Imóveis de outro mundo

Dossiê Questão
1 out 2025
Autor
Disco Voador sobre casa à venda

 

A compra de um imóvel não é uma decisão fácil. Cheia de altos e baixos, a dinâmica do mercado imobiliário é complexa, com parâmetros básicos aparentemente objetivos, como ponto, planta e preço, afetados por um sem-número de subjetividades. Há quem prefira um andar alto (ou baixo). Outros não abrem mão de um quintal ou área externa. E tem quem queira ver supostos discos voadores, esperar a visita de extraterrestres ou estar protegido de um “apocalipse cósmico” sob uma suposta redoma magnética.

Pode parecer bizarro, mas estes são argumentos reais de marketing, com aparente influência direta no preço destes “imóveis de outro mundo”. Imóveis que, diferentemente de “lotes no céu” ou terrenos na Lua vendidos por aproveitadores e espertalhões, são bem terrestres. No Brasil, a região do Planalto Central, que engloba os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e o Distrito Federal, é pródiga neste tipo de discurso. 

Para além de seus inegáveis atrativos naturais - Chapada dos Veadeiros, Jalapão, Chapada dos Guimarães, entre tantas outras atrações com seus rios, cachoeiras, cânions, cavernas e ricas flora e fauna do Cerrado e Mata Atlântica -, o Planalto Central é foco de crenças místicas e esotéricas que se misturam com a história da construção de Brasília. Politicamente, a ideia de estabelecer uma capital nacional na região remonta ao Brasil colônia, com o Marquês de Pombal em 1761 e depois Tiradentes e seus inconfidentes de 1789, chegou até a República, com o artigo 3º da Constituição de 1891 prevendo uma futura nova capital da Federação lá, e se concretizou com a política desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek, nos anos 1950.

Já a mística em torno de Brasília teve seu ato inaugural com um “sonho-visão” do sacerdote italiano João Belchior Bosco, o Dom Bosco, canonizado como São João Bosco em 1934 pelo Papa Pio XI. Em suas “Memórias Biográficas” publicadas em 1883, ele – que nunca teria pisado nas Américas - relata ter sonhado com o surgimento entre o “grau 15 e 20” do Hemisfério Sul de uma “terra prometida, que jorra leite e mel”, no que seria “uma riqueza inconcebível”. O relato foi interpretado por muitos como uma “profecia” da construção de Brasília, influenciando o próprio Kubitschek. Tanto que a primeira obra de alvenaria no trabalho de erguer a nova capital foi justamente a Ermida Dom Bosco, uma capela em formato de pirâmide desenhada por Oscar Niemeyer e finalizada em 1957.

A ousadia da empreitada, o modernismo do projeto urbanístico do “Plano Piloto” de Lúcio Costa - originalmente concebido para ser uma cruz, e não um “avião” - e o futurismo nas linhas curvas da arquitetura de Niemeyer também ajudaram a alimentar uma imagem utópica de Brasília como capital do “Terceiro Milênio”, um símbolo de um novo período próspero para o Brasil (e a Humanidade). Soma-se a isso ainda o fato de a geologia da região ser marcada pelos chamados “escudos cristalinos” em áreas de baixa atividade tectônica, ou “crátons”. Estes maciços de rochas muito antigas, com 500 milhões a quase 4 bilhões de anos de idade, são ricos em cristais como quartzo, historicamente associados a poderes “mágicos”, muito em função de sua capacidade de refratar a luz e dividi-la em suas diferentes “cores”.

Tudo isso não passou despercebido pelos grupos esotéricos, especialmente os adeptos de então crescente misticismo da linha “Nova Era”, em um movimento que não tardou a abarcar não só a cidade como a ideia do “Planalto Central” como um todo.

 

Um “Paraíso” no Planalto

Assim, a migração de trabalhadores e operários, e depois de funcionários públicos e outros profissionais, para a construção e ocupação da nova capital também foi acompanhada de grupos esotéricos, que encontraram no Planalto Central um amplo espaço para estabelecer suas comunidades, que viam como “embriões de uma nova civilização”. Nesta primeira leva, ganhou destaque a região do que é hoje o município de Alto Paraíso de Goiás, cuja história é contada em detalhes por Pepita de Souza Afiune na tese de mestrado “Lugar de Outro Mundo - O reencantamento do mundo e as narrativas ufológicas em Alto Paraíso”, apresentada na Universidade Estadual de Goiás em 2016.

