Estudo de caso da ciência do oba-oba em ciência

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25 fev 2026
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Propaganda de polilaminina

"Hype" é um termo técnico da pesquisa em comunicação de ciência, usado para descrever exageros midiáticos na divulgação de resultados e descobertas. Uma expressão equivalente em português seria "oba-oba". Oba-obas científicos tendem a criar dois tipos de reação emocional no público: medo excessivo ("celular causa câncer!") ou esperança indevida ("vinho tinto faz bem para o coração!"). Capturados por oportunistas, oba-obas científicos geram e sustentam mercados que podem ser de nicho, como o de amuletos anti-Wi-Fi, ou multibilionários, como o de suplementos alimentares.

Existem três modelos comumente usados para explicar a origem do oba-oba: um que eu chamaria de "conveniente" (para a comunidade acadêmica), que põe toda a culpa na comunicação popular. É o jornalismo sensacionalista que distorce o trabalho sério dos cientistas para gerar cliques e audiência. O segundo é o da linha de montagem: o oba-oba, na verdade, começa com o próprio cientista, que deseja fama, verba e reconhecimento, ou bem perto dele, na assessoria de sua instituição de pesquisa ou empresa, que busca os benefícios da exposição. O comunicador externo, jornalista ou influenciador, embarca no processo, mas entra depois e é apenas uma engrenagem a mais numa máquina de exagero que começa a rodar muito antes de o assunto chegar às redes e redações.

Esses são os modelos clássicos. Ambos pressupõem um público que pode ser considerado passivo: é afetado pelo oba-oba, mas não participa de modo significativo de sua construção.

O terceiro modelo, o da linha de montagem revisada (do qual sou um dos proponentes; você pode ler o artigo acadêmico revisado por pares aqui), sugere que, com a ascensão das mídias sociais, o público deixou de ser mero destinatário do que sai da linha de montagem e incorporou-se a ela. Tornou-se uma importante engrenagem extra, transformando e amplificando o oba-oba pré-fabricado de maneiras criativas, imprevisíveis e, potencialmente, perigosas.

 

Polilaminina

O oba-oba da vez na ciência brasileira é, claro, o do uso da polilaminina para reversão de lesões na medula espinhal. A despeito dos protestos da pesquisadora líder do projeto, bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que no programa Roda Viva, da TV Cultura, afirmou que o "furor", como ela o chama, "não partiu de um desejo meu", o gatilho da excitação é facilmente rastreável a ela, pessoalmente, e ao Laboratório Cristália, que vem financiando seus estudos.

O marco zero do oba-oba é uma entrevista coletiva convocada pela empresa no início de setembro do ano passado. De acordo com relato publicado na Folha de S. Paulo – jornal que tem sido parceiro próximo da empresa e da pesquisadora na construção do "furor" –, ali, um estudo em cães que conclui ter sido impossível determinar se a polilaminina traz ou não benefícios (citando ao pé da letra: “A ausência de um grupo placebo impede conclusões definitivas sobre a eficácia do tratamento”) foi descrito como impressionante.

de acordo com a CNN, um representante do Cristália, no mesmo evento, afirmou que “demonstramos, por meio de evidências robustas, que o produto cumpre os requisitos para ser considerado medicamento e oferecer uma alternativa viável para quem não possui outras opções de tratamento”.

Isso tudo, somado ao fato de que, em boa parte de suas apresentações e aparições públicas, tanto representantes do laboratório quanto a pesquisadora se fazem acompanhar pelo paciente Bruno Drummond de Freitas, exemplo único e extraordinário de recuperação quase plena, coloca o caso firmemente no campo da linha de montagem, do oba-oba fabricado antes de chegar à mídia.

É verdade que há sempre o cuidado de mencionar que o sucesso de Freitas é excepcional e deve ser atribuído a um complexo de fatores que vai muito além da aplicação experimental da polilaminina, mas qualquer profissional de publicidade e relações públicas sabe muito bem que o impacto emocional imediato do caso humano concreto é muito mais marcante do que a ressalva racional apresentada ao estilo de nota de rodapé.

