
Science Under Siege (“Ciência Sitiada”) e War on Scicence (“Guerra contra a Ciência”) parecem ser escolhas populares para títulos de livros. Desde o início dos anos 1990, pelo menos uma obra com cada um desses nomes vem sendo lançada no mercado americano, em média, a cada cinco anos. Ano passado, foram duas de uma vez: o climatologista Michael Mann e o pediatra e especialista em vacinas Peter Hotez nos deram a mais recente iteração do tema do “Cerco”. Ao mesmo tempo, o físico Lawrence Krauss publicou uma coletânea de ensaios de vários autores sob o nome de “Guerra”.
Ao lidar com tentativas de distorcer o registro científico, bloquear políticas públicas baseadas em ciência e intimidar cientistas por parte de interesses corporativos e ideólogos políticos de direita, o livro de Mann e Hotez oferece uma abordagem em duas frentes para restaurar a ciência ao seu devido lugar no espaço público: desvincular o sentimento anticiência do senso de identidade conservador e, ao mesmo tempo, como uma espécie de medida de emergência, tirar do poder, pelo voto, a atual versão do Partido Republicano dominada por Trump.
O Science Under Siege de 2025 foi recebido favoravelmente tanto em Science quanto em Nature, as duas principais publicações da comunidade científica internacional. O livro de Krauss não teve a mesma sorte. Alguns dos ensaios tratam de casos de DEI fora de controle nas universidades, acusações frívolas de assédio que arruinaram carreiras acadêmicas e do que seus autores veem como uma interferência indevida de preconceitos ideológicos de esquerda na investigação científica.
A ideia central do livro de Krauss é que a ciência — e as próprias condições que tornam possível a pesquisa científica, incluindo a liberdade de formular e debater questões e hipóteses desconfortáveis ou até mesmo extravagantes — está sendo sufocada por uma cultura acadêmica que substitui a preocupação com mérito, qualidade e verdade por uma preocupação com “justiça social”, tal como definida por ativistas dentro dos campi. Muitos dos ensaios criticam um editorial de 2022 da Nature Human Behavior, “Science must respect the dignity and rights of all humans”, que diversos dos autores reunidos por Krauss veem como abrindo caminho para a censura da pesquisa científica em nome da correção política.
Diante dos recentes ataques do governo Trump contra universidades americanas — ataques que usam como pretexto muitas das questões levantadas pelos autores reunidos por Krauss —, o livro foi criticado online por ser insensível ao momento, mal concebido ou até deliberadamente colaboracionista. Tais críticas são injustas e, às vezes, soam como uma manobra para evitar enfrentar as questões espinhosas levantadas nos melhores ensaios do volume, como os do físico Alan Sokal, do filósofo Maarten Boudry, do historiador Niall Ferguson e do linguista Steven Pinker.
Coletivamente, eles denunciam a aplicação de dois pesos e duas medidas ao conceito de “liberdade de expressão” nos campi — apontando que ela pode ser invocada para encobrir até atos de vandalismo, se a causa for considerada “correta”, e ao mesmo tempo, ignorada quando se trata de ideias que não chegam a se traduzir em ação, mas são consideradas “erradas”. Também lembram que a produção e a disseminação do conhecimento — e não a promoção de alguma agenda política, por mais meritória que seja — é (ou deveria ser) o verdadeiro propósito de uma universidade.
Mas é difícil conciliar o longo lamento sobre a ascensão da ideologia e da conveniência política na academia, em detrimento do rigor científico e intelectual, com a decisão de encerrar o volume com um texto do guru conservador de autoajuda Jordan Peterson, cujas reflexões sobre mitologia e arquétipos têm sido repetidamente denunciadas como exemplos de desleixo intelectual e pseudociência.
No conjunto, as encarnações de 2025 de Science Under Siege e War on Science são mais complementares do que — como alguns críticos sugeriram — opostas. Hotez e Mann tratam do que, em grande medida, são ameaças à integridade científica que, embora tenham cúmplices dentro da comunidade acadêmica, nascem no universo extramuros: interesses econômicos, seus porta-vozes e as consequências ideológicas de sua retórica. Os autores reunidos por Krauss escrevem sobre o que percebem como ameaças de raiz interna: a desvalorização do mérito acadêmico em nome de uma visão bem-intencionada, porém equivocada, de inclusão; o silenciamento do debate vigoroso.
O fato de que a ameaça externa se alinhe quase perfeitamente com o lado direito do espectro político e a interna com o lado esquerdo pode parecer algo predestinado desde o início dos tempos — mas os vários livros intitulados Science Under Siege e War on Science publicados em anos anteriores desfazem essa ilusão.
O primeiro Science Under Siege dos últimos 40 anos foi publicado em 1993, escrito pelo jornalista Michael Fumento. O livro criticava o que o autor via como o alarmismo excessivo de alguns profissionais da saúde e ambientalistas, que, segundo ele, estariam usando interpretações altamente duvidosas de dados científicos para assustar o público e afastá-lo da ciência e da tecnologia. O livro tem um tom libertário de direita, pró-laissez-faire; os “sitiantes” seriam principalmente externos e situados à esquerda.
Algumas das críticas feitas então tinham mérito — lembram-se dos pânicos histéricos sobre os campos magnéticos das linhas de transmissão elétrica? — mas, vinte anos depois, Fumento escrevia artigos de negacionismo climático total para o jornal New York Post.
