
Faz muito tempo, sim, mas aqui estamos novamente: Caso Varginha. Essa fantasia, repleta de contradições e elos fictícios que formam um colar de bijuteria, continua a ser defendida como se fosse um fato. Diante de tudo o que aprendemos, como isso é possível? Ora, não só é possível como é o mais provável, mesmo. As pessoas querem acreditar.
Nos últimos meses, por ocasião dos 30 anos do caso, o assunto tem sido muito debatido. Os podcasts já têm suas figurinhas carimbadas, pessoas que se apresentam como pesquisadores, investigadores ou simplesmente ufólogos, que estão sempre lá, recebendo milhões de visualizações. A dinâmica da crença é fascinante.
Há o ufólogo que já mostrou mais de uma vez uma foto de um avião C-17 da Força Aérea Americana, e disse ou deixou implícito que aquele era um dos aviões que teria vindo ao Brasil por ocasião do Caso Varginha, e que teria pousado em Viracopos, Campinas. Porém, como ficou demonstrado pela investigação conduzida pelo canal VHS Break, o C-17 veio aqui para deixar helicópteros, não para pegar ETs ou destroços de uma nave. O canal ainda descobriu algo mais importante: a foto é de 1997, não 1996. Não bastasse isso e a foto foi tirada em Manaus, não em Campinas.
Ainda dentro das investigações do canal VHS Break, há a análise de uma carta de Bill Clinton, esta, sim, datada de 1996. Segundo livro de autoria do ufólogo Edison Boaventura Jr., o então presidente Clinton “queria saber detalhes da operação e do conteúdo de um avião da USAF que pousou perto de Groom Lake, em Nevada, ou seja, onde está localizada a Área 51”. Ainda segundo o ufólogo, “nem o presidente conseguiu acesso para saber, de tão incrível segredo, transportado da América do Sul para aquela instalação militar”. A ligação, obviamente, é com o caso Varginha. E de que forma foi feita essa ligação? Você não pode viver sem saber disso:
“No Reddit muitos americanos estavam comentando e um dos inscritos daquela comunidade ufológica compartilhou um link, onde havia um documento datado de 30 de janeiro de 1996, que poderia estar ligado ao caso. Tratava-se de uma carta do ex-presidente Clinton aos líderes do Congresso americano. O pessoal comentou ‘deve ser o avião que transportou a criatura do Brasil para os EUA e o presidente queria explicações’.”
O que a investigação conduzida pelo VHS Break revelou é que a carta nada tem a ver com Varginha, algo que poderia ser constatado se as pessoas se dessem ao trabalho, hoje mínimo, de traduzir e ler.
Essa carta não falava sobre ETs, Brasil ou um avião levando criaturas para uma base americana. O documento era apenas uma comunicação oficial ao Congresso americano informando que continuava válida uma isenção presidencial criada para proteger o sigilo militar da base de Groom Lake, impedindo que investigações ambientais sobre descarte de resíduos tóxicos obrigassem a divulgação de informações classificadas. A carta menciona apenas questões de segurança nacional, processos judiciais envolvendo funcionários da base e renovação de um decreto administrativo, sem qualquer referência ao caso Varginha ou a extraterrestres.
O mais engraçado de tudo são as acusações veladas, feitas por algumas pessoas (algumas delas com audiências de centenas de milhares), de que os canais novos (entre eles o meu e o VHS Break), que “surgiram para desmistificar o caso”, são suspeitos e devem ter alguma “motivação maior” (=financeira) por trás. Meu Deus, como eu queria ser um agente da desinformação! Pelo menos, seria mais bem pago.
Todos os pontos do caso que estão sendo desmistificados vêm sendo ou esquecidos (convenientemente) ou reinterpretados, muitas vezes de forma muito curiosa e particular, frequentemente cômica, que revelam uma lógica freestyle. Considere o caso do policial Marco Eli Chereze, que segundo a crença ufológica teria morrido após ter contato com uma das criaturas supostamente capturadas em Varginha.
Como eu já tive a oportunidade de discutir em outras ocasiões (veja o Dossiê aqui), a trágica morte de um rapaz tão jovem nada tem a ver com uma “bactéria” ou “vírus” extraterrestre. Foi uma fatalidade, depois incorporada à mitologia do caso ufológico. Mitologia que hoje continua a ser repetida irresponsavelmente. A única forma segura de ligar o óbito de Chereze ao caso Varginha é: nenhuma. Quem faz a ligação o faz “porque sim”, não por necessidade empírica.
No Flow Podcast, um entusiasta disse o seguinte sobre Chereze:
“Outra hipótese para mim, que é mais plausível de acordo com os fenômenos é: o simples contato com o ser fez aparecer um implante nele, ali; um uma substância, uma pedra, um metal, uma coisa implantada pelo fenômeno no policial, pelo contato que ele teve, que aí já é uma coisa... um avistamento físico com uma extrapolação de implante não físico que vira uma coisa, uma marca. E aí quando você tirou, desencadeou esse problema. Você não podia tirar esse negócio”.
Eu fiz questão de destacar a expressão “mais plausível”. Isso é apenas um aperitivo do que o meio ufológico pode proporcionar. Na rede social X, o autor da citação acima nos presenteou também com a seguinte especulação, agora sem relação direta com o caso Varginha:
“Se existe um fenômeno de origem física não local e que muitos chamariam de interdimensional ou inteligência de enxame acredito que seja possível que consigam energia para entrar na nossa realidade através do sofrimento gerado em locais onde há grandes crises humanitárias”.
São essas mesmas pessoas, com esse tipo de declaração, as que riem do trabalho apresentado por pesquisadores como Roberto Munhoz, João Marcelo, Rodrigo Freitas e Ubirajara Rodrigues (veja aqui), apenas porque esse aventa a possiblidade, muito plausível, de que as meninas do caso Varginha tenham, na verdade, visto um ser humano agachado. Cogitar isso é um avilte, mas fantasiar os elos fictícios, engendrados ao longo de 30 anos, só pode ser coisa séria!
Diante de tudo o que foi exposto aqui, vale perguntar por que a visão cética, não recebe o devido espaço nos podcasts. Se estão, como muitos dizem estar, em busca da verdade, e por isso ouvem os diversos lados, então o que bloqueia a participação dos céticos no debate “formal”? Da última vez em que tentei levar as descobertas recentes aos grandes canais, tudo o que obtive foi silêncio, falta de interesse. O motivo parece bastante evidente, e não precisa ser enunciado.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
