"Dieta da selva" é salada de desinformação

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12 fev 2026
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felino selvagem

Sabe aquele ditado “de tédio a gente não morre”? É, basicamente, o mantra que adotei para me manter calmo à medida que cada ano se encerra. Como já comentei em outro momento, um dos meus maiores receios a cada início de ano é saber se haverá assunto ou criatividade suficientes para dissertar sobre algo. Para sorte ou azar, sou sempre surpreendido por pesquisas que exigem contextualização, descobertas do maravilhoso mundo da nutrição ou, mais frequentemente, pelas tosquices da internet.

Essa relação agridoce, que aguça minha criatividade ao mesmo tempo em que me rende gastrite, foi exatamente o estopim para o artigo de hoje. Para contextualizar: enquanto escrevia um texto sobre as diretrizes alimentares de diferentes regiões do mundo, fui surpreendido por um vídeo no Instagram, que já soma mais de 4 mil curtidas. O vídeo mostra uma colaboração entre o influenciador Roberto Brandini — criador da chamada “dieta da selva” — e o vereador do Democratas de Salvador (BA) Alexandre Aleluia. Nele, ambos afirmam que a dieta da selva se tornará lei, por meio do protocolo de um projeto destinado a “melhorar a merenda das crianças”.

O vereador cita como evidência as supostas “mudanças” nas novas diretrizes alimentares americanas. Isso me indica que ele apenas viu a pirâmide invertida, sem compreender ou nem sequer ler o documento.

A primeira vez que me deparei com essa dieta foi em um artigo da Veja Saúde, intitulado “O que é a ‘dieta da selva’ de Henrique Fogaça e por que ela não é uma boa ideia”, de autoria do jornalista Maurício Brum. Nele, lê-se que o chef Henrique Fogaça perdeu 17 kg ao aderir à dieta, que consiste basicamente em priorizar carnes e gorduras e eliminar carboidratos. O artigo ressalta que essa abordagem não é corroborada nem por registros arqueológicos — que mostram que a alimentação histórica incluía também grãos e vegetais — nem pelas evidências científicas atuais.

Na época, imaginei que não passava de mais uma dieta da moda que logo perderia espaço para a próxima novidade. Contudo, mesmo certo de que o vídeo é, em grande parte, bravata eleitoreira para o vereador e marketing de influenciador — visto que o projeto de lei precisaria ser aprovado pela Câmara e respeitar a legislação federal do Programa Nacional de Alimentação Escolar —, acredito que seja preciso explicar o que há de errado nas ideias que estão por trás dessa dieta.

 

O influenciador

Brandini não tem formação na área da saúde. Segundo seu próprio perfil, é engenheiro civil, atuou como assessor de investimentos de alta renda no Banco Safra, é fluente em inglês, português e alemão, e se informa majoritariamente por canais de médicos no YouTube, como Paul Saladino e Barbara O’Neill.

Ambos são figuras controversas: Saladino defende dietas baseadas quase exclusivamente em alimentos de origem animal como solução para múltiplas doenças; O’Neill, por sua vez, foi proibida de prestar serviços de saúde em alguns estados australianos, após oferecer conselhos considerados perigosos, incluindo o uso de bicarbonato de sódio como tratamento para câncer.

Mas o discípulo brasileiro também tem ideias próprias. Afirma, por exemplo, que café com óleo de coco seria o “Ozempic da selva”, alegando que os triglicerídeos de cadeia média (TCM) se converteriam rapidamente em energia no fígado. Embora a literatura ainda careça de pesquisas robustas sobre o tema, um estudo piloto recente não encontrou benefícios da combinação de TCM com cafeína para a performance ou o metabolismo energético.

O brasileiro ainda alega que as novas diretrizes alimentares americanas teriam passado a endossar sua “dieta da selva” — o que é falso. Apesar do tom ideológico mais favorável a gorduras saturadas e carne vermelha, as diretrizes mantêm a recomendação de limitar a ingestão de gorduras saturadas a menos de 10% do total calórico.

Ele afirma que arroz e feijão seriam “ração do governo”, fáceis de produzir, pobres em nutrientes e basicamente carboidratos puros. A alegação é claramente equivocada. Arroz e feijão fornecem fibras, micronutrientes essenciais e, em conjunto, todos os aminoácidos essenciais.

O ataque infundado prossegue atribuindo um suposto efeito de “feminização” a uma dieta com arroz, feijão, peito de frango e chocolate, descrita como pobre em gordura saturada e rica em “gorduras vegetais que acabam com a testosterona”. A solução proposta seria uma alimentação rica em carnes gordurosas, manteiga, queijos, frutas e mel, sob a premissa de que maior ingestão de gordura e colesterol elevaria a produção de testosterona — um raciocínio fisiologicamente sem sentido.

Essa hipótese foi diretamente testada na revisão sistemática e metanálise “The Effect of Low-Fat Diets Versus High-Fat Diet on Sex Hormones, que avaliou ensaios clínicos randomizados publicados até junho de 2024.

