A ameaça dos influencers de saúde mental nas redes

Artigo
26 jan 2026
Autor
terapia por celular

 

Muita gente não sabe, mas “psicoterapeuta” não é uma profissão regulamentada no Brasil. Qualquer pessoa, com ou sem formação em especialidades de saúde mental, pode se autointitular “psicoterapeuta”. Diante disso, pululam nas redes sociais ditos “profissionais” oferecendo serviços psicológicos sob os mais variados rótulos. São “coaches de vida”, “especialistas em emoções”, “consultores de relacionamentos”, “mentores de líderes”, “consteladores”, “integrativos”, “quânticos”, “holísticos” com dezenas de milhares até milhões de seguidores que trazem muitas promessas de alívio das dificuldades e vicissitudes do dia a dia, mas nenhuma ou pouca capacitação que, quando existe, muitas vezes carece de rigor técnico-científico e/ou é baseada em práticas pseudocientíficas sem qualquer evidência robusta de eficácia.

Um passeio pelo Instagram deixa clara a dimensão do problema. Uma influenciadora voltada para “empoderamento feminino”, por exemplo, acumula mais de 1 milhão de seguidores enquanto ilustra manchetes de revistas de negócios com seu bem-sucedido grupo educacional, pelo qual oferece uma pós-graduação em “saúde mental integrativa e psicanálise”. Tendo como público-alvo “psicólogo, psicanalista ou terapeuta integrativo”, pessoa que “atua com constelação familiar, terapias complementares ou saúde mental”, “médico, psiquiatra, nutricionista ou profissional da saúde”, quem “trabalha com desenvolvimento humano, educação ou assistência social” ou ainda quem “está em transição de carreira e busca uma escuta mais profunda”. O curso de pós-graduação lato-sensu “100% online” e com duração de 12 a 18 meses tem certificação “reconhecida pelo MEC”, tudo por um módico investimento de R$ 15.750.

Buscas pelo termo “psicoterapeuta” por três contas diferentes com IP do Rio de Janeiro, por exemplo, retornam todas entre seus principais resultados um profissional com mais de 130 mil seguidores (orgânicos ou robôs?) que anuncia especialização em “ajudar mulheres a superarem o término e a construírem relações mais saudáveis”.

Para isso, oferece um programa chamado “21 Dias Para Superar”, um conjunto de 21 áudios curtos de 4 a 8 minutos, mais 21 “Cadernos de Ativação”, além de aula exclusiva sobre “Rotina e Hábitos”, duas aulas de “Autoestima e Automaquiagem”, uma “Checklist de Dependência Emocional” e mais o e-book “Livre Enfim” que, garante, levará a “paciente” a “acordar e perceber que a ausência daquela pessoa já não dói mais”, “abrir os olhos e perceber que aquela angústia no peito sumiu”, “voltar a planejar a semana, sonhar com o futuro, acreditar que existe vida além desse fim”. Tudo por apenas 12x de R$ 6,93, ou R$ 67 – com desconto! - à vista.

O número de registro de terapeuta informado nos seus perfis tanto no Instagram quanto no LinkedIn é de uma “CRTP” (“Carteira de Registro de Terapeuta e Psicanalista”?), documento emitido pela Associação dos Terapeutas Holísticos (ATH), uma das várias entidades privadas que disputam o mercado de autorregulação da categoria. Para aceitar filiados, a ATH requer, além do pagamento de taxas, a apresentação de "certificados na área holística com mínimo de 150 horas". Ha critério de qualidade: não são aceitos certificados de "cursos online gratuitos". 

Entre as qualificações listadas no perfil do terapeuta, tal como publicado no site da ATH (que, emulando o site do Conselho Federal de Medicina, permite que o filiado apresente suas especializações) encontra-se uma verdadeira sopa de letrinhas de pseudociências, incluindo vidas passadas, reiki, limpeza energética, cristaloterapia, biomagnetismo, programação neurolinguística, entre várias outras. O perfil do profissional no LinkedIn mostra que, até março de 2022, sua principal ocupação era “analista de processos” como soldado de segunda classe da Força Aérea Brasileira (FAB). 

