Quando o pensamento mágico se revela

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20 nov 2025
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Ilustração de William Wallace Denslow para a primeira edição de "O Mágico de Oz"

Algum tempo atrás, a revista online Air Mail publicou artigo descrevendo uma explosão na venda online de feitiços: maldições, rituais para trazer de volta a pessoa amada, sortilégio para fazer Sol (no dia do seu casamento) ou chuva (no casamento dos desafetos). As bruxas vêm faturando alto no Etsy, uma plataforma de comércio eletrônico associada principalmente a badulaques artesanais e peças “vintage”.

Além de descrever a expansão do mercado de feitiços, a peça na Air Mail também apresenta depoimentos luminosos de clientes satisfeitos: pessoas que investiram algo entre US$ 3,74 a US$ 7,99 (R$ 20 a R$ 43, aproximadamente) em um feitiço, e sentem que o dinheiro foi bem gasto.

Psicólogos, filósofos e cientistas sociais investigam a complicada relação entre seres humanos, magia e superstição há séculos. Pensamento mágico costuma ser definido como a crença de que coisas que não têm nenhuma conexão física ou lógica entre si podem afetar umas às outras, mesmo quando não há uma maneira racionalmente viável para tanto. Esse modo de pensar tende a cair em alguns padrões bem conhecidos:

A Lei da Atração: Pensar afeta diretamente a realidade, sem exigir ação física. Pensar em algo faz essa coisa acontecer. O pensamento puxa os fios do próprio tecido da realidade. Pensar é fazer.

A Lei do Contágio: Coisas que uma vez estiveram em contato, ou que fizeram parte de um mesmo todo, permanecem “conectadas” de alguma forma, compartilhando propriedades essenciais, e podem afetar umas às outras, mesmo à distância.

A Lei da Simpatia/Homeopatia: Coisas que são "semelhantes" umas às outras – em termos de forma, nome, cor ou por causa de associações simbólicas ou semânticas – compartilham propriedades essenciais, mantêm "conexão" e podem afetar umas às outras, mesmo à distância; além disso, agir sobre um símbolo equivale a agir sobre a coisa simbolizada.

A Postura Intencional: Tudo, até mesmo acidentes e fenômenos naturais, sorte ou infortúnio, sempre acontece por uma razão, porque alguém (ou algo) pretendeu que fosse assim. Além disso, intenções significados são propriedades intrínsecas do Universo, não criações arbitrárias da mente humana; até mesmo objetos inanimados têm interesses e desejos (ou contêm espíritos dotados de interesses e desejos). Uma vez identificados, tais interesses e desejos podem ser explorados de várias maneiras (por meio de negociação, suborno, persuasão, etc.).

Quando expostos assim, essas “leis” ou “princípios” podem parecer bobos e primitivos. Mas a verdade é que os princípios do pensamento mágico estão profundamente integrados ao que, hoje em dia, passa por senso-comum, manifestando-se, por exemplo, na aversão raivosa do mundo corporativo à “negatividade”, à fé desbragada desse mesmo mundo nos poderes da motivação (Lei da Atração) e também em muita psicologia pop, psicoterapia e até mesmo em muito discurso “intelectual” que, uma vez despido de suas camadas de jargão e da retórica, se reduz à Lei da Simpatia e/ou à Postura Intencional.

Contágio e Simpatia são princípios que governam grande parte da saúde alternativa/integrativa. Eles também ajudam a explicar muitas obsessões modernas, da aversão a vacinas ao dogma de que os produtos químicos sintéticos são intrinsecamente maus.

Comportamentos alinhados às Leis da Superstição podem ser bastante satisfatórios. Não produzem nada de útil no mundo real, mas geram uma sensação subjetiva de realização: a sensação de que se está agindo. Pelo mesmo motivo, podem criar um senso de controle sobre coisas que, realmente, estão fora de nossas mãos. Quando reconhecemos a difusão e a penetração do pensamento mágico na vida cotidiana, o “boom” da bruxaria no Etsy torna-se muito menos intrigante.

Muito pouca gente, é claro, abraça as Leis da Superstição de forma deliberada e consciente. Esses princípios apenas passam a fazer parte da caixa mental de ferramentas que assimilamos ao longo da vida. Assim como a gramática básica da língua do país em que nascemos, são inicialmente captados por uma intuição social inconsciente. E, como as regras gramaticais, não é preciso saber enunciá-las para segui-las.

Inferimos as Leis a partir de práticas religiosas como a oração. Ficamos impressionados com coincidências que parecem significativas; caímos na falácia post hoc, que interpreta sequência temporal como causalidade (“depois disso, portanto, por causa disso”).

Vemos as Leis operando nas histórias populares que ouvimos e contamos: de pessoas apaixonadas que “sentem” umas às outras de longe às bonecas vodu dos filmes de terror antigos, passando por Obi-Wan Kenobi detectando “distúrbios na Força”. A suposta eficácia desses princípios acaba reforçada por vieses cognitivos como o de confirmação, ou pela falácia do custo irrecuperável (“Eu paguei por isso, é claro que funcionou!”).

A parte da sociedade que se vê como educada e civilizada pode rir da bruxaria, quando aparece fantasiada de Gandalf ou Madame Min, mas troque-se o abracadabra pelo jargão de um Freud, de um Jung, pelo discurso de um “coach” de prosperidade, com “quantum” isso ou “neuro” aquilo, diluições infinitas ou fluxos de energia qi, e veja o que acontece. Até mesmo o misticismo secularizado que tem se acumulado em torno da IA remete à Postura Intencional.

No fim, quase todo mundo, vez ou outra, consulta ou contrata algum tipo de profissional da “mágica”. Mas, a US$ 7,99 por feitiço, quem faz isso explicitamente está certamente obtendo o melhor custo-benefício.

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com 

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