A conclusão é de que afirmações simplistas como a de que consumir mais carne vermelha e gordura “triplica” a testosterona são infundadas. Considerando ainda o potencial aumento do risco cardiovascular associado a esse padrão alimentar, é difícil justificar tais recomendações.

O influenciador também se posiciona contra o uso de protetor solar, afirma que antitranspirantes com alumínio “bagunçam” os hormônios, defende o consumo de água com sal e recomenda leite cru para melhorar intolerâncias e a saúde intestinal — um conjunto de alegações sem respaldo científico e potencialmente nocivas.

 

A dieta da selva

A dieta da selva parece ter nascido de um desejo que muitos jovens podem compartilhar: ficar mais fortes e esteticamente agradáveis.

Em busca desses objetivos, o influenciador brasileiro mergulhou em conteúdos online sobre saúde de influenciadores internacionais, descobriu a dieta baseada em animais e aplicou o método em si próprio. Traduziu e adaptou os métodos para o Brasil e batizou-os de "dieta da selva".

Essa dieta ainda é promovida como uma forma de emagrecer “sem sofrimento”.

A abordagem dietética proposta por Brandini “funciona” simplesmente porque promove um déficit calórico. O simples fato de aderir ou iniciar uma dieta já torna o indivíduo mais consciente do que está ingerindo, o que o leva a evitar alimentos que sabemos serem calóricos ou “não saudáveis”.

O grande problema da dieta da selva é que, apesar de incentivar o consumo de frutas e evitar ultraprocessados, ela traz uma recomendação estapafúrdia de aumentar o consumo de carnes com maior teor de gordura e utilizar fontes de gordura saturada, ao mesmo tempo em que reduz ou elimina grãos integrais, vegetais e legumes. Essa receita eleva o risco de eventos cardiovasculares combinados e aumenta a probabilidade de constipação, em razão da possível baixa ingestão de fibras.

 

Por que dietas da moda?

Gurus de alimentação exploram um traço humano universal — a tendência de abraçar pseudociências e dietas da moda em busca de resultados rápidos, especialmente em processos de emagrecimento que demandam tempo e disciplina.

Por mais que eu quisesse ganhar os louros por esta constatação, a ideia vem do livro “Anxious Eaters: Why We Fall for Fad Diets”, da antropóloga nutricional Janet Chrzan e da psicóloga Kima Cargill.

Embora a análise das autoras se concentre nos Estados Unidos, muitos de seus argumentos se aplicam também ao Brasil e a outros países ocidentais, e mostram como fatores históricos e culturais ajudam a explicar a adesão recorrente às dietas da moda. Warren J. Belasco, em “Food: The Key Concepts, descreve a relação singular dos americanos com a obesidade e as dietas, marcada por grande investimento de tempo e dinheiro. Essa obsessão estaria enraizada em crenças centrais da cultura americana, como a perfectibilidade individual e a força de vontade entendida como virtude moral, que, em conjunto, sustentam a ideia de que o corpo é plenamente moldável e de que sua conformação é responsabilidade exclusiva do indivíduo.

Nesse contexto, as dietas deixam de ser apenas práticas alimentares e passam a funcionar como sistemas de crença, produtos de consumo e marcadores de identidade. O caráter comercial dessas dietas é central: ao se associarem à indústria do emagrecimento, apresentam-se como soluções rápidas e eficazes para o excesso de peso, reforçadas por lobbies que influenciam a publicidade e políticas públicas de alimentação.

Outro eixo central é o simbolismo da magreza como sinal de boa cidadania, moralidade, autodisciplina, bem como de valor intelectual e espiritual. Helen Zoe Veit mostra que essa associação se consolida a partir de 1910, quando a moda passa a exaltar corpos mais magros e a ciência da nutrição começa a alertar para os riscos do excesso calórico. Durante a Primeira Guerra Mundial, campanhas de conservação de alimentos reforçaram essa lógica ao associar autocontrole alimentar a patriotismo e dever cívico.

Nesse cenário, a magreza tornou-se um ideal moral e, como nem sempre era alcançável por meio de mudanças alimentares simples, abriu-se espaço para dietas da moda que prometiam emagrecimento rápido.

Outro conceito central é o de ansiedade alimentar, que, neste caso, destaca que o medo não deriva da escassez, mas da abundância e do excesso de escolhas, que deslocam a preocupação para comer “corretamente”. Isso gera ansiedade sobre o que comer, quando comer, a origem, a composição e os efeitos dos alimentos, tanto para a saúde quanto para o peso corporal.

Nesse contexto, as dietas da moda tornam-se atraentes porque oferecem sistemas simples, coerentes e facilmente executáveis de crenças e práticas.

As dietas da moda também funcionam como sistemas quase religiosos: exigem fé, validação grupal e se apoiam em pseudociências que confundem correlação com causalidade, frequentemente reciclando mitos antigos e idealizando um passado pré-agricultural como solução para problemas modernos.