 

“Certificação” para qualquer um

Não se vai discutir neste texto a base pseudocientífica da psicanálise, tampouco o caráter por vezes perverso da sua aplicação, mas é alarmante a aparente mercantilização da formação na prática que alimenta os currículos de muitos destes influenciadores de saúde mental. No Instituto Saber Consciente, o curso de “Psicoterapia e Psicanálise Clínica” - aceito pela Academia Brasileira de Psicoterapia Holística (ABRAPH) e a já mencionada Associação dos Terapeutas Holísticos (ATH), com “certificado reconhecido pelo MEC”, como “Extensão Universitária de 600 horas” emitido pela “Faculdade UNIFATEC”, localizada em Curitiba, Paraná –, incluindo carteira com registro profissional da ATH e levando de “bônus” cursos de “Técnicas de Atendimento”, “Como divulgar o seu trabalho”, “Como começar na área” e “Atendimento Social”, sai de R$ 1.299 por apenas 12x de R$ 59,00 divididos no cartão, ou R$ 597 com o desconto à vista.

Bem mais em conta que o curso da influenciadora de empoderamento feminino e empresária, mas com pelo menos uma coisa em comum: a oferta de “certificação reconhecida pelo MEC”. É que em ambos os casos são uma pós-graduação de um tipo conhecido como lato sensu (latim para “em sentido amplo”), para os quais o Ministério da Educação (MEC) se limita a reconhecer que a instituição que oferece o curso existe, mas não faz qualquer fiscalização ou avaliação do conteúdo ou qualidade dos cursos em si, como acontece nas chamadas pós-graduações stricto sensu ("em sentido estrito" ou "sentido específico") - mais conhecidas como mestrados acadêmicos e doutorados -, reguladas e avaliadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes) do MEC.

 

Hipnotizando o intestino

Isto não acontece só com a psicanálise. Muitas práticas que envolvem ou mesmo apenas insinuam alguma aplicação em saúde mental também são objeto de “cursos de formação” com propalados “certificados reconhecidos pelo MEC”, ainda que não ofereçam nenhuma real capacitação para lidar com os difíceis e complexos problemas na área, quer pela fragilidade de seu conteúdo, ou por sua natureza pseudocientífica, sem qualquer mecanismo plausível ou evidência de eficácia.

É o caso, por exemplo, da hipnoterapia. Embora a técnica seja usada como ferramenta auxiliar terapêutica em alguns casos específicos, como em tratamentos de transtorno de estresse pós-traumático, cessação de tabagismo, manejo da dor no parto e até síndrome do intestino irritável, revisões sistemáticas ressaltam que os estudos que apoiam estas indicações são de baixa qualidade e em geral encontram apenas pequenos efeitos sobre desfechos secundários ou subjetivos, como “qualidade de vida”.

Apesar disso, uma influenciadora com quase 90 mil seguidores no Instagram alega ter desenvolvido um método próprio de hipnoterapia com o qual é capaz de curar intolerâncias alimentares e outros problemas gastrointestinais. Segundo ela, tudo pode ser resolvido com seu protocolo que “une hipnoterapia, neurociência e psicossomática”, bastando para isso comprar, por míseros R$ 49, seu “livro digital completo + áudio de hipnoterapia guiada”, que vão revelar “a raiz emocional que nenhum exame, dieta ou médico conseguiu explicar” para os pacientes.

Já se seus problemas forem gases, diarreia, prisão de ventre e ansiedade, a solução vem na forma de um “desafio prático” com “14 dias com áudios de reprogramação mente-intestino + hipnoterapia aplicada”, além de vídeos explicando método. Mas é bom se apressar, pois o acesso por 60 dias está saindo "na promoção" por apenas R$ 63, contra R$ 491 da soma do “valor separado” dos itens do dito tratamento.

Tudo isso, no entanto, parece ser “isca” para o que é aparentemente seu negócio principal, o atendimento direto dos pacientes. Como um deles relata no site de defesa do consumidor Reclame Aqui, a consulta de diagnóstico e plano de ação oferecida por ela por R$ 500 “se resume a investigar os sintomas e história de vida do paciente para que se gere (sic) hipóteses diagnósticas” enquanto também faz “o paciente se conectar com suas dores e sofrimentos de forma a amarrar uma venda no final onde se oferecem apenas duas opções de tratamento, cujos valores são R$ 5.000,00 e R$ 15.000,00”. Ou, como ele mesmo resumiu, a hipnoterapeuta “se aproveita da dor e sofrimento das pessoas para ganhar muito dinheiro”.

