
Relatório recém-publicado pela Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (AEMPS), órgão do Ministério da Saúde daquele país, concluiu, após avaliar mais de sessenta revisões sistemáticas de estudos sobre a eficácia da homeopatia, que a prática não é superior a um mero placebo. Citando ao pé da letra, o resultado da avaliação espanhola se resume a três pontos:
"Não existe evidência científica publicada que comprove a eficácia da homeopatia como um instrumento terapêutico eficaz.
"Constatou-se, nos trabalhos publicados, que a eficácia observada dos produtos homeopáticos é comparável ao placebo.
"Os cidadãos devem saber, ao escolher iniciar ou manter tratamentos baseados na homeopatia, que esta carece de evidência científica e que podem colocar em risco a sua saúde se rejeitarem ou substituírem os tratamentos propostos pela medicina baseada em evidências".
Nada disso é exatamente novidade. O trabalho espanhol se segue a avaliações científicas semelhantes, com resultados idênticos, conduzidas nas últimas décadas por órgãos ligados aos sistemas de saúde da Inglaterra (2010), Austrália (2015), França (2019) e pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (2016).
Essas avaliações tiveram repercussão sobre políticas públicas de saúde, com a Inglaterra banindo a subvenção de tratamentos homeopáticos em seu sistema público de saúde em 2018, a Austrália em 2019 e a França encerrando o reembolso de gastos com medicamentos homeopáticos em 2021.
Em 2005, a revista científica The Lancet, a mais respeitada publicação médica do mundo, havia publicado editorial pedindo "O Fim da Homeopatia". Na época, alguns homeopatas reagiram prometendo "desconstruir" os argumentos da Lancet. Como a recente revisão espanhola reúne apenas trabalhos publicados desde 2009, há razões para suspeitar que a promessa não se cumpriu.
Críticas à homeopatia são quase tão antigas quanto a prática, criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann no século 18 (um monumento em homenagem a Hahnemann, erigido em Washington, DC, ilustra este artigo). Em 1842, dois anos depois da introdução da prática no Brasil, o renomado médico americano Oliver Wendell Holmes publicava, em livro, uma série de palestras intitulada "Homeopatia e Ilusões Semelhantes".
Cerca de um século antes da definição formal de "efeito placebo", Holmes já apontava que "na medida em que o corpo é influenciado pela mente, nenhum expediente audacioso — mesmo dos mais manifestamente desonestos — deixará de produzir algum benefício ocasional naqueles que nele depositam uma fé implícita ou mesmo parcial".
A homeopatia falha como teoria porque se baseia em princípios que contradizem fatos científicos bem estabelecidos, ao afirmar, por exemplo, que diluições seguidas aumentam o poder terapêutico de uma substância. Muitos preparados homeopáticos são tão diluídos que não contêm nenhuma única molécula sequer do suposto princípio ativo. E falha como prática porque, mesmo quando se lhe concede o benefício da dúvida – a teoria é absurda, mas e se de repente funcionar? – mostra-se incapaz de produzir benefícios diferentes dos obtidos pelo uso de placebos, fato comprovado por décadas de estudos e revisões sistemáticas, das quais a espanhola é apenas a mais recente.
A AEMPS, órgão espanhol responsável pelo último relatório, é o equivalente na Espanha da Anvisa, mas os brasileiros à espera de um posicionamento firme da agência nacional a respeito da homeopatia devem aguardar sentados, e num sofá bem macio (existe um relatório brasileiro que expõe as evidências a respeito da prática de forma clara, mas publicado pelo Instituto Questão de Ciência, e não por agências públicas).
Isso porque, no Brasil, a prática conta com um lobby influente. É encampada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que a considera especialidade médica, é ensinada em faculdades de Medicina, Farmácia e Veterinária, e seus entusiastas conduzem pesquisas subvencionadas com verba pública. A homeopatia está ainda incorporada ao SUS, como parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC).
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto).