Nesse cenário, entrevistas com frequentadores de feiras livres revelam uma associação direta entre a percepção de que “há algo errado com a comida” e a adesão às dietas mais recentes. Críticas legítimas ao sistema alimentar acabam sendo reapropriadas para justificar a exclusão de categorias inteiras de alimentos, sobretudo os processados, em favor de opções consideradas naturais ou ancestrais. O raciocínio subjacente é simples: se a dieta moderna adoece, uma dieta antiga teria sido superior.

Essas escolhas, porém, são percebidas como estritamente individuais. Os adeptos raramente reconhecem os canais culturais, econômicos e midiáticos que direcionam determinadas dietas a públicos específicos. As dimensões históricas e estruturais permanecem invisíveis; sabe-se apenas que é preciso seguir a dieta e esperar que os benefícios ocorram.

Em síntese, as dietas da moda fazem sentido porque oferecem ao indivíduo uma sensação de proteção frente a um mundo percebido como hostil. Ao prometerem uma alimentação “personalizada”, produzem a ilusão de controle sobre alimentos vistos como perigosos ou corrompidos. Em um ambiente informacional caótico, marcado por mensagens contraditórias, muitos consumidores se agarram a modelos que oferecem respostas simples, definitivas e emocionalmente reconfortantes.

Por isso, é improvável que as dietas da moda deixem de surgir. Elas se adaptam ao espírito do tempo e exploram com eficiência as dinâmicas das redes sociais. A chamada “dieta da selva” ilustra esse processo: seu crescimento não decorre de novo respaldo científico, mas da capacidade de articular um discurso sedutor para públicos já predispostos ou desorientados pela infodemia nutricional.

O caso de Paul Saladino é emblemático. Após anos promovendo uma dieta estritamente carnívora e abandoná-la por problemas de saúde associados ao próprio padrão que defendia, sua autoridade digital não apenas permaneceu, como se fortaleceu. A mudança foi reembalada sob a marca animal-based, sem colapso proporcional de credibilidade, evidenciando que, no ecossistema das redes sociais, estar empiricamente errado por longos períodos não impede a manutenção — ou até a ampliação — da influência pública.

Diante desse cenário, surge a tentação de adotar soluções regulatórias, como exigir certificações formais de influenciadores que falam sobre saúde, nutrição ou medicina, a exemplo do que ocorre em alguns países. Embora a proposta seja compreensível, sua eficácia é incerta.

Não há soluções simples nem respostas confortáveis. Ainda assim, é difícil ignorar que a circulação de informações nutricionais nas redes sociais deixou de ser apenas uma questão de gosto ou escolha individual. Quando pessoas sem formação adequada passam a recomendar dietas a milhões de seguidores anônimos, sem considerar condições de saúde ou contextos clínicos, os riscos deixam de ser abstratos e se tornam concretos.

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

BRUM, M. O que é a “dieta da selva” de Henrique Fogaça e por que ela não é uma boa ideia. 2025. Disponível em: https://saude.abril.com.br/alimentacao/o-que-e-a-dieta-da-selva-de-henrique-fogaca-e-por-que-ela-nao-e-uma-boa-ideia/.

KOTARSKY, C. et al. Impact of MCT Oil and Caffeine on Substrate Metabolism during Submaximal Exercise. Journal of Exercise and Nutrition, Vol.7 No.1. 2024. Disponível em: https://www.journalofexerciseandnutrition.com/index.php/JEN/article/view/165#/.

SOLTANI, S. et al. The Effect of Low-Fat Diets Versus High-Fat Diet on Sex Hormones: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. J Food Sci . 2025 May;90(5):e70266. Disponível em: https://ift.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1750-3841.70266#/.

CHRZAN, J. e CARGILL, K. Anxious Eaters: Why We Fall for Fad Diets. Ed. Columbia University Press, 2022. Disponível em: https://www.amazon.com.br/Anxious-Eaters-Why-Fall-Diets/dp/0231192444/ref=tmm_hrd_swatch_0#/.

BELASCO, W. Food: The Key Concepts. Ed. ‎ Berg Publishers, 2008. Disponível em: https://www.amazon.com/Food-Key-Concepts-Warren-Belasco/dp/1845206738#/.

HARDING, R. Why Dr. Carnivore Changed His Mind About Meat-Only Diets. 2023. Disponível em: https://honehealth.com/edge/paul-saladino-quit-carnivore-diet/?srsltid=AfmBOoq4n9moocNB00hrZ5jR8ezExIAAJ6rID3Vyt6lRfja5ODZr3FzH#/.

EXAME. A China quer influenciadores com diploma. E se o resto do mundo fizer o mesmo? 2025. Disponível em: https://exame.com/marketing/a-china-quer-influenciadores-com-diploma-e-se-o-resto-do-mundo-fizer-o-mesmo/#/.

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