Em resposta à reclamação no site, a influenciadora afirmou que sua “sessão de diagnóstico tem, sim, um valor, pois envolve uma escuta terapêutica profunda, análise dos sintomas físicos e emocionais, e uma compreensão das raízes emocionais por trás do que está sendo vivido”. Ainda de acordo com ela, “não é uma venda disfarçada, mas um espaço de acolhimento, clareza e verdade, onde a pessoa entende o que o corpo está expressando e, a partir dessa compreensão, pode escolher, com liberdade e consciência, seguir o tratamento indicado”.

Em réplica, o paciente volta a argumentar que a sessão “na prática funciona como um funil de vendas”, que cria “um ambiente emocionalmente carregado, onde a pessoa se conecta com suas dores mais profundas e é imediatamente confrontada com ofertas de tratamento de alto custo, sem acesso a outras opções, sem tempo de reflexão e sem a clareza de que está diante de uma abordagem comercial”.

E como a única formação da influenciadora parece ser em hipnoterapia – ela não tem registro nem de psicóloga junto ao Conselho Federal de Psicologia, tampouco de nutricionista junto ao Conselho Federal de Nutrição – o paciente termina por argumentar que sua prática por configurar “exercício irregular da profissão de psicólogo” e alerta que “a promessa de resolução de quadros clínicos complexos como depressão, ansiedade, fobias ou intolerâncias alimentares, sem respaldo técnico-científico reconhecido e sem equipe multidisciplinar, pode ser configurada como prática de charlatanismo (art. 283 do Código Penal), além de violar princípios da bioética”. Depois disso, a hipnoterapeuta não mais se manifestou.

 

Criando pseudociência

O “método próprio” da hipnoterapeuta ilustra outra estratégia de sucesso entre os influenciadores de saúde mental: criar a própria pseudociência. Uma boa maneira de começar é com um nome chamativo, algo que pareça complexo e eficaz, mas, no fundo, não diga nada. Um exemplo é a Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), obra de um psicólogo egresso, em 2013, de uma obscura e extinta instituição de ensino superior pernambucana, a Faculdade Integrada do Recife (FIR), e que conta com mais de 380 mil seguidores apenas em seus dois perfis no Instagram, um em português e outro em espanhol.

De acordo com seu currículo, ainda durante a graduação ele também já se dedicava à formação em hipnoterapia. Logo depois de formado, ele também teria passado um ano aprendendo a ser “coach” e a aplicar uma polêmica técnica terapêutica apontada por muitos como pseudocientífica. Conhecida como brainspoting, ela guarda semelhanças com outra também polêmica técnica na área, a EMDR - sigla em inglês para eye movement desensitization and reprocessing, ou dessensibilização e reprocessamento por meio de movimentos oculares, em tradução livre –, mas é bem mais recente.

E foi sobre este arcabouço que, em 2020, surgiu a TRG e, em paralelo, o Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), fundado por ele com o objetivo de disseminar a prática. E como foi disseminada. De acordo com o site da instituição, de lá para cá foram mais de 65 mil alunos em seus cursos, que vão da inicial “Formação Terapeuta de Resultados” – pela qual eles não só serão capazes de “resolver os seus problemas emocionais” como “ajudar pessoas próximas e ser realizado profissionalmente com isso” – até “especializações” como a “Formação Avançada em Transtornos Graves” para lidar com pacientes com “Borderline, Transtorno bipolar, Síndrome das personalidade (sic) múltiplas, TOC, TPOC e Despersonalização” e o “TRG Kids”, que “ensina técnicas adaptadas ao universo infantil, auxiliando no reconhecimento e reprocessamento de emoções, comportamentos e experiências vividas na infância”.

Não há informações sobre custos ou duração destas formações, mas a primeira delas também ostenta o indefectível “reconhecida pelo MEC”. Além disso, ela abre caminho para integrar o Conselho Internacional de Terapia de Reprocessamento Generativo (CITRG). Esta “entidade reguladora que certifica e regula a prática de terapeutas especializados em TRG” oferece benefícios, como uma página pública do novo “terapeuta” cadastrada no seu site, um “diferencial será levado em consideração, na escolha, pelos clientes que estão cada vez mais exigentes” (sic), além de carteirinha física de “terapeuta” e desconto nas formações, que podem chegar a 30%.

