
O Halloween de 2026 marcará o centenário da morte de Harry Houdini. Nascido Ehrich Weiss em Budapeste, Hungria, em 1874, o futuro Houdini emigrou com sua mãe, Cecilia, e irmãos para os EUA em 1878, juntando-se ao pai, o rabino Mayer Weiss, que morava em Wisconsin. A vida de Houdini foi curta — morreu aos 52 anos — mas teve uma longa carreira: começou a apresentar seu primeiro show de mágica, “The Brothers Houdini”, em 1891, aos dezessete anos.
Nem Mayer nem Cecilia nunca aprenderam a falar inglês com fluência. No entanto, seu filho Ehrich viria a tornar-se não apenas o ilusionista e artista de fuga mais famoso da história, como também o artista americano de maior sucesso do primeiro quarto do século 20.
Por mais de duas décadas, ele se apresentou diante de plateias lotadas não apenas nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha e na Europa continental. As investidas iniciais de Houdini no cinema foram imensos sucessos da era silenciosa. O suntuoso show de mágica que montou na Broadway em 1925, chamado simplesmente HOUDINI, fez concorrência séria ao teatro “respeitável” novaiorquino, incluindo, na época, novas produções de peças de Henrik Ibsen e George Bernard Shaw.
Hoje, Harry Houdini é lembrado principalmente por suas incríveis fugas e por sua campanha implacável para denunciar médiuns e videntes como fraudadores.
Esta campanha teve muitas formas: usando a considerável fortuna que sua carreira no showbiz lhe permitira acumular, contratou um grupo leal de agentes — um biógrafo, Kenneth Silverman, refere-se a eles como o "FBI privado” de Houdini — para visitar médiuns, coletar informações sobre suas rotinas "espectrais" e juntar evidências de fraude ou exploração para apresentar às autoridades. Uma de suas agentes, uma detetive particular chamada Rose Mackenberg, sofreu tantas tentativas de abuso e assédio sexual por médiuns que visitou, passando-se por viúva enlutada ou mãe chorosa, que Houdini sugeriu que ela carregasse uma arma para se proteger. Mackenberg recusou.
Mas Harry Houdini era, acima de tudo, um showman, e o espetáculo era sua principal arma: durante várias de suas apresentações, especialmente na década de 1920, e em uma série sensacional de apresentações em Chicago em 1922, ele recriava efeitos mediunísticos no palco, mostrando que supostas "provas" de atividade espiritual ou poderes psíquicos poderiam ser produzidas por meros truques.
Em algumas apresentações, Houdini vendava os olhos de membros da plateia chamados ao palco ou mantinha alguns voluntários no escuro, para mostrar ao público como era fácil enganar as pessoas em condições típicas de uma sessão espiritualista da época. Apesar do óbvio valor educacional dessas apresentações, alguns filósofos e cientistas simpáticos à pesquisa paranormal tendem a torcer o nariz para demonstrações do tipo.

Eles acusam Houdini de cometer uma falácia lógica primária: não é porque um efeito pode ter uma causa fraudulenta que se segue que cada instância desse efeito será fraudulenta. O fato de que algumas pessoas podem usar efeitos especiais para fazer parecer que um avião está voando não prova que aviões de verdade não voam. Escrevendo no início da década de 1970, o historiador da pesquisa paranormal Thomas Tiertze declarou que a contribuição de Houdini para o campo havia sido “mínima”. “Para o especialista”, disse Tiertze, “Houdini estava apenas apontando o que já estava claro: a vigilância contra o engano deve ser constante”. O que deixa a questão: se era tão “clara” essa necessidade de vigilância, por que os cientistas pró-paranormalidade continuaram (e continuam) a se deixar enganar por picaretas, de novo e de novo?
Esta crítica a Houdini é enganosa porque se esquiva do ponto principal do argumento: ele não está dizendo que “já que pode ser falsificado, nunca pode ser real”, mas “já que pode ser falsificado, e dado o que sabemos sobre como o mundo funciona, sobre a malícia das pessoas e sobre como a percepção humana é falível, provavelmente não é real”.
A parte em negrito e itálico é o coração do argumento; pode muito bem ser chamada de “O Princípio de Houdini”. Evidência indiscutível de que máquinas mais pesadas do que o ar voam é produzida a cada segundo. Evidência indiscutível de fenômenos paranormais não existe.
Ou, como professores de Medicina às vezes dizem aos seus alunos: “Quando você ouvir um galope, pense em cavalos, não em zebras”.
O ponto implícito nas exposições de Houdini é de que constitui um erro abordar alegações de fenômenos extraordinários como se todas as hipóteses concebíveis para explicá-los — digamos, é real, é um erro, é uma fraude — fossem igualmente prováveis desde o início; como se a análise ou investigação devesse prosseguir de maneira completamente abstrata, sem considerações de contexto ou do conhecimento de fundo. Pior, como se levar em consideração o contexto e o conhecimento de fundo fosse "desonesto" ou "preconceituoso".
Vários dos defensores da realidade dos fenômenos psíquicos ou mediunísticos no tempo de Houdini (e no nosso também) apelam ao argumento de que "nenhuma outra explicação é possível" para fundamentar suas hipóteses favoritas de comunicação espiritual, poderes ocultos da mente, intervenção extraterrestre ou o que quer que seja. O trabalho de Houdini ataca exatamente isso: ele estava, afinal, oferecendo outras explicações.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