Localizado a cerca de 230 quilômetros ao norte de Brasília, Alto Paraíso é uma das entradas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que ocupa parte da área do município. De início distrito do município vizinho de Cavalcante, obteve sua emancipação em 1953 sob o nome original de Veadeiros, alterado em 1963 para o atual Alto Paraíso de Goiás, que curiosamente não guarda relação com misticismo, mas uma referência à Fazenda Paraíso, pertencente a um dos vereadores que participaram da escolha da nova denominação na época.

Com a emancipação e a construção de Brasília também vieram os primeiros grupos esotéricos, inicialmente com uma orientação espiritualista, relata Afiune. Os pioneiros, em 1957, foram adeptos do Esperanto, língua criada pelo médico polonês Lázaro Luís Zamenhof em 1887 com o objetivo de se tornar um idioma universal, que estabeleceram a Fazenda Bona Espero, projeto social dedicado a abrigar e educar crianças em situação de vulnerabilidade ainda em funcionamento e que expandiu suas atividades para um hotel fazenda para aproveitar a vocação ao turismo ecológico na região.

Pouco depois, no início dos anos 1960, foi a vez da Cidade da Fraternidade, uma comunidade espírita cristã kardecista também ainda em atuação e com atividades de cooperação agrícola e educacional com crianças carentes. De lá para cá, porém, é nítida a guinada “Nova Era” e ufológica de Alto Paraíso, que se acentuou nas últimas décadas. Primeiro, nos anos 1970 e 1980, foram movimentos com inspiração principalmente oriental budista ou hinduísta, como os Hare-Krishna, a Ordem Mística Iniciática Brahmânica ou os Cavaleiros de Maitreya – uma criação local em que seus integrantes se preparavam para uma nova vinda de Cristo, ou “Buda Maitreya”. 

Já nos anos 1990, destaque para a Associação Cúpulas de Saint Germain, grupo de alquimistas cujas construções em ruínas ainda podem ser vistas nos arredores da cidade; a Fundação Arcádia, cujos membros se preparavam para a chegada de mestres extraterrestres na virada do ano 2000 - que, obviamente, não aconteceu, mas não impediu seu fundador e líder de ainda hoje a fazer palestras e vender cursos relacionados à temática de “despertar da consciência cósmica -; e a Rede N.A.V.E. (Nossas Almas Vieram das Estrelas), grupo com orientação ufológica que acreditam em uma transição apocalíptica para a Era de Aquário.

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A partir dos anos 2000, os grupos místicos-esotéricos em Alto Paraíso ganharam diversidade, mas ainda mantendo em grande parte a tendência ufológica e orientalista. Exemplo disso é a Vale do Amanhecer, doutrina espiritualista cristã fundada por Neiva Chaves Zelaya, conhecida como “Tia Neiva”, em 1959 em Planaltina, cidade da Região Metropolitana de Brasília. Seus adeptos acreditam que seres extraterrestres gigantes chamados “equitumans” chegaram na Terra há 32 mil anos para preparar o planeta para futuras civilizações humanas, seguidos de outros ETs – Tumuchys e Jaguares – que trouxeram a ciência e as forças sociais que permitiram o “despertar” da Humanidade.

Na lista compilada por Afiune também chama a atenção a Igreja do Trance Divino (ITD), outra criação “autóctone” de Alto Paraíso em que músicas eletrônicas no estilo trance são a base de estudos de ciência e ufologia e práticas de dança como forma de “transcendência”. Por fim, também desembarcaram na região diversos grupos dedicados ao uso ritual da ayahuasca, como o Santo Daime, e de estudos e práticas de meditação de inspiração budista.

