aparece discutida de maneira interessante no livro The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure, ainda sem edição em português, dos americanos Greg Lukianoff, presidente e CEO da Foundation for Individual Rights and Expression (FIRE), e Jonathan Haidt, psicólogo social. O termo coddling não tem equivalente perfeito em português, mas remete a um cuidado excessivo, algo como “mimar” ou “superproteger”, de forma que o título poderia ser traduzido como “A superproteção da mente americana: como boas intenções e más ideias estão preparando uma geração para o fracasso”.

O livro se organiza em torno de três ideias que os autores chamam de “grandes inverdades”. A primeira é uma paródia da famosa frase “O que não me mata me fortalece”, de Nietzche, chamando a atenção para a questão da fragilidade excessiva: aquilo que não nos mata nos torna mais fracos. A segunda é a da evidência baseada na percepção pessoal: se algo me fez sentir mal, então algo mau necessariamente aconteceu. A terceira é a lógica do “nós contra eles”: a vida social é sempre uma batalha binária entre pessoas boas ou más, vítimas ou opressores, virtuosos ou imorais.

A supervalorização da fragilidade cria aquilo que os autores chamam de safetyism, algo como “segurancismo”. O termo denomina uma cultura ou sistema de crenças em que a segurança se torna um valor sagrado, de modo que as pessoas passam a rejeitar qualquer equilíbrio razoável entre segurança e outros valores práticos ou morais. Por exemplo: uma universidade pode concluir que, para evitar que estudantes se sintam psicologicamente incomodados por uma ideia, deve cancelar uma palestra, retirar um texto de uma disciplina ou criar regras que desestimulem qualquer dissenso. Nesse caso, a segurança emocional opera como censura, antagonista da liberdade acadêmica.

A busca obsessiva por ofensas – e a denúncia de qualquer coisa que possa causar desconforto – é, em boa parte, estimulada pelo hábito de interpretar o comportamento das pessoas da maneira menos generosa possível. Essa distorção, conhecida como leitura mental, quando se torna hábito, tende a levar ao desespero, à ansiedade e a uma rede de relações deterioradas. Fazer inferências a partir de percepções pessoais pode funcionar algumas vezes, mas o autoengano costuma ser bem mais frequente. Shakespeare certamente não escreveu uma peça para ofender intencionalmente uma pessoa que só nasceria quatro séculos mais tarde. Como disse Hanna Holborn Gray, presidente da Universidade de Chicago, de 1978 a 1993: “A educação não deve ter como objetivo deixar as pessoas confortáveis; sua finalidade é fazê-las pensar”.

O livro também analisa como o comportamento institucional estimula um ambiente de “nós contra eles”. Quando estudantes são treinados a ver os outros e a si mesmos como membros de grupos distintos definidos por raça, gênero e outros fatores socialmente significativos, e ouvem que tais grupos estão eternamente envolvidos em um conflito de soma zero por status e recursos, entra-se em um modo de disputa tribal em que as pessoas ficam cegas a quaisquer argumentos que desafiam a narrativa do grupo. A mente humana está predisposta ao tribalismo, e certas interpretações da interseccionalidade – a abordagem que analisa como raça, classe, gênero, sexualidade, religião etc. se cruzam em relações de poder, privilégio e opressão – têm o potencial de elevar o tribalismo ao máximo.

Lukianoff e Haidt analisam também como a sociedade, o sistema educacional e a própria criação dos filhos contribuíram para um ambiente de aumento expressivo de sofrimento psíquico entre jovens. No âmbito universitário, os autores mostram como os gastos com serviços estudantis e estruturas de bem-estar cresceram mais, em universidades públicas de pesquisa dos Estados Unidos, do que os gastos com pesquisa e ensino. A Louisiana State University, por exemplo, construiu um lazy river, um rio artificial com mais de 160 metros no qual os alunos podem flutuar calmamente pelo campus. Na inauguração, o presidente da universidade explicou que faria o necessário para mantê-los ali, seguros, com tudo de que precisassem.

Embora se concentre no contexto norte-americano, The Coddling of the American Mind traz importantes reflexões que podem ser transportadas para o cenário brasileiro – e talvez antecipe, para lembrar Millôr Fernandes, algumas situações inconvenientes em que mais ideologias importadas vêm morar no Brasil. Aristóteles frequentemente avaliava as coisas em relação ao seu telos – seu objetivo ou finalidade. Uma faca que não corta bem não é uma boa faca. Da mesma forma, uma universidade que troca a pesquisa e a busca da verdade pela administração permanente do conforto emocional e pela pretensão de atuar como a principal instância reparadora de todas as mazelas sociais tende a ser cada vez menos universidade.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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