A confiança na ciência e o caso polilaminina

Artigo
2 mar 2026
Imagem
homem lendo jornal

 

Na segunda-feira, dia 23 de fevereiro último, a bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi a entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura, para falar sobre três décadas de trabalho dedicadas a uma molécula chamada polilaminina, versão sintética de uma proteína humana que, segundo resultados preliminares, pode ajudar a reconectar neurônios e devolver movimentos a pessoas com lesões graves na medula espinhal. A entrevista foi ao ar num momento em que Sampaio já era celebridade nacional. Cantores a homenagearam em shows, parlamentares propuseram leis com seu nome e pacientes em cadeiras de rodas a viam como esperança.

A entrevista gerou inquietação entre diversos especialistas, que se dedicaram a  explicar testes clínicos, ética e método científico. No entanto, algo ainda pouco explorado em episódios assim é a repercussão que têm sobre a confiança em cientistas e na ciência. Essa confiança (ou a falta dela) não tem o mesmo significado para todos. Tudo indica que para grande parte da comunidade científica, a entrevista trouxe uma série de sinais de alerta. Já para o público, parece ter sido uma prova de que Sampaio é a promotora de uma revolução na saúde e um orgulho nacional.

Durante a entrevista, a pesquisadora foi questionada sobre um ponto fundamental de qualquer ensaio clínico, a inclusão de um grupo controle em sua pesquisa. Esse grupo, formado por pacientes que não recebem o tratamento com polilaminina, serve como parâmetro de comparação para determinar se a melhora observada é de fato causada pelo medicamento ou por outros fatores, como a fisioterapia, a recuperação espontânea ou o simples passar do tempo.

No caso da lesão medular, estudos indicam que entre 10% e 30% dos pacientes podem melhorar naturalmente, sem qualquer intervenção específica. Sem um grupo de controle, é basicamente impossível saber se os 75% de melhora que Tatiana reportou foram causados pela polilaminina ou pela combinação de outros fatores. A pesquisa em áreas da saúde demanda rigor, cuidado metodológico e monitoramento contínuo de expectativas, pois a tentativa de estabelecer uma relação de causalidade (se o tratamento leva ao desfecho esperado de cura) é uma tarefa complexa. A pesquisadora, no entanto, sinalizou que pode conduzir as próximas fases do estudo sem esse grupo e afirmou que o resultado técnico de sua pesquisa "não é passível de questionamento". Disse ainda que fará "o que achar eticamente correto" e que não tem "nenhum problema em fazer coisas novidadeiras".

As reações foram imediatas e opostas. Boa parte da bolha da comunidade científica, até então em silêncio, passou a se manifestar com preocupação. Diversos perfis pedindo cautela, reforçando que a pesquisa ainda está em estágio muito inicial, que nem a fase 1 dos ensaios clínicos foi concluída, e alertando que a divulgação prematura pode gerar expectativas irreais e, pior, levar pacientes a buscar o tratamento compassivo pela Justiça antes que sua segurança seja comprovada.

Nos comentários ao vídeo da entrevista, no YouTube e nas redes sociais, o cenário era outro. Pessoas em situação de vulnerabilidade, familiares de pacientes com lesão medular e o público em geral exaltavam Sampaio como uma heroína. Comentários celebravam sua dedicação de 30 anos, sua bondade, seu desejo de ajudar quem sofre. Para esse público, questionar a pesquisadora soava quase como crueldade.

O mesmo evento, dois veredictos. Como isso é possível?

 

As muitas facetas da confiança

Em um estudo recente que publicamos na revista Science Communication, investigamos como as pessoas constroem a confiança em cientistas. A resposta que encontramos, com base em dados de quase 72 mil pessoas em 68 países, é de que a confiança se compõe de uma rede de percepções interligadas.

Para entender a ideia, pense assim: quando você decide confiar em alguém, não está considerando apenas um aspecto. Você pensa em competência (ela sabe do que está falando?), integridade (é honesta? sincera? ética? segue as regras?) e na boa vontade que demonstra (quer o meu bem? se importa com pessoas como eu?). As respostas a perguntas desse tipo se agruparam em três dimensões — competência, integridade e boa vontade —, formando um sistema interconectado.

O aspecto mais importante do nosso estudo foi identificar qual dessas percepções funciona como nó central dessa rede, ou seja, o ponto de maior influência, que conecta tudo o mais. A resposta foi sinceridade.

Dentro da dimensão de integridade, a percepção de que o cientista é sincero é o principal elo entre competência e boa vontade. Funciona como uma espécie de ponte. Se você acredita que o cientista é sincero, fica mais fácil acreditar também que é competente e tem boas intenções. Se a percepção de sinceridade é abalada, há um efeito em cascata que pode comprometer a confiança como um todo.

E o que o caso da polilaminina nos ensina sobre essa rede? Para a comunidade científica, o que entrou em colapso foi a dimensão da integridade, tanto no plano metodológico quanto na conduta da própria cientista.