Tamanha movimentação se refletiu no mercado imobiliário de Alto Paraíso. Apesar da grande extensão do município – cerca de 2,6 mil Km2, mais do dobro dos 1,2 mil Km2 do Rio de Janeiro e quase duas vezes os 1,5 mil km2 de São Paulo – e muitas áreas desocupadas, os preços dos imóveis na zona urbana das sedes municipais rivalizam com os de regiões nobres das duas capitais. Pesquisas em sites de imobiliárias locais retornam com casas em bairros de desenvolvimento mais recente, como Monte Sinai, Estância Paraíso e Eldorado, com preços que chegam a R$ 10 mil o metro quadrado de área construída, enquanto imóveis no centro da cidade giram em torno de R$ 5 mil o metro quadrado construído.

“Sendo um dos vértices energéticos (chacras) da Terra, Alto Paraíso de Goiás é considerada por muitos o centro cardíaco do planeta”, apregoa uma das imobiliárias, acrescentando que a cidade “está localizada sobre uma placa de cristais, cujo brilho refletido é detectado pelos satélites da NASA” – o que simples buscas no Google Maps ou no site Earth Observatory, da própria agência espacial americana, mostram não ser verdade. 

Enquanto isso, no município vizinho de Cavalcante, com população similar à de Alto Paraíso, casas de padrão semelhante também em condomínios novos em bairros de desenvolvimento recente na zona urbana das sedes municipais e com os mesmos atrativos de proximidade do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o metro quadrado construído sai por menos da metade do preço, entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, incluindo imóveis mobiliados. Já na pequena cidade de Teresina de Goiás, entre os dois municípios, os valores são ainda menores, com uma casa em estilo mais antigo e modesto e quintal saindo por pouco mais de R$ 1 mil o metro quadrado construído. Um pouco mais longe na região, em Niquelândia, cidade com cerca de 30 mil habitantes - o triplo da população de Alto Paraíso - os preços pedidos por imóveis urbanos caem ainda mais, em alguns casos abaixo de R$ 1 mil o metro quadrado construído

OBS: As buscas e comparações se concentraram em imóveis urbanos nas sedes municipais. Propriedades rurais, como fazendas, sítios, chácaras etc foram ignoradas dadas as muitas variáveis a considerar na precificação destes tipos de imóveis, como extensão, benfeitorias, acesso a água, cultivos existentes etc.

 

Da pseudoarqueologia aos óvnis

Outra cidade conhecida por suas ligações com misticismo e ufologia na região do Planalto Central é a mato-grossense Barra do Garças. Localizada a cerca de 550 quilômetros a oeste de Brasília, a meio caminho entre capital federal e Cuiabá, e aos pés da Serra do Roncador, Barra do Garças ganhou notoriedade nacional em 1997 com a inauguração do primeiro “discoporto” do país. A estrutura, reformada e reaberta ao público em 2022 a um custo relatado de mais de R$ 40 mil, faz parte da estratégia do governo local para reforçar o chamado “turismo ufológico” na cidade.

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Mas o misticismo relacionado à região precede a ascensão da crença em discos voadores e visitas extraterrestres a partir da segunda metade do século 20. Ainda no início do século passado, a Serra do Roncador e seu entorno foram objeto de uma das mais notórias - e dramáticas - histórias de pseudoarqueologia da América do Sul: o desaparecimento do explorador britânico Percy Fawcett em 1925. Cartógrafo por formação, Fawcett esteve na América do Sul pela primeira vez em 1906, contratado pelo governo boliviano como especialista independente para mapear a fronteira do país com o Brasil.

O britânico, no entanto, voltaria outras seis vezes para o continente. De início, seu interesse estava na geografia, fauna e flora da região, tendo identificado as nascentes no Rio Verde, que corre da Bolívia para o Brasil, e do Rio Heath, um afluente do Amazonas, nas montanhas dos Andes em torno do Lago Titicaca, relatado ter visto uma sucuri de 19 metros e outros animais “exóticos” só depois descritos pela ciência, além de amendoins gigantes depois apontados como da variante Arachis nambyquarae.

