Ativismo antivacina captura agências de saúde nos EUA

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5 dez 2025
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frascos de vacina em efeito dominó

Imagine um país fictício, considerado por muitos o paraíso na Terra, repleto de guloseimas, como um cheesecake de quase 1.600 kcal, líder econômico e braço direito da maior organização de saúde do mundo e, durante muitos anos, tido como um dos grandes faróis globais na prevenção e proteção à saúde de seus cidadãos contra doenças infecciosas e transmissíveis. Foi um dos protagonistas na erradicação da varíola, estabelecendo uma unidade de vigilância para a doença em 1962.

Mas, passadas algumas décadas, nosso país fictício tem uma guinada política e acaba fazendo escolhas espúrias para o controle das agências regulatórias e de questões científicas, substituindo quadros técnicos por ideólogos e suprimindo pesquisadores — e resultados — que não concordem com a narrativa desejada.

A sandice atinge um nível tão elevado que, nos últimos meses, esse país decidiu “fabricar” a causa do autismo e sua possível cura, além de atuar contra a vacinação em geral e, especialmente, a infantil.

Isso poderia facilmente ser o roteiro de uma distopia — muito rasa e mal escrita —, mas, para olhos mais atentos, é fácil identificar que estamos, mais uma vez, falando dos Estados Unidos e de sua mais nova patacoada: uma alteração promovida pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA — uma das maiores agências do mundo em prevenção e proteção à saúde — sobre o entendimento das vacinas, afirmando que “a alegação ‘vacinas não causam autismo’ não é baseada em evidências, porque os estudos não descartaram a possibilidade de que vacinas infantis causem autismo”.

Para justificar a mudança, o CDC argumenta que estudos abrangentes ainda seriam necessários para investigar possíveis mecanismos biológicos e ligações causais entre vacinas e Transtorno do Espectro Autista (TEA), apontando supostas lacunas de evidência e sugerindo riscos de compostos vacinais, como o alumínio. A mensagem segue a cartilha antivacina — que já refutamos inúmeras vezes aqui na RQC — que correlaciona o aumento da prevalência do autismo com o número de vacinas administradas no primeiro ano de vida.

O responsável por essa guinada é o secretário de Saúde, RFK Jr. Segundo reportagem do  The New York Times, intitulada “Kennedy Says He Told C.D.C. to Change Website’s Language on Autism and Vaccines”, ele afirmou ter instruído pessoalmente o CDC a abandonar sua posição histórica de que vacinas não causam autismo, alegando a ausência de estudos grandes e de alta qualidade sobre algumas vacinas aplicadas no primeiro ano de vida, como hepatite B e tríplice viral.

Críticos denunciam o uso de sua posição para desencorajar a vacinação, explorando medos de pais enquanto ignoram evidências de que vacinas salvaram milhões de vidas. Mandy Cohen, que liderou o CDC durante a administração Biden, também declarou que a mudança no site prejudica a credibilidade da agência e cria o risco de colocar crianças em perigo ao reduzir as taxas de vacinação.

E, aproveitando o gancho, já temos dados mostrando que as infecções — pelo menos no caso do sarampo — estão crescendo vertiginosamente nos Estados Unidos.

 

Sarampo, mais uma vez

Em março deste ano, ao explicar por que a vitamina A não previne sarampo — uma ideia obtusa propagandeada por RFK Jr. —, deparei-me com um dado alarmante: até o dia 6 daquele mês, havia 222 casos em 12 estados, 79% deles em pessoas com até 19 anos. Dezessete por cento precisaram de hospitalização, sobretudo crianças e adolescentes. Duas mortes foram registradas: uma criança de 6 anos no Texas e um adulto no Novo México. O dado mais preocupante: 94% dos infectados eram não vacinados ou tinham status vacinal desconhecido.

Oito meses depois, o panorama é desastroso. Até 18 de novembro, o CDC confirmou 1.753 casos (23 em visitantes internacionais) em 43 estados. A maioria é de pessoas de 5 a 19 anos (690) e menores de 5 anos (466), com 7% e 21% hospitalizados e três óbitos. Novamente, 92% dos infectados não estavam vacinados ou tinham situação vacinal desconhecida.  Em comparação, em 2024 ocorreram apenas 285 casos, com 89% dos infectados sem vacinação ou com status vacinal desconhecido.

E, antes que alguém alegue que escolhi um ano atipicamente baixo para criar uma disparidade artificial, vale um alerta: desde 1992, o número de casos de sarampo não ultrapassava 1.300 — ou seja, estamos diante do maior surto de sarampo nos Estados Unidos dos últimos 33 anos.