Afirmar que seus resultados "não são passíveis de questionamento" é, do ponto de vista científico, uma declaração que contradiz o próprio espírito da ciência, que se baseia exatamente na possibilidade de questionar, replicar e contradizer resultados, na busca do melhor conhecimento possível. Cogitar um ensaio clínico sem controle e, como a própria pesquisadora admitiu, não conhecer nenhum precedente para isso levanta dúvidas sobre o compromisso com padrões que a comunidade científica considera inegociáveis.

Quando a integridade é questionada, o nó da sinceridade (o mais central de toda a rede de confiança) é diretamente afetado. E quando esse nó treme, a confiança como um todo pode desmoronar. Daí o ceticismo.

Para o público em geral, parece que o caminho foi diferente. O que dominou a percepção foi a dimensão da boa vontade, com o relato de uma cientista que dedicou 30 anos a pesquisar uma molécula que pode reverter lesões na medula espinhal, que recebe ligações incessantes de desesperados e que visivelmente se importa com o sofrimento alheio.

A percepção de benevolência é poderosa. No nosso estudo, ela aparece como uma dimensão que considera a comunicação, a preocupação com o bem-estar das pessoas e a vontade de melhorar a vida do próximo. Quando alguém parece querer o bem das pessoas, boa parte do público tende a interpretar suas ações de forma favorável, mesmo quando os procedimentos técnicos são questionáveis.

Em outras palavras, parte da academia parece ter perdido a confiança em Sampaio por razões relacionadas à integridade do projeto. O público em geral deve ter mantido a confiança nela por razões ligadas à benevolência e não questionou nem a integridade do projeto e muito menos a da pesquisadora, seja por desconhecer os detalhes do estudo ou por comprar o discurso que aparece na mídia, que não apresenta os detalhes da pesquisa. São exatamente esses "detalhes" que permitem avaliar racionalmente as alegações incríveis feitas sobre a polilaminina.

A rede que conecta os três pilares da confiança é a mesma, mas diferentes nós têm mais força dependendo da audiência: cientistas ou público.

 

Por que isso importa?

Nossa pesquisa também mostrou que a estrutura da confiança varia entre países e contextos culturais, o que reforça a ideia de que não existe uma receita única para comunicar ciência ao público. Mas há um ponto em comum: o nó da sinceridade é central em praticamente todos os contextos nacionais que analisamos.

Isso tem implicações práticas importantes. Quando um cientista diz, em rede nacional, que seus resultados são inquestionáveis, pode estar sendo honesto quanto às suas convicções, mas a mensagem que chega à comunidade científica é a de que ele não está disposto a jogar pelas regras da ciência. E é exatamente esse sinal que mais abala a confiança entre pares, pois coloca em xeque a sinceridade do compromisso com o método.

Para o público em geral, o mesmo gesto pode ser lido de forma completamente diferente: como segurança e determinação de quem conhece profundamente o campo de estudo. A comunicação de ciência opera, portanto, em múltiplos registros simultaneamente.

O caso da polilaminina também traz um alerta sobre os efeitos da exposição midiática prematura. Sampaio reconheceu, no Roda Viva, que a divulgação "extrapolou o ritmo habitual da ciência". Quando resultados preliminares ganham dimensão de espetáculo, sobretudo em temas tão caros como a esperança de cura de doenças incapacitantes, cria-se um ambiente em que qualquer questionamento parece um ataque à esperança das pessoas. Isso torna quase impossível o debate científico genuíno.

O paralelo com a fosfoetanolamina, a chamada "pílula do câncer" que ganhou as manchetes brasileiras há pouco mais de 10 anos, é inevitável. Naquele caso, pacientes abandonaram tratamentos com eficácia comprovada para aderir a uma substância que, depois, se mostrou ineficaz nos testes do Ministério da Ciência e Tecnologia.

É importante deixar claro o que nossa pesquisa não diz. Ela não permite concluir que Sampaio não merece confiança como pessoa ou cientista. O que nossa pesquisa mostra é que a confiança em cientistas é um fenômeno comunicativo, influenciado por percepções ativadas de forma diferente por audiências distintas e modulado pelo tipo de informação que as pessoas consomem, bem como pelo nível de pensamento científico de cada receptor. É um sistema dinâmico de crenças e atitudes cuja configuração depende de como a informação é apresentada, de quem a apresenta e de quem a recebe.

Para a comunidade científica, a integridade metodológica é o alicerce da confiança. Para o público, é possível que a percepção de que o cientista está do seu lado, quer o seu bem, seja mais determinante.

Comunicar ciência de forma eficaz requer entender a distinção e trabalhar com ela. Significa ser sincero sobre as incertezas e, principalmente, sobre a sustentação real que temos para nossas alegações. Significa tratar o público como parceiro, não como plateia. A confiança, uma vez abalada no nó central, pode ser muito difícil de recuperar.

 

Luiz Gustavo de Almeida é pesquisador do Instituto Questão de Ciência e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de Brasília (UnB).

Ronaldo Pilati é professor Titular de psicologia social no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de Brasília (UnB).

O estudo mencionado neste artigo, "Rethinking Trust in Scientists as a Network Model: A Global Analysis and Implications for Science Communication", foi publicado em 2025 na revista Science Communication (DOI: 10.1177/10755470251394188).

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br