Com o tempo, porém, Fawcett se voltou para a pseudoarqueologia, atraído por histórias de integrantes de povos nativos que teria ouvido nas suas viagens anteriores, além de mitos que já circulavam há tempos sobre antigas civilizações amazônicas. Assim, em 1920, empreendeu sua primeira expedição em busca de uma suposta “cidade perdida” nas estão selvas de Mato Grosso, a qual denominou apenas como “Z”. Solitária, ele teve que suspender a busca depois de ser atingido com uma febre e ter de matar seu animal de carga.

Fawcett não desistiu, e em 1924 voltou, agora acompanhado pelo filho mais velho, Jack, e Raleigh Rimmel, amigo de Jack. Em meados de 1925, o trio partiu de Cuiabá em direção às margens do Rio Xingu, junto com dois guias locais, animais de carga e cães. De acordo com relatos, depois de oito dias de caminhada o grupo se separou, com Fawcett, filho e amigo adentrando território então inexplorado para nunca mais serem vistos.

De lá para cá, Mato Grosso perdeu cerca de metade de sua cobertura florestal original, mas não ficou desprovido de belezas naturais. No entorno de Barra do Garças, a Serra do Roncador continua em grande parte preservada, enquanto nas proximidades da cidade o Parque Estadual da Serra Azul – onde está localizado o “Discoporto” - e o Parque Municipal das Águas Quentes são importantes áreas de lazer e de contato com a natureza. 

Mas, assim como Alto Paraíso, isto não parece ser suficiente para justificar a diferença no preço dos imóveis na comparação com cidades próximas e semelhante acesso a atrativos naturais. Novamente focando as buscas em propriedades na zona urbana das sedes municipais, o valor pedido pelo metro quadrado construído passa de R$ 8 mil em casas modernas em áreas de desenvolvimento recente e mais de R$ 11 mil o metro quadrado de um pequeno apartamento em um prédio novo próximo ao centro da cidade. No geral, porém, os imóveis giram na faixa de R$ 4 mil a R$ 5 mil o metro quadrado construído.

Basta cruzar o Rio Araguaia, porém, e tudo muda de figura. Notória por sua vez por ter sido local do pouso, em 1959, do primeiro avião comercial sequestrado na história do Brasil – um Constellation da Panair que havia saído do Rio de Janeiro para Manaus com 46 pessoas a bordo, tomado por militares golpistas que pretendiam derrubar o então presidente Kubitschek -, a vizinha Aragarças, já no estado de Goiás, tem imóveis bem mais em conta, com casas grandes e modernas saindo por pouco mais de R$ 2 mil o metro quadrado construído. Mesma faixa de casas novas na também vizinha Pontal do Araguaia, cruzando o Rio das Garças e ainda em Mato Grosso

Uma novata no circuito

Mais recentemente, outra cidade tenta entrar no circuito místico-ufológico do Planalto Central e capturar sua valorização imobiliária. Saindo de Brasília rumo ao leste cerca de 250 km, atravessando a fronteira de Goiás com Minas Gerais, está a pequena Uruana de Minas. Com pouco mais de 3 mil habitantes, a autointitulada “cidade das cachoeiras” tem como principal atrativo natural a Cachoeira da Jibóia, uma queda d’água de cerca de 144 metros de altura na divisa com o vizinho município de Unaí, do qual se emancipou em 1995.

Para entrar neste circuito, no entanto, é preciso começar a construir a mística. E que melhor maneira nestes tempos de internet e redes sociais do que lançar mão de conteúdos pagos e publicações impulsionadas? Em outubro do ano passado, três textos publicados nos sites de veículos tradicionais de imprensa – dois na revista “Pequenas Empresas, Grandes Negócios” e um no jornal “Valor Econômico” – chamavam a atenção para supostas características “únicas” da cidade, com uma verdadeira salada de termos científicos para justificar suas alegações.