A matéria da BBC “Measles cases in the US reach 33-year high” destaca que os surtos concentram-se em bairros com baixa adesão à vacinação, como comunidades menonitas — uma denominação cristã protestante — no Texas, que optam por não utilizar a medicina moderna. O crescimento do sentimento antivacina, dentro e fora do país, agrava esse cenário e, caso a taxa atual persista por mais de 12 meses, os EUA podem perder o status de eliminação do sarampo.

É claro que algum ativista antivacina poderia argumentar que Canadá e Reino Unido, embora não tenham um RFK Jr., também enfrentam surtos de sarampo. Vale destacar que ambos compartilham um fator comum: a disseminação de desinformação que reduz a adesão às vacinas, somada à subestimação da gravidade da doença.

Em comentário publicado em Public Health Reports, “The Continued Risk of Measles Outbreaks in the United States Resulting From Suboptimal Vaccination Coverage”, os epidemiologistas Bednarczyk e Sundaram destacam que, embora a cobertura anual supere 91%, ela ainda está abaixo do limiar de proteção comunitária (92%–94%). Modelos indicam que, entre 2008 e 2017, cerca de 9 milhões de menores de 18 anos eram suscetíveis ao sarampo. As quedas na adesão durante a pandemia de COVID-19 e a recuperação incompleta mantêm a suscetibilidade elevada, podendo chegar a 21,4% com uma redução adicional de 10% na cobertura. Disparidades estaduais e cortes na vigilância aumentam ainda mais o risco.

Aprofundando essa análise, a revisão narrativa The 2025 United States Measles Crisis: When Vaccine Hesitancy Meets Reality  tenta contextualizar o surto de 2025 nos EUA.

Segundo os autores, a crise atual começou em janeiro, em uma comunidade coesa e com baixa cobertura vacinal no oeste do Texas, espalhando-se para ao menos três estados e atingindo populações historicamente resistentes à vacinação. A hesitação é alimentada por desinformação sobre segurança, alegações falsas de que a tríplice viral causa autismo, medo de efeitos adversos, crença na superioridade da imunidade natural e desconfiança contra empresas farmacêuticas e agências governamentais.

O ambiente de redes sociais e echo chambers — em que uma pessoa encontra apenas opiniões e crenças que coincidem com as suas próprias —  intensifica essa dinâmica. Além disso, a pandemia de COVID-19 agravou o quadro ao reduzir a vacinação pediátrica de rotina e polarizar o debate público.

A hesitação vacinal não é homogênea. Regiões de maior nível socioeconômico, como partes da Califórnia e do Colorado, registraram cobertura abaixo de 90% devido a movimentos ligados ao “estilo de vida natural”. Comunidades minoritárias enfrentam ainda barreiras estruturais e campanhas direcionadas de desinformação, como ocorreu entre famílias somali-americanas em Minnesota, em que a queda de adesão após alegações falsas sobre autismo resultou em um surto em 2017.

Algumas estratégias de remediação mostraram-se eficazes, como a detecção rápida, a articulação entre agências e a mobilização de líderes comunitários. Ainda assim, persistem lacunas: educação vacinal insuficiente, departamentos de saúde subfinanciados e estoques limitados de vacinas.

Essa dinâmica abre espaço para um cenário mais amplo e preocupante: o risco real de reemergência de doenças antes eliminadas.

 

A volta de doenças infecciosas?

Publicada no JAMA Network sob o título Modeling Reemergence of Vaccine-Eliminated Infectious Diseases Under Declining Vaccination in the US, a pesquisa avaliou como a queda nas taxas de vacinação infantil pode afetar o risco de surtos e de reemergência de doenças infecciosas previamente eliminadas nos EUA. Para isso, os autores desenvolveram um modelo que simulou a importação e a transmissão de sarampo, rubéola, poliomielite e difteria. Cada patógeno foi modelado de forma independente, com parâmetros próprios, e cada estado foi simulado separadamente, sem transmissão interestadual.

O modelo incorporou contatos sociais por idade, taxas de natalidade, eficácia vacinal, risco diário de importação de infecções e complicações específicas de cada doença. As simulações testaram cenários de queda e aumento na cobertura vacinal infantil, variando de 5% a 100%.

Em cenários mais graves, uma queda de 25% na vacinação infantil resultaria, em 25 anos, em 26,9 milhões de casos de sarampo, além de aumentos marcantes em rubéola, poliomielite e difteria, com 5,4 milhões de hospitalizações e 80.600 mortes.

Caso vivêssemos um cenário em que a vacinação infantil caísse 50%, o modelo previu que, em 25 anos, haveria 51,2 milhões de casos de sarampo, 9,9 milhões de casos de rubéola, 4,3 milhões de casos de poliomielite e 197 casos de difteria, totalizando 10,3 milhões de hospitalizações e 159.200 mortes.

As limitações incluem simplificações inerentes ao modelo, incertezas nos dados de vigilância, heterogeneidades estaduais não capturadas e a ausência de variáveis como vacinação reativa, isolamento e mudanças comportamentais durante surtos.