 

Nullius in verba

A natureza fabricada do oba-oba fica ainda mais clara quando tiramos de campo o que há de comunicação informal e de hipérbole sobre o assunto e nos concentramos nos dados técnicos disponíveis.

Se formos levar a sério as regras pelas quais a comunidade científica exerce seu controle interno de qualidade – regras segundo as quais merece consideração séria apenas o resultado que foi avaliado, revisado e aprovado por especialistas independentes –, o que existe de concreto a respeito dos benefícios da polilaminina para lesões da medula é tão somente o já mencionado teste realizado em meia dúzia de cães, e a partir do qual não se pode afirmar nada.

Há, é verdade, outro artigo, que apresenta um resultado promissor em ratos e um estudo-piloto que descreve o uso, bem-sucedido segundo os autores, da polilaminina em seis seres humanos. Mas esse trabalho permanece como pré-print – isto é, sem ter sido aprovado formalmente por especialistas – desde 2024.

Nessas circunstâncias, ganha especial relevância outra fala de Sampaio feita durante o Roda Viva: "Vocês têm de acreditar em mim". O que é uma violação frontal de um dos pilares da ciência moderna, o lema nullius in verba – “na palavra de ninguém”. A qualidade dos dados e o rigor dos processos devem sempre falar mais alto do que intuições, inspirações ou promessas.

 

A linha revisada

O modelo da linha de montagem revisada prevê que o oba-oba, depois de pré-fabricado na cadeia clássica cientista-instituição-imprensa, ganhe asas e vida própria ao “cair na boca do povo”, e é exatamente o que está acontecendo. De cidadãos comuns, embasbacados, a influenciadores oportunistas, versões e interpretações multiplicam-se, misturam-se e se propagam.

Frases soltas, como a comparação da molécula da polilaminina com uma cruz, convertem-se em foco de subculturas instantâneas e cavam suas próprias “tocas de coelho”, termo usado no estudo de teorias da conspiração em referência a sistemas de crença e redes de especulação deslocados da realidade. Turbas digitais espontâneas acossam críticos e criam aparentes consensos que alimentarão o discurso de políticos, influenciadores e empreendedores.

Os deflagradores originais do oba-oba, claro, distanciam-se retoricamente dos filhotes mais extremados, ao mesmo tempo em que colhem os benefícios do impacto na opinião pública da agitação criada.

 

E daí?

Nada disso, por óbvio, tem qualquer implicação quanto ao verdadeiro potencial terapêutico da polilaminina, questão que, espera-se, será elucidada pelos testes clínicos autorizados pela Anvisa no mês passado. Duvido que haja alguém torcendo para que os resultados robustos e de boa qualidade, se e quando vierem, não sejam positivos – mas, como flamenguistas, corintianos, palmeirenses e são-paulinos bem sabem, torcida é uma coisa, resultado é outra.

Entre outros efeitos deletérios, o oba-oba transforma o que deveria ser suspensão de julgamento – aguardar mais informações antes de formar opinião – em guerra de torcidas e bolsa de apostas, e abre brechas para iniciativas populistas no sentido de liberar terapias “por aclamação”. O que não é tão raro como pode parecer: é o que ocorre no caso das diversas Práticas Integrativas e Complementares (PICs), integradas ao SUS sem base em evidência científica, apenas para atender aos lobbies dos profissionais que as oferecem. E da infame lei da fosfoetanolamina, proposta há mais de uma década por Jair Bolsonaro e sancionada por Dilma Rousseff, momentaneamente irmanados numa aliança oportunista contra a saúde pública.

O populismo sanitário no Brasil não tem ideologia, partido e deixa-se cooptar docemente por interesses comerciais.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto).

 

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