Chama a atenção a promessa de “suporte jurídico consultivo para te dar mais segurança dentro da profissão”, o que leva a imaginar serem comuns os processos movidos por pacientes/clientes lesados ou mesmo prejudicados pelos atendimentos. Tudo por módicos R$ 659 ou 12 parcelas de R$ 70,60 na categoria “Black Member”, que garantem ao criador da prática e, obviamente, presidente do “conselho”, mais uma fonte de renda. E não é pouca, já que a página do IBFT também informa que são mais de 9 mil os “profissionais” registrados no CITRG, o que indica pagamentos da ordem de cerca de R$ 6 milhões anuais pelos registros. Que é bom estarem em dia, pois o artigo 13 do código de ética da entidade avisa que “o terapeuta deve estar adimplente com a anuidade, sob pena de: I – Ter seu nome negativado; II – Estar sujeito a cobrança via Cartório e Ação Judicial”.

 

Um psiquiatra qualquer

Mesmo profissionais aparentemente qualificados propagam discursos que podem colocar em risco usuários e pacientes, por meio de atitudes que claramente violam os códigos de ética de suas profissões. É o caso, por exemplo, de uma psiquiatra que defende que médicos não precisam fazer residência nem ter qualquer qualificação formal na área para atuar na psiquiatria, enquanto vende um curso para que façam isso e “vivam” de psiquiatria.

Formada em 2017 na Universidade de Cuiabá – um dos mais de 100 cursos de Medicina do país com avaliação considerada insatisfatória no recém-criado Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e que devem ser punidos com restrição no Fies e suspensão de vagas –, a “psiquiatra & mentora” fez uma postagem no seu perfil com 82,9 mil seguidores no Instagram sobre o assunto. Diante de uma enxurrada de críticas de colegas e outros profissionais e ameaças de denúncia a órgãos de fiscalização, no entanto, acabou apagando a publicação na rede social, mas mantém o discurso nas páginas em que vende seu curso.

Procurados, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) não responderam a repetidos questionamentos sobre a validade dos argumentos da profissional e dos conflitos éticos de sua atuação. Enquanto o CFM optou pelo silêncio, a ABP emitiu nota comentando um caso não relacionado, de médico detido em Goiás por usar credenciais falsas de psiquiatra.

O curso, claro, também garante “certificado reconhecido pelo MEC” – fornecido pela parceira Faculdade Focus, instituição dedicada à educação a distância sediada em Cascavel, Paraná. 

 

Riscos para pacientes e sociedade

Psicóloga clínica e pesquisadora a Universidade Rutgers (EUA), Ilana Pinsky destaca que este tipo de oferta de atendimentos em saúde mental nas redes sociais, por profissionais não qualificados, bem como formações sem qualquer rigor técnico ou científico na área, traz riscos para pacientes e a sociedade em geral. Para ela, o problema começa pela falta de conscientização do público quanto às diferenças entre se declarar terapeuta, psicoterapeuta, psicanalista, psicólogo e mesmo psiquiatra, e as exigências para isso.

“Grande parte da população, inclusive pessoas com acesso e educação, não sabe a diferença entre psicanalista, psicólogo e psiquiatra, por exemplo”, lamenta. “Então, não sabendo a diferença entre essas várias formações, elas partem do pressuposto de que têm cuidado de alguém que tem uma formação e sabe o que tá falando, e colocam a sua saúde mental nas mãos de gente que não tem a menor formação para isso. Muitas dessas pessoas que trabalham com questões emocionais, particularmente nas redes sociais, não têm formação em nenhuma área de psicologia ou saúde mental”.

Outro problema, aponta, é que, mesmo quando esta formação existe, ela é muitas vezes frágil, insuficiente ou inadequada para as questões que aborda.

“Quando você entra nesses perfis de Instagram, a última coisa que descobre é a formação”, diz. “São pessoas que fazem um curso de seis meses, um ano, alguma coisa assim, e se dizem prontas para atender questões profundas de saúde mental e mal-estar psicológico. E isso é obviamente super pernicioso”.

Pinsky cita como exemplo disso a influenciadora que desenvolveu um método próprio com que alega curar problemas gastrointestinais, mesmo sem qualquer formação em psicologia, nutrição ou práticas correlatas, apenas em hipnoterapia.