 

Vacinas salvam vidas

Para esta seção, mais uma vez nos debruçamos sobre um modelo. Contudo, neste caso, trata-se do modelo apresentado no artigo Contribution of vaccination to improved survival and health: modelling 50 years of the Expanded Programme on Immunization, cujo objetivo foi quantificar o impacto do Programa Ampliado de Imunização (PVI) da OMS, estimando mortes evitadas, anos de vida ganhos e anos de plena saúde (AVAC) associados à vacinação contra 14 patógenos em 194 Estados-Membros, entre 1974 e 2024.

Entre 1974 e 2024, o PVI evitou 154 milhões de mortes — 146 milhões em crianças menores de 5 anos, incluindo 101 milhões de lactentes —, com média de 58 anos de vida e 66 anos de plena saúde ganhos por vida salva.

No total, a vacinação contra o sarampo foi responsável por 93,7 milhões de vidas salvas ao longo desses 50 anos, sendo a principal vacina em todas as regiões e estratos de renda. A vacinação contribuiu para cerca de 40% da redução global da mortalidade infantil desde 1974, variando de 21% no Pacífico Ocidental a 52% na África.

Estimou-se que, em 2024, crianças de 10 anos tenham aproximadamente 44% mais probabilidade de sobreviver até seu próximo aniversário do que se nenhuma vacinação tivesse ocorrido desde 1974. Indivíduos de 25 anos têm 35% mais probabilidade, e aqueles de 50 anos, 15% mais probabilidade.

O estudo ressalta que os números são conservadores, pois não incluem vacinas contra COVID-19, influenza, HPV, surtos emergenciais, nem efeitos heterólogos — efeitos consequenciais e/ou secundários de algumas vacinas — ou benefícios econômicos e sociais adicionais.

Os autores enfatizam que os ganhos obtidos pelo PVI resultam de esforços sustentados, orientados por dados, e que a manutenção da cobertura vacinal, especialmente contra o sarampo, é crucial. Eles alertam: “O engajamento contínuo das comunidades na adesão às vacinas é crucial, já que ganhos arduamente conquistados podem ser facilmente perdidos. Os próximos 50 anos têm grande promessa, mas precisam de determinação coletiva e sustentada para serem concretizados”.

Todavia, nos Estados Unidos, sob a gestão de RFK Jr., esse compromisso coletivo está desaparecendo. Em vez de fortalecer a vacinação, demonstrar sua eficácia e combater a desinformação, o CDC e outras agências sob sua direção têm minado a credibilidade das vacinas.

Eu gostaria de oferecer aqui uma solução concreta, sem recorrer às respostas já desgastadas, como “reformular a educação para ensinar pensamento crítico” ou “criminalizar discursos antivacina nas redes”. São medidas importantes, claro, mas não sei até que ponto são viáveis no curto prazo, sobretudo em um ambiente político tão polarizado.

No momento, o mínimo que podemos fazer é, ao nos depararmos com discursos falsos sobre vacinas, desmenti-los e denunciá-los. Não podemos permitir que a narrativa antivacina, tão presente nos Estados Unidos, se enraíze aqui. Como alertaram os autores do estudo da Lancet, os próximos 50 anos têm enorme potencial — mas apenas se defendermos o que já conquistamos.

 

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

CDC. Autism and Vaccines. 2025. Disponível em: https://www.cdc.gov/vaccine-safety/about/autism.html.

STOLBERG, S. Kennedy Says He Told C.D.C. to Change Website's Language on Autism and Vaccines. 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/11/21/us/politics/rfk-jr-cdc-vaccines-autism-website.html.

CDC. Measles Cases and Outbreaks. 2025. Disponível em: https://www.cdc.gov/measles/data-research/index.html.

YOUSIF, N. Measles cases in the US reach 33-year high. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c98jng7j1llo,

BEDNARCZYK, R. e SUNDARAM, M. The Continued Risk of Measles Outbreaks in the United States Resulting From Suboptimal Vaccination Coverage. Public Health Rep. 2025 Jan. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11699549/.

ADEOYE, A. et al. The 2025 United States Measles Crisis: When Vaccine Hesitancy Meets Reality. Cureus. 2025 Jul 17;17(7):e88196. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40827145/.

KIANG, M. et al. Modeling Reemergence of Vaccine-Eliminated Infectious Diseases Under Declining Vaccination in the US. Disponível em: JAMA. April 24, 2025;333;(24):2176-2187. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2833361.

SHATTOCK, A. et al. Contribution of vaccination to improved survival and health: modelling 50 years of the Expanded Programme on Immunization. The Lancet, Volume 403, Issue 10441, 2307 - 2316. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)00850-X/fulltext.

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