O primeiro deles, sob o título “Uruana de Minas: O Refúgio Natural e Sobrenatural do Planeta”, afirma que a cidade “está atraindo a atenção de cientistas, ufólogos e curiosos do mundo inteiro” em razão de “uma anomalia geomagnética que atua como um escudo invisível contra radiações cósmicas e solares”. O texto então prossegue dizendo que “pesquisadores da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA)” – agência dos EUA que opera diversos satélites de observação da Terra - “confirmam que o campo magnético de Uruana de Minas é altamente singular”, apresentando supostos dados da densidade de fluxo magnético medida na cidade – 23.617,3 nanoTesla (nT) - e a direção deste campo magnético - “declinação de -22.6473° e uma inclinação de -32.6227°”.

Ainda segundo o texto, estas características criariam “uma espécie de ‘redoma natural’ sobre a cidade” – atenção para o termo “redoma”, que vai reaparecer algumas vezes como parte fundamental do marketing pseudocientífico em torno de Uruana – que “age como uma barreira, desviando radiações solares e cósmicas potencialmente perigosas”. Mas não é só isso. A suposta “anomalia magnética” também agiria contra a poluição atmosférica, com relato de que em períodos de intensas queimadas na região ela manteve a qualidade do ar de Uruana de Minas significativamente melhor que nas cidades vizinhas de Unaí e Arinos.

Simples pesquisas no site da própria NOAA na internet e mecanismos de buscas mostram, no entanto, que os seu pesquisadores nunca fizeram qualquer menção a Uruana de Minas  – e muito provavelmente também nunca sequer ouviram falar da cidade. Já os dados sobre o campo magnético provavelmente vieram de uma calculadora de acesso e uso livre no site da agência, que também deixa clara a trivialidade dos aparentemente impressionantes números da “anomalia magnética” que alimentaria sua “redoma” de proteção. No dia da publicação do conteúdo, 4 de outubro de 2024, a densidade de fluxo magnético em Uruana era de 23.544 nT. Ali ao lado, em Unaí, era de 23.450 nT, enquanto em Brasília era de 23.437,1 nT. A “enorme” diferença de aproximadamente 100 nT entre Uruana e estas outras cidades é equivalente à densidade de fluxo magnético observada a cerca de 30 centímetros de uma cafeteira ligada, e certamente não suficiente para energizar um “campo de força” único como o texto alega.

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Mas o conteúdo não se limita a esta balela com ares científicos. Logo em seguida começa a cantilena ufológica, com relato sobre um “aumento de avistamentos de OVNIs” que estaria “atraindo ufólogos e curiosos de todas as partes do Brasil”. Apresentado ainda no início do texto como um “morador de Aruana e membro do grupo de estudos ‘Ágora’”, um certo Lucas Ribeiro afirma: “A combinação da anomalia geomagnética e a concentração de avistamentos de OVNIs (sic) faz de Uruana um ponto de interesse global para a ufologia. Não há dúvida de que algo especial está acontecendo aqui, e é possível que o campo magnético esteja de alguma forma relacionado a esses fenômenos”. Diante disso tudo, conclui o texto, “seja como um refúgio natural contra os perigos do espaço ou como um portal para eventos sobrenaturais, Uruana de Minas se destaca como um dos lugares mais fascinantes do planeta”.

Nos dois textos seguintes, publicados no mesmo dia 24 de outubro do ano passado nos sites da “Pequenas Empresas, Grandes Negócios” e do “Valor Econômico”, Ribeiro já aparece transmutado de “morador” a “pesquisador”, dado que ambos se focam no seu trabalho. No primeiro, sob o título “Ponto de Espelhamento Inédito Conecta Brasil e Arábia Saudita e Levanta Suspeitas de Intervenção Extraterrestre”, ele usa as posições geográficas de Uruana de Minas e da cidade saudita de Najran para alegar ter encontrado um “um raro alinhamento tridimensional” entre as duas localidades.

O texto diz que “o que torna essa configuração particularmente extraordinária é o fato de que o alinhamento abrange não apenas os eixos norte-sul e leste-oeste, mas também os eixos diagonais, formando uma estrutura tridimensional rara”, para então ilustrar que “quando o mapa é dobrado nos dois eixos principais e nos eixos diagonais, as coordenadas dessas localidades coincidem de forma exata, algo inédito na literatura científica”, como em um origami alucinado. Que tipo de mapa, projeção e posição de referência de meridianos de latitude e longitude? Será o mapa da "Terra Plana"? Nunca saberemos.

