
Quando Erich von Däniken (na foto acima, autografando um livro em São Paulo para este autor) foi condenado, pela terceira vez, por dar desfalque na empresa em que trabalhava— hábito que adquirira há mais de uma década então, na jovem idade de 19 anos —, um psiquiatra indicado pelo tribunal determinou que ele era “um mentiroso e um psicopata criminoso”. À época, Von Däniken dava ainda os primeiros passos no que se tornaria uma carreira longa e bem-sucedida como autor de livros “polêmicos” sobre história e arqueologia, iniciada com Eram os Deuses Astronautas? (1968). Erich von Däniken, nascido em 1935, morreu no último sábado, 10 de janeiro.
Sua obra popularizou a ideia de que a evolução humana e o desenvolvimento de certas civilizações antigas foram guiados — ou, ao menos, influenciados — por seres do espaço.
A ideia não era original. Nem sequer era dele: Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Teosofia, já havia escrito, em 1888, sobre gurus venusianos auxiliando a evolução humana. Nas primeiras décadas do século 20, o autor pulp H. P. Lovecraft, parodiando doutrinas teosóficas, incorporou o tropo à sua mistura característica de horror e ficção científica, de modo mais notável no conto O Chamado de Cthulhu (1928) e na novela Nas Montanhas da Loucura (1936). O conceito seria reincorporado à (suposta) literatura de não ficção em O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, lançado na França em 1960.
Mas foi por meio de Von Däniken que o vírus mental dos “alienígenas do passado” ou dos “deuses astronautas” se apoderou do imaginário coletivo, inspirando fenômenos de cultura pop como os quadrinhos Eternos, de Jack Kirby, a série de TV Battlestar Galactica e os filmes Alien vs. Predador.
O timing de Von Däniken foi extremamente fortuito: Eram os Deuses Astronautas? apareceu no auge da contracultura e do movimento New Age. Nos Estados Unidos, chamou a atenção do célebre produtor e roteirista de TV Rod Serling, mais conhecido como o criador da série de ficção científica e fantasia Além da Imaginação. Em 1973, Serling apresentou as ideias de Von Däniken ao grande público de língua inglesa no telefilme In Search of Ancient Astronauts. Em seguida, Eram os Deuses Astronautas? foi adaptado para o cinema, com lançamento em 1974, e as vendas do livro dispararam.
Foi também em 1974 que Von Däniken concedeu uma longa entrevista à revista Playboy. O perfil biográfico que antecede a entrevista talvez ainda seja o melhor relato sucinto do início da carreira e das peripécias de Von Däniken, incluindo suas condenações criminais.
A entrevista também traz um resumo, nas palavras do próprio, de suas teorias: “Digo em meus livros não apenas que fomos visitados por seres do espaço sideral na Antiguidade, mas que esses visitantes tiveram relações sexuais com nossos ancestrais… se admitirmos que os visitantes tiveram relações conosco e alteraram, por mutação artificial, nossa inteligência, então isso significa que somos produto deles”. Ao longo da entrevista, o repórter também arranca de Von Däniken uma série de confissões: de que seus livros contêm mentiras, invencionices e piadas apresentadas como fatos; de que foi descuidado com as fontes; e de que, na verdade, não checou — nem sequer compreendeu — boa parte delas.
Os problemas e impossibilidades presentes, mesmo em uma formulação tão resumida, nas ideias de Von Däniken poderiam preencher livros inteiros — e, de fato, preencheram, sendo um exemplo inicial The Space Gods Revealed, de Ronald Story (1976). Considere, por exemplo, a probabilidade de que um alienígena — uma criatura evoluída em uma biosfera totalmente diferente da nossa — viesse a se sentir sexualmente atraído por um ser humano e a se reproduzir com ele: ela é muito, mas muito menor do que a de um humano ter filhos com uma samambaia. Além dos absurdos biológicos e de outros detalhes, dois pontos mais gerais podem ser levantados: a hipótese dos “deuses alienígenas” é epistemologicamente desnecessária e não é sustentada por evidências.
Ela é desnecessária porque não há “mistérios” na história — ou na pré-história — humana que exijam “alienígenas” como explicação. Arqueólogos, de fato, conseguem, apesar do que você talvez tenha ouvido na TV a cabo, oferecer explicações bastante razoáveis de como as pirâmides do Egito foram construídas; mapas antigos não mostram o mundo visto do espaço (a esse respeito, o jornalista da Playboy dá uma bela canseira em Von Däniken, mostrando como sua interpretação “alienígena” do mapa de Piri Reis, do século 16, não se sustenta).
Quanto às evidências, Von Däniken e seus pares apresentam obras antigas de arte, arquitetura, mitos etc. que parecem mostrar ou descrever tecnologias e eventos espaciais. O ponto crucial é que esse material sugere interpretações espaciais ou de ficção científica às nossas mentes modernas — mentes habituadas a decodificar círculos desenhados ao redor de cabeças como capacetes espaciais, em vez de, por exemplo, halos de luz; ou a olhar para uma pintura de uma criatura como Pégaso, o cavalo alado da mitologia grega, e pensar em manipulação genética em vez de mito, magia ou intervenção divina.
Na realidade, todas as hipóteses que apelam para alienígenas do passado partem do mesmo erro básico: tentar encaixar o passado histórico em um esquema de referências ancorado na imaginação e no repertório cultural do presente. O fato de uma imagem evocar uma nave espacial ou um astronauta para o observador moderno não implica que ela tivesse o mesmo significado para pessoas de séculos atrás. Von Däniken argumentava que nossos antepassados eram ingênuos que olhavam para astronautas e viam deuses. Mas a verdadeira ingenuidade, cultural e antropológica, está em olhar para deuses e ver astronautas.
Nesse aspecto, é curioso ver como a imaginação de Von Däniken era limitada. Ele insiste em decodificar arte pré-histórica e antiga em termos compatíveis com a tecnologia espacial de sua época, das primeiras viagens à Lua: trajes volumosos, capacetes esféricos, naves em forma de foguete que deixam rastros de fogo e fumaça. Como se criaturas capazes de atravessar anos-luz usassem equipamentos iguais aos da Nasa de 1968.
Em meio ao aparentemente interminável entulho de cultura pop descartável que seus livros inspiraram, o principal legado de Von Däniken é de preconceito romantizado: os protagonistas alienígenas de sua saga eram colonizadores, estupradores e eugenistas. E é notável como, em suas obras, são sempre os povos de pele escura que precisam de ajuda extraterrestre para construir seus monumentos (não se vê deuses alienígenas associados à Catedral de Nidaros na Noruega ou à de Chartres na França).
E seu estilo retórico persiste. Frases que começam com “se admitirmos que…” podem levar a qualquer lugar (por exemplo, “se admitirmos que a Lua é feita de queijo, então ratos são os verdadeiros astronautas”), e o hábito de empilhar perguntas provocativas sem se comprometer com respostas claras (de Eram os Deuses Astronautas?: “É realmente coincidência que a altura da pirâmide de Quéops multiplicada por um bilhão corresponda aproximadamente à distância entre a Terra e o Sol?”) faz alguém parecer muito mais inteligente do que realmente é. Os livros de Von Däniken mostraram o grau de eficácia que essas técnicas podem ter quando se trata de converter discípulos e fechar vendas. Pseudocientistas do mundo inteiro tomaram nota.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
