
Uma virtude de um bom gestor é definir com clareza as ações sob sua responsabilidade – mesmo que não se concorde com suas escolhas, ao menos é possível compreender a direção adotada e não ser surpreendido por reviravoltas inesperadas. A comunicação universitária, porém, é uma área à parte: embora o discurso seja sempre no sentido de que se deve servir, antes de mais nada, ao interesse público, o que se vê normalmente é uma gangorra em que a meta de bem informar a sociedade é relativizada em deferência a interesses corporativos, ambições políticas e vaidades pessoais.
Qualquer pessoa que já tenha trabalhado na estrutura de comunicação de uma universidade pública (os autores deste artigo o fizeram na Unesp e na Unicamp) conhece a infeliz tarefa de explicar a um professor que o público externo provavelmente pouco se interessa pelo descerramento de uma placa para inaugurar uma máquina de café ou pelo discurso protocolar de abertura de mais um dentre os milhares de eventos promovidos pelas faculdades.
Há três razões legítimas que podem levar a universidade pública a montar e manter estruturas de comunicação para dirigir-se à sociedade de que faz parte, e que a sustenta com seus impostos: democratizar o acesso ao conhecimento e aos debates qualificados que produz; preservar ou promover sua boa imagem e reputação; defender seus interesses institucionais e as condições sociais que lhe permitem continuar a existir.
O primeiro desses objetivos configura o que se costuma chamar de “extensão universitária”, e integra o consagrado tripé – ensino, pesquisa e extensão – que constitui a própria razão de ser da universidade pública. É, portanto, o mais fundamental e estratégico dos três: é o único que está atrelado à essência do que configura uma universidade. Os outros dois são táticos e inespecíficos: reputação e autopreservação são preocupações universais, que afetam do boteco da esquina à Presidência da República.
Não há nada que torne os três objetivos, a priori, mutuamente excludentes – pelo contrário, a extensão honesta e competente só vai alimentar a boa reputação e reforçar a importância da continuidade institucional. Infelizmente, não é incomum ver as prioridades invertidas: conteúdo cuja função principal é inflar reputação ou promover interesses embalado como supostas peças de extensão.
Mais grave ainda, dada a tradição patrimonialista brasileira – em que bens públicos são apropriados por agentes privados, e o interesse individual toma o lugar do institucional –, não é nada incomum assistir à captura da comunicação por vaidades particulares ou forças corporativas. Nesse caso, a promoção da boa imagem e da reputação de figuras individuais, ou de classes ou categorias de indivíduos, toma o lugar do compromisso maior com a instituição – ou, pior, confunde-se, cinicamente, com ele.
A estrutura de comunicação que se deixa capturar por demandas de promoção pessoal, publicando indiscriminadamente tudo o que recebe, em vez de adotar critérios objetivos de rigor acadêmico e interesse público, desperdiça uma oportunidade hoje rara: os veículos de comunicação universitários não dependem de assinantes nem de anunciantes para existir. Poderiam, portanto, praticar uma comunicação científica e institucional guiada pelos parâmetros do bom jornalismo – aquele que se distingue do jornalismo da grande mídia e que, hoje, cada vez mais, se vê pressionado a priorizar o entretenimento sobre a informação.
Espaço, tempo e atenção do público são recursos limitados. Sob essa perspectiva, atender a todo e qualquer pedido de divulgação equivale, em termos de impacto real, a não atender a nenhum: uma infinidade de mensagens tediosas ou irrelevantes se reduz a um oceano de ruído que afoga as poucas comunicações de fato meritórias. Mas, numa cultura de compadrio, atender a demandas cujo único mérito é alimentar vaidades pode ser o preço a pagar para manter a estrutura funcionando.
Um jornal ou revista universitário participa da extensão tanto quanto um laboratório e um curso de graduação participam das duas outras pernas do tripé, pesquisa e ensino. Mas fechar um jornal ou revista é muito mais fácil do que encerrar um laboratório ou uma disciplina: o respeito dos agentes universitários pela liberdade acadêmica não se estende à independência jornalística.
Essa assimetria faz com que instâncias de instrumentalização da comunicação universitária sejam quase inevitáveis. Essa iminência permanente, somada à permissividade ética que toma conta do mercado de comunicação como um todo, leva à percepção de que critérios objetivos de qualidade jornalística são opcionais ou irrelevantes, o que gera repercussões sistêmicas. Mesmo quando se trata da divulgação do conhecimento produzido na universidade – que é, de fato, o que importa –, a definição de pautas arrisca-se a passar ao largo de critérios objetivos e impessoais como rigor científico e interesse público. Avidez por cliques e compartilhamentos leva ao sensacionalismo, com consequências danosas para a própria universidade e para o jornalismo.
Mas o verdadeiro reconhecimento institucional decorre naturalmente de um jornalismo sério, que se limita a fazer bem aquilo que os próprios cursos de jornalismo ensinam: apurar, contextualizar e comunicar com precisão. A grande visibilidade de uma universidade nasce dos grandes feitos de seus pesquisadores, não de artifícios retóricos ou estratégias de autopromoção.
Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto).