Pinsky também aponta como preocupantes casos como o do psicólogo que criou e vende cursos de sua técnica pseudocientífica, multiplicando os riscos para pacientes e sociedade.

“Ele é de um grupo que até é formado em psicologia, mas percebeu que vai ganhar mais dinheiro se vender seus programas para não psicólogos se tornarem, no caso dele, terapeutas emocionais”, comenta. “Acontece que uma pessoa, no público em geral, vai ouvir a expressão ‘terapeuta emocional’ e vai pensar: ‘essa pessoa é um psicólogo’. Mas não é. E ele fala literalmente várias vezes em seus vídeos que não precisa ser psicólogo, não precisa ter formação prévia na área de saúde mental, que basta fazer meu curso aqui de seis meses e você está apto a atender”.

E não são poucos nem pequenos estes riscos. Pinsky lembra que o estigma em torno de questões de saúde mental ainda faz com que muitas pessoas hesitem e demorem a buscar ajuda profissional, muitas vezes chegando aos consultórios em situações já de crise.

“No mínimo, no mínimo esta pessoa não vai melhorar e, não melhorando, também vai acabar ficando descrente de psicoterapia e não vai buscar ajuda na próxima crise”, considera. “Não digo que todas as vezes que uma pessoa vai fazer psicoterapia com um psicólogo formado sempre vai ter melhorias. É óbvio que existem variações, como em qualquer tratamento. Mas, evidentemente, quando quem atende a pessoa não sabe nem o que está tratando, não tem capacidade de fazer diagnósticos, não usa questionários validados, não tem um planejamento de tratamento, não tem um seguimento, não sabe quais são os sintomas específicos que está seguindo, a probabilidade de o paciente não melhorar ou recair em um dos vários problemas é muito maior”.

Cenário que é ainda mais provável diante de promessas de cura ou de resolução de problemas com procedimentos simples ou em poucas sessões, como propagandeiam muitos destes ditos profissionais.

“Essas expectativas irreais são algo muito comum e bem típicas na atuação deste tipo de picareta e é algo que faz muito mal, já que a pessoa pode até se culpar, achando que não ficou bem usando estas novas terapias porque não se dedicou o suficiente, não acreditou, não teve fé ou algo do tipo”, complementa.

Mais grave ainda, porém, é o risco de piora. Pinsky relata que mais de uma vez atendeu pacientes cujos quadros foram agravados pela atuação ou omissão de maus profissionais, tanto supostamente capacitados quanto sem real capacitação para tratar questões de saúde mental.

“Às vezes, as pessoas vão procurar ajuda por questões como a ansiedade básica, mas também, muitas vezes, quando já estão absolutamente desesperadas e buscam este tipo de ‘milagre’”, conta. “Mas muitas dessas técnicas são tão sem definição que são iatrogênicas. Elas levam as pessoas a acreditar em teses falsas em relação ao que elas estão sentindo, que aquela dor de barriga, aquele problema que elas têm, tem a ver com a briga que tiveram com o pai quando tinham seis anos de idade, por exemplo. E quando esses problemas não são solucionados, as pessoas vão ficando cada vez pior, sem saber que poderiam ter acesso a outro tipo de profissional que poderia entender o que está acontecendo e ajudar. No fim, elas têm uma crise, um surto. São situações reais, que acontecem e eu já vi no meu consultório. As pessoas podem morrer por conta de um tratamento mal feito e de suposições erradas em relação ao que ela está passando”.

Por fim, Pinsky também se preocupa com como estas práticas podem levar à normalização e disseminação de conceitos errôneos na área de saúde mental, servindo de base para grupos que mais se parecem com cultos.

“Trauma, por exemplo, fica sendo usado em situações que na verdade não configuram trauma, ou uma coisa de reprogramação, de ‘memórias recuperadas’, de ‘você não lembrava disso, mas agora lembra’”, alerta. “E aí você vai vendo por alguns vídeos que as pessoas estão acreditando que estão se formando, que realmente estão fazendo psicoterapia. É como se fosse um culto, grupos meio fechados que ficam falando numa linguagem própria sobre saúde mental, que têm verdades internas, com o chefe, essa pessoa que organiza tudo, quase como um guru terapeuta. E que gera situações de abuso financeiro, com pessoas em diferentes condições gastando muito, mas muito dinheiro com estes tipos de tratamentos e formações”.

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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