Livro discute repressão intelectual nas universidades

Artigo
1 dez 2025
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fragmento da capa do livro War on Science

 

Em agosto deste ano, o Estadão publicou editorial intitulado “O silêncio dos universitários”, que menciona a pesquisa do Instituto Sivis, feita com 1.092 estudantes em 23 cidades brasileiras, segundo a qual 47,7% dos entrevistados afirmam ter evitado discutir ocasionalmente, muitas vezes ou sempre, assuntos controversos ou polêmicos na sala de aula. O dado é preocupante, já que a autocensura motivada por medo de ameaças, exposição pública, somada ao cancelamento de atividades acadêmicas legítimas, em nada contribui para a imagem das universidades – aos olhos da população, a Academia parece um lugar de pensamento único que visa silenciar o dissenso, a pretexto de um discurso que se pretende democrático.

A despeito da ampla defesa da ciência e do pensamento crítico, normalmente feita em declarações institucionais, o que se observa no dia a dia são práticas de intimidação intelectual em que as evidências e o conhecimento científico são desconsiderados e colocados no mesmo nível das paixões políticas e das opiniões pessoais. Em meio aos ataques ao dissenso e à liberdade de expressão, o livro The War on Science, recém-lançado pela Post Hill Press e ainda sem tradução para o português, chama atenção para esse clima de medo, e como ele pode ser perigoso para o futuro da livre investigação e do progresso científico.

O livro reúne uma série de ensaios escritos por vários cientistas – muitos deles já envolvidos em polêmicas públicas –, entre os quais Richard Dawkins, Steven Pinker e Alan Sokal. Os textos abordam temas como liberdade de expressão, influência de ideologias políticas na ciência, efeitos da institucionalização de escritórios de diversidade na universidade, e ao final, apresentam algumas sugestões para reduzir a politização da ciência. As análises concentram-se principalmente em situações ocorridas em universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido, embora seja fácil reconhecer paralelos com o contexto brasileiro.

Como sugere o site Science-Based Medicine (SBM), pode parecer, à primeira vista, que o livro adote um recorte tendencioso ao tratar dos problemas associados às políticas identitárias, sobretudo quando comparados aos recorrentes ataques do presidente norte-americano à ciência, incluindo a nomeação de um ativista antivacina para o cargo de secretário de Saúde. Todavia, a obra explicita desde o início qual será o seu foco: as ameaças internas à universidade.

Não se trata, portanto, de um viés que privilegia críticas à esquerda enquanto ignora ataques externos vindos da direita, mas de um olhar crítico para o que acontece dentro das instituições acadêmicas – precisamente o lugar de onde menos se esperaria a emergência de práticas de censura, intimidação ou distorção epistêmica. Nesse sentido, a crítica do SBM falha em dois aspectos: o autor admite não ter lido o livro e, ao rejeitá-lo, não o faz por deficiência do conteúdo, mas por não abordar os temas que o SBM considera essenciais.

O físico Lawrence Krauss, responsável pela edição (os comentários a seguir baseiam-se em tradução livre e na versão eletrônica do livro; a edição impressa é ligeiramente mais extensa e inclui alguns ensaios que não estão presentes no e-book), inicia o livro mencionando a necessidade de enfrentar o desconforto intelectual: “Um dos propósitos centrais da educação é fazer você se sentir desconfortável. Somente ao sair de sua zona de conforto é que você se dispõe a examinar seus próprios vieses e a descobrir verdades sobre o mundo que, de outra forma, você jamais permitiria que chegassem à sua consciência. Infelizmente, na atual situação, o conforto intelectual tornou-se uma espécie de padrão nas universidades, quando deveria ser exatamente o oposto”. O restante da introdução traz uma visão geral do livro abordando temas como: “sociologia: ciência é sexista e racista”; “administração, quadro de pessoal e estudantes na ciência e na pesquisa acadêmica”; “liberdade acadêmica e liberdade de expressão”; e “a atividade científica e acadêmica”.

O psicólogo Gad Saad, num ensaio em que apresenta uma perspectiva canadense sobre os abusos identitários, menciona um anúncio de vagas para professores na Faculdade de Matemática da Universidade de Waterloo com o seguinte conteúdo: “vaga 1 – em todas as áreas de inteligência artificial. A vaga é aberta apenas para pessoas qualificadas que se autodeclaram mulheres, transgênero, de gênero fluido, não binárias ou de dois-espíritos; vaga 2 – em todas as áreas da ciência da computação. A vaga é aberta apenas a indivíduos qualificados que se autodeclarem membros de uma minoria racializada”. Saad, ao entender que esse tipo de exigência desvia a universidade da função primordial de ensinar, comenta em seguida: “Minha graduação é em matemática e ciência da computação pela Universidade McGill. Eu desconhecia que minha capacidade de compreender inteligência artificial teria sido enormemente enriquecida caso meu professor fosse não binário ou dois-espíritos”.

O livro segue apresentando vários exemplos de como as políticas orientadas diretamente pela justiça social podem impactar a ciência e as universidades, incluindo episódios de censura motivados por outrage mob – uma manifestação de pessoas, normalmente mobilizadas por redes sociais, que se engaja em ataques contra um indivíduo ou instituição, motivados por indignação moral, com o objetivo de puni-lo, silenciá-lo ou pressionar organizações a adotarem sanções. O capítulo escrito pela química Anna Krylov e pelo consultor estatístico Jay Tanzman também enfatiza “o papel da complacência das lideranças acadêmicas: embora as ‘outrage mobs’ frequentemente acionem o processo punitivo, nas democracias ocidentais as multidões já não queimam bruxas na fogueira. Para que a maior parte das punições ocorra no meio acadêmico, alguma autoridade precisa concordar em implementar a punição desejada pela multidão”.

O livro ainda explora temas como decolonização da matemática; uma suposta subversão ideológica da biologia; justiça social e medicina; impactos das políticas de diversidade, equidade e inclusão na Academia; e finalizam com algumas sugestões para “salvar as universidades delas mesmas”. O livro merece uma leitura cuidadosa, independentemente do grau de ativismo do leitor, sendo importante destacar que algumas afirmações envolvendo biologia não são consensuais do ponto de vista científico e que alguns autores presentes na versão impressa já se mostraram negacionistas climáticos, além de flertarem com algumas pseudociências.

Desafiar as próprias convicções, submetendo-as a um escrutínio honesto, é a base do progresso científico. Que as paixões políticas tenham protagonismo entre os políticos é esperado; o que não é natural é que tomem o lugar do rigor científico e acabem por desviar as universidades do ensino e da pesquisa de excelência. Como escreveu o matemático e filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970): “As opiniões mantidas de forma passional são sempre aquelas para as quais não há bons fundamentos; na verdade, a paixão é a medida da falta de convicção racional de seu defensor”.

 

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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