Um ponto de vista sobre o jornalismo sem ponto de vista

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5 dez 2025
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jornalista estereotípico numa máquina de escrever

 

A gritaria indignada que veio no rescaldo do fiasco da edição tendenciosa do discurso de Donald Trump aos seus apoiadores em 6 de janeiro de 2021, feita pela BBC, tem sido ensurdecedora em sua unanimidade: é isso que acontece quando o jornalismo abandona seu compromisso com padrões de objetividade, tenta ir além de reportar “apenas os fatos” e busca implementar novos princípios que são, na verdade, apenas partidarismo tendencioso disfarçado.

Sejamos claros: a edição da BBC foi enganosa porque deixou a impressão de que Trump incitava, de forma direta e deliberada, a violência da turba que tomou o Capitólio (se ele o fez nas entrelinhas é outra questão). Tratou-se, pura e simplesmente, de mau jornalismo. Não havia “novos princípios” em jogo, exceto como espantalhos ou caricatura.

Mas qual é o espantalho? O de que esse mau jornalismo é uma consequência necessária e inevitável de tentar ir além do esquema “apenas os fatos”, da reprodução acrítica e anódina de esquemas “ele-disse-ela-disse”. O que simplesmente não é verdade.

O que raramente gera gritaria indignada — pelo menos, por parte das vozes com acesso mais fácil à grande mídia — são as consequências indiscutivelmente muito piores de aderir cegamente a tais esquemas: por exemplo, The New York Times referindo-se à decisão do CDC de mentir ao povo americano sobre a ligação (inexistente) entre vacinas e autismo como um mero "reflexo do ceticismo quanto a vacinas" (os terraplanistas agora apenas manifestam "ceticismo em relação à forma da Terra"?).

No mundo barulhento e polarizado de hoje, é muito fácil enquadrar o que deveria ser um debate sério como um duelo entre a loucura e o bom senso. A questão da “objetividade” (as aspas estão aí por um motivo) no jornalismo é uma delas: a mídia tradicional e seus porta-vozes intelectuais/acadêmicos tendem a apresentá-la como uma disputa dicotômica entre manter o modelo tradicional ou retornar aos velhos tempos de propaganda política posando como notícia, escrita melodramática e jornalismo marrom em geral.

Sim, há jornalistas que, dando ouvidos ao conselho de Karl Marx aos filósofos – parem de gastar tanta energia tentando entender o mundo, é hora de mudá-lo – decidiram que seu objetivo não deveria ser descrever o mundo, mas mudar a opinião pública. E sim, há uma minoria barulhenta que afirma que, porque “não há fatos, apenas narrativas”, há uma obrigação/autorização moral de amplificar as narrativas que soam do bem, em vez de trabalhar para descobrir quais são verdadeiras (porque não existiria essa tal de “verdade”).

Mas ambas as posições são castelos de cartas intelectuais, facilmente desmontados em um seminário de filosofia de cinco minutos (ou em uma redação escolar de 30 linhas).

A primeira reduz o jornalismo a propaganda. A segunda não faz sentido: ou a afirmação “não há fatos, apenas narrativas” é tida como um fato, ou apenas como uma narrativa; se for tratada como fato, refuta-se a si mesma, pois admite a existência, no mundo, de pelo menos um fato livre de narrativas, e nada impede que os mesmos métodos que nos permitiram descobrir essa joia rara sejam utilizados para encontrar outros fatos puros. Se for apenas uma narrativa, somos livres para ignorá-la e escolher outra.

Cosplayers de la revolución e oportunistas do relativismo epistêmico não representam os reais desafios ao modelo padrão de “objetividade jornalística”, aquele que normaliza os mentirosos negacionistas, tratando-os como “céticos”. O verdadeiro problema é que parte dos procedimentos, normas e protocolos em vigor para manter o jornalismo (supostamente) “objetivo” não o fazem. Não criam nem facilitam um olhar verdadeiramente objetivo e informativo sobre o mundo, mas, em vez disso, promovem o que pode ser chamado de mera objetividade performativa ou, em uma analogia com o onipresente fenômeno digital de “sinalização de virtude”, “sinalização de objetividade”: uma estratégia hipócrita para manter aparências enquanto esvazia as notícias de substância.

Definir “objetividade” com precisão é difícil, mas encontrar uma definição viável, mesmo que falha, nem tanto. Se as pessoas a tratam como uma espécie de “coisa-em-si” kantiana, uma descrição tão pura que transcende inteiramente todos os preconceitos e pontos de vista, então, é claro, é impossível – uma conclusão tem sido usada, ingenuamente ou nem tanto, para apoiar todo tipo de vale-tudo apresentado como jornalismo.

Objetividade, no sentido intuitivo em que as pessoas que pensam sobre jornalismo empregam o termo, pode ser melhor compreendida se decomposta em seus elementos constituintes: pode-se falar de veracidade (sem mentiras deliberadas, realizar esforço honesto para apresentar corretamente os fatos), verificabilidade (toda matéria jornalística deve ser capaz de sobreviver a uma checagem de fatos), humildade epistêmica (jornalistas nunca devem supor que têm uma compreensão perfeita dos acontecimentos; devem verificar, perguntar, verificar, duvidar, verificar novamente), neutralidade (não tomar partido, nem inserir ou mostrar preferências pessoais) e ausência de juízos de valor (não julgar eventos ou pessoas).

Críticos sérios da objetividade performativa não têm problemas com nenhum dos três primeiros componentes, mas suspeitam que os dois últimos – neutralidade e ausência de juízos de valor – podem sair pela culatra e acabar trabalhando contra a razão de ser mais fundamental do jornalismo: que não é, surpreendentemente, gratificar a vaidade dos poderosos, nem espalhar fofocas de celebridades, mas manter o público a par do que precisa saber para tomar decisões racionais e informadas.

Mais especificamente, há uma preocupação crescente de que, no esforço para parecerem neutros e livres de juízos de valor para agradar a certos públicos, os modos tradicionais de fazer jornalismo estão praticando contorcionismos que prejudicam os princípios fundamentais de veracidade e verificabilidade, e fazendo a humildade epistêmica degenerar em tergiversação ou covardia.

Voltando à peça sobre as mentiras do CDC a respeito da relação entre vacinas e autismo, publicada no NYT. Referir-se, como o jornal nova-iorquino faz, às falsidades científicas verificáveis e inegáveis que agora ilustram o site do CDC, por exemplo, “a afirmação 'vacinas não causam autismo' não é baseada em evidências” e “estudos que apoiam uma ligação foram ignorados pelas autoridades de saúde” como manifestações de “ceticismo” não é ser neutro, humilde ou abster-se de juízos — é tomar partido daqueles que querem que essas mentiras flagrantes e todos tipos de absurdos sejam vistos como razoáveis.

Um vocabulário totalmente novo foi criado para abordar esse fenômeno, com palavras como sanewashing (“lavagem de sanidade”, redigir as notícias de maneiras que façam a loucura soar razoável) e normalização (apagar as linhas cognitivas e discursivas que demarcam os limites do aceitável).

Pode ser confortável para os porta-vozes da mídia corporativa e do jornalismo tradicional tratar quaisquer críticas à sua sinalização de objetividade como críticas aos princípios fundamentais da objetividade intuitiva e, portanto, descartá-las como equivocadas ou como tentativas de contrabandear exageros ideológicos para as páginas dos jornais. Ao fazer isso, no entanto, esses porta-vozes cegam a si mesmos para a corrosão, contínua e já avançada, dos valores que esses mesmos princípios deveriam proteger e preservar.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com 

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