O título Science Under Siege foi reciclado em 1998. Desta vez, o autor foi o jornalista Todd Wilkinson. Ele denunciou a perseguição sofrida por cientistas que, trabalhando para o governo dos Estados Unidos, tentavam alertar sobre danos ecológicos decorrentes de iniciativas de desenvolvimento público ou privado. Wilkinson escreveu que esse esforço de “supressão” ocorreu tanto sob administrações republicanas quanto democratas. O cerco aqui era externo e bipartidário.
O crepúsculo do último milênio viu a publicação de Science Under Siege? (2000), com ponto de interrogação. Trata-se de um livro de antropologia dos professores Leon E. Trachtman e Robert Perrucci, que procuraram investigar as numerosas alegações anticientíficas feitas durante as chamadas “Guerras da Ciência”, travadas (principalmente) entre físicos e cientistas sociais, nos anos 1990. Como os autores definem, essas “Guerras” seriam “uma suposta batalha contínua entre cientistas que defendem as conquistas e a autoridade da ciência e um conjunto variado de feministas, ambientalistas, radicais políticos e fundamentalistas religiosos que tentariam derrubar a ciência de sua posição privilegiada, contestando a autoridade especial da ciência e do conhecimento científico”. Isso se aproxima bastante das preocupações apresentadas no livro organizado por Krauss.
Os supostos sitiantes seriam, então, tanto internos quanto externos, e predominantemente (se excluirmos os fundamentalistas religiosos da lista) à esquerda. Os autores concluem que não existiu uma “guerra total” contra a ciência enquanto tal, mas sim críticas específicas a determinados resultados científicos, interpretações e tecnologias derivadas da ciência, percebidas como prejudiciais aos objetivos e crenças dos “sitiantes”.
A discussão ganha foco no best-seller de 2005 do jornalista Chris Mooney, The Republican War on Science, que denunciava George W. Bush como “o presidente anticiência”. Hoje, em retrospecto, os mandatos de Bush podem até parecer uma Era de Ouro de sanidade do Partido Republicano, mas o fato é que o 43º presidente dos Estados Unidos promoveu o negacionismo climático, foi complacente com o ensino do criacionismo nas escolas públicas, bloqueou pesquisas com células-tronco e permitiu que a ideologia conservadora cristã dominasse políticas públicas de saúde reprodutiva.
O War on Science de Shawn Otto, publicado em 2016 (com prefácio de Lawrence Krauss), ainda reflete o trauma dos anos Bush, mas é muito mais abrangente do que o livro de Mooney. Trata-se de uma tentativa de denunciar, explicar e combater a redução do peso da ciência no debate público: políticos, observou Otto, falavam sobre o impacto de sua fé e de seus valores morais em suas políticas, mas não sobre os fatos científicos relevantes para essas mesmas políticas.
O livro acompanha correntes de sentimento anticientífico tanto à esquerda quanto à direita — do fundamentalismo religioso à contracultura, do libertarianismo ao relativismo cultural extremo — e a exploração e a amplificação desse sentimento por interesses instalados, sobretudo da política e da indústria do petróleo. Em muitos aspectos, o livro de Hotez e Mann e alguns dos melhores ensaios reunidos por Krauss poderiam facilmente ser retrabalhados como um capítulo final, ou um epílogo, do livro de Otto.
O que todas essas “guerras” e “cercos” ensinam é que a ciência se torna alvo quando passa a ser inconveniente — quando se interpõe entre alguém e seus objetivos financeiros ou ideológicos. E trata-se de um alvo ecumênico. Dada uma oportunidade ou necessidade, nem conservadores, nem progressistas hesitam em abrir fogo contra a ciência. E é raro ver ataques frontais à autoridade científica em si. Sim, existem defensores aguerridos de “outras formas de saber”, mas esses tendem a ser mais barulhentos do que influentes.
Como revelou o Science Under Siege? de 2000, mesmo entre grupos que poderiam ser considerados “alternativos” ou “pós-modernos”, a desconfiança em relação à ciência era motivada menos por considerações epistêmicas e mais pelo que esses grupos percebiam como o uso retórico do discurso científico contra suas causas prediletas. A crítica epistemológica, quando surgia, era de caráter retórico e acessório: ninguém reclama de “cientificismo” quando a ciência parece favorecer políticas alinhadas com a ideologia de estimação.
Se há um fio condutor que atravessa todas as “guerras” e “cercos” documentados nos últimos quarenta anos é o esforço dos adversários da ciência para também parecerem “científicos”. Do excêntrico que teme campos eletromagnéticos ambientais ao negacionista das mudanças climáticas, do “cético” antivacinas ao ativista anti-OGM, a tática padrão não é negar o valor do conhecimento científico, mas substituir a coisa real por uma versão mais “amigável”.
Essa manobra é eficaz para criar confusão, às vezes paralisando políticas públicas (“por que agir contra o aquecimento global se nem os especialistas concordam?”) ou fornecendo um pretexto para ações ideologicamente motivadas.
Os adversários verdadeiramente perigosos da ciência não pretendem destruí-la, mas apropriar-se de sua autoridade— substituindo, aos olhos do público, os cientistas reais por seus figurantes de jaleco branco, dando aos seus preconceitos ideológicos a aparência de fatos científicos.
A verdadeira guerra contra a ciência não é uma guerra de destruição: é uma batalha pela submissão.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