Está ruim? Pois piora. O “pesquisador” parece que nem se deu ao trabalho de pesquisar as reais coordenadas de Najran. Os dados apresentados no texto, com ambas cidades parecendo ter coordenadas "invertidas" - 16°03′50″S, 46°15′14″O para a brasileira, 16°03′50″N, 46°15′14″E para a saudita -, não correspondem à posição de Najran na Terra: 17°29′30″N, 44°07′56″E.

Neste momento, Ribeiro também fracassa fragorosamente ao lançar mão do conceito de antípoda - o ponto diametralmente oposto a outro no globo terrestre. Para encontrar este local, não basta inverter as coordenadas de longitude (no caso de Uruana, de oeste para leste) como é feito com a latitude (sul para norte), é preciso levar em conta a inversão em 180 graus da referência. Desta forma, os 180º - 46°15′14″O do ponto antípoda da cidade mineira se tornam 133º44′46″E, localizando-o sobre a água no meio da Mar das Filipinas, no Oceano Pacífico, a cerca de 9,5 mil quilômetros a leste de Najran.

Mas não fica por aí. O texto lança mão novamente de informações tiradas do site da NOAA sobre propriedades do campo magnético da Terra para chegar à sua conclusão mais extraordinária ainda: a de que supostas discrepâncias nas propriedades do campo magnético da Terra nas duas cidades indicariam que o campo em torno de Uruana “está sendo manipulado artificialmente” de forma que “parece ter sido moldado para criar uma redoma protetora”.

“Forças associadas à constelação de Cygnus podem estar interferindo diretamente no campo magnético, com o objetivo de proteger a área contra radiações nocivas, descargas elétricas e outros elementos atmosféricos”, continua o texto, ignorando totalmente o fato de que constelações são construções culturais humanas sobre as posições aparentes de astros de diferentes tipos e geralmente sem qualquer relação de proximidade no espaço tridimensional do Universo. No caso da constelação de Cygnus, ou Cisne, ela é formada por nove estrelas principais de tipos e a distâncias que vão da supergigante azul Deneb - a mais brilhante delas, com pelo menos 15 vezes a massa do Sol e a cerca de 2,6 mil anos-luz da Terra -, ao sistema binário Epsilon Cygni, ou Aljanah - um par de estrelas em que a maior tem aproximadamente a mesma massa do Sol a “meros” 72 anos-luz de nosso planeta.

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Cygnus também está no centro dos argumentos do segundo texto de “divulgação” de Uruana publicado no dia, sob o título “Brasileiro Desvenda Enigma de Oak Island: “Coincidência Matemática Surpreendente Conecta Canadá, Brasil e Egito” no site do jornal “Valor Econômico”. Nele, obviedades astronômicas como a diferença na elevação máxima da constelação no céu (diretamente dependente da latitude de observação) e a época do ano em que atinge este ponto (os solstícios de verão no Hemisfério Norte e de inverno no Hemisfério Sul) são apresentadas como “provas” de uma ligação místico-ufológica entre Uruana, a ilha canadense de Oak Island (objeto de uma conhecida série de TV a cabo de viés pseudoarqueológico) e a cidade egípcia de Heliópolis, centro do culto ao “Deus Sol” Rá no Antigo Egito da qual hoje restam apenas alguns obeliscos e ruínas nas cercanias da capital Cairo.

 

Repercussão na mídia

Apesar de todos estes problemas, a estratégia de divulgação parece estar dando certo. Em fevereiro, o jornalista Luiz Bacci publicou em perfil de canal seu no Instagram com mais de 24 milhões de seguidores reportagem sobre Uruana não só reproduzindo as alegações dos conteúdos pagos – apresentados como noticiosos - como acompanhadas pelas indefectíveis “câmera tremida” e imagens desfocadas de luzes no céu, além de uma entrevista com o próprio Ribeiro, que ainda teria identificado os ETs como representantes dos chamados “reptilianos”.

No início de junho, o canal de Bacci no Instagram voltou a divulgar reportagem sobre Uruana, na mesma época em que a cidade recebia sua “1ª Expedição Ufológica”, evento que contou com palestras sobre ufologia e vigílias noturnas em busca de óvnis organizado pelo próprio Ribeiro. Publicação em perfil mantido por ele no Instagram, o “Uruana Sobrenatural”, mostra pelo menos um ônibus de participantes vindos “de todo país” chegando à cidade.

O canal de Bacci, por sua vez, exibe o que parece ser uma destas “vigílias” com dezenas de pessoas, entre elas um gerente do Banco do Brasil apresentado como “o maior ufólogo” do país, Edison Boaventura, que é entrevistado pelo mesmo repórter. Em tom sensacionalista, as imagens desfocadas de supostas luzes misteriosas avistadas aos gritos no céu se repetem, sem permitir identificar o que muito provavelmente são aviões a distância, satélites, detritos espaciais ou simples meteoros com ajuda, por exemplo, de sites como o Flight Radar ou Heavens Above. Mas aí não seriam “óvnis”, né?

Mas o canal de Bacci não foi o único a repercutir a expedição. A TV Portal Arinos, da cidade vizinha de Arinos, também “marcou presença” no evento, com direito a entrevistas com Ribeiro, Boaventura e um terceiro “pesquisador”, “Saga de Peruíbe”. Já o jornal Diário do Litoral, de Santos, teve seu próprio “enviado especial”, que além de contratempos nas vigílias registrou a contrariedade e desconfiança quanto aos visitantes de parte da população local, inclusive um pastor evangélico que “ficou pistola” com a movimentação.

Quanto às imagens das “câmeras de alta tecnologia” e dados dos diversos equipamentos que os “especialistas” e ufólogos levaram para esta expedição, segundo as reportagens, nenhum sinal até agora, quatro meses depois. Talvez seja pela mesma razão que nem todos participantes da expedição ficaram satisfeitos com o que viram. Em comentário na reportagem do canal de Bacci, uma delas diz que “só apareceu (sic) starlinks e outros satélites e essa luz aí era farol de carro numa estrada”. “Eu saí de Porto Alegre direto pra Uruana de Minas pra conferir e tudo fake!!!”, completa.

 

Mercado aquecido

A esperança, no entanto, parece ser que a repercussão se reflita no mercado imobiliário da pequena cidade. Outra comentarista na mesma reportagem no canal de Bacci, por exemplo, declara querer “se mudar pra essa Uruana”. Afinal, como conclui um dos conteúdos impulsionados sobre Uruana, que compara a cidade a Wakanda, o país africano fictício da série de filmes “Pantera Negra” da Marvel, “enquanto magnatas como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos investem suas fortunas construindo bunkers high-tech, o que eles sabem que nós não sabemos? A verdade é que você não precisa de bilhões para estar seguro! Escondida nas montanhas de Minas Gerais, Uruana oferece o que nenhum bunker ultramoderno pode: uma proteção natural invisível, digna de ficção científica, que está chamando a atenção do mundo todo”.

Para lucrar com isso, também já está a postos uma imobiliária, sugestivamente batizada de “Redoma”. Em seu site já aparecem anúncios de propriedades com preços que variam de pouco menos de R$ 2 mil a R$ 3 mil o metro quadrado (em alguns casos "quase") construído, incluindo um casebre inacabado de 55m2 por R$ 100 mil cujo estado foi confirmado pela corretora local. Na vizinha Unaí, casas equiparáveis saem por menos de R$ 1 mil o metro quadrado construído, mesmo valor para imóveis similares na também próxima Arinos.

Diante disso, no mercado imobiliário ufológico pode-se dizer que Uruana nem bem chegou no disco voador e já senta na janela. Já a disposição de veículos tradicionais de mídia supostamente "sérios" como o "Valor Econômico" de comprometer a credibilidade de suas marcas em troca de alguns caraminguás de anúncios travestidos de jornalismo - informes publicitários ou, no caso, "conteúdo de marca" - é deprimente, se não assustadora.

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência 

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