A política de saúde pseudocientífica dos EUA

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6 out 2025
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button de campanha MAHA

No dia 23 de setembro, o presidente Donald Trump e seu comitê de saúde do mundo paralelo anunciaram que a (suposta) epidemia de autismo nos Estados Unidos teria como causa o uso de acetaminofeno (a substância ativa do Tylenol, conhecido no Brasil como paracetamol). A “cura”, segundo eles, estaria na administração de leucovorina, um análogo do folato usado no tratamento da anemia megaloblástica — ligada à deficiência de vitamina B12 ou folato — e também para proteger células saudáveis dos efeitos do metotrexato, empregado em quimioterapia. Até hoje, não há ensaios clínicos robustos que comprovem a eficácia ou a segurança desse fármaco para pessoas com autismo.

É compreensível que muitos tenham ficado chocados — não apenas pela audácia de um presidente, mas, ainda mais grave, pelo aval de órgãos regulatórios e científicos que optaram por abraçar o negacionismo. O risco imediato é o impacto dessas inverdades na vida de milhões de gestantes e seus filhos.

Para quem conhece o histórico de alguns dos diretores dessas agências, no entanto, a cena não foi exatamente surpresa. Embora Robert F. Kennedy Jr. seja o nome mais associado a posições anticientíficas, basta analisar a biografia de outros dirigentes para encontrar padrões semelhantes.

O chefe do Instituto Nacional de Saúde (NIH), Jay Bhattacharya, defendeu a imunidade de rebanho durante a pandemia, minimizou a letalidade da COVID-19 e se posicionou contra as medidas de lockdown. Na FDA, Marty Makary publicou artigos sugerindo que não havia evidências suficientes para vacinar crianças saudáveis contra o coronavírus e ainda defendeu a imunidade de rebanho.

Mehmet Oz, atual chefe dos serviços federais de saúde pública existentes nos Estados Unidos, Medicare e Medicaid, ficou famoso por seu programa de TV, no qual promovia suplementos de eficácia duvidosa. A prática foi tão criticada que surgiu a expressão “efeito Dr. Oz”, usada para descrever o desperdício de tempo, dinheiro e energia dos consumidores que seguiam seus conselhos. Ele também se tornou adepto de práticas como o reiki.

O quadro se completa com a médica Casey Means, nomeada como a próxima cirurgiã-geral dos Estados Unidos. Cofundadora da empresa Levels, que comercializa monitores de glicose, Means é conhecida por abraçar a medicina funcional e holística. Em suas redes, cultiva a imagem de médica “antissistema”: favorável a suplementos sem evidências científicas, à defesa irrestrita de alimentos orgânicos e a protocolos de saúde espúrios.

Além de suas trajetórias individuais, todos compartilham afinidade com o movimento Make America Healthy Again (MAHA), cujas ideias dialogam com as medidas implementadas em seus respectivos órgãos.

Para quem não conhece, MAHA foi o slogan de campanha de RFK Jr. à Presidência em 2024. Kennedy construiu uma carreira política apresentando-se como defensor de pautas ambientais e sanitárias: proteção de áreas selvagens, combate à poluição da água, do ar e dos alimentos, incentivo à indústria limpa, retirada de pesticidas da cadeia alimentar e o fim da corrupção nas agências de saúde. Também prometia “restaurar a verdadeira ciência”, livre de interesses corporativos, e enfrentar a epidemia de doenças crônicas nos EUA. É um discurso que mistura supostas boas intenções com doses cavalares de pseudociência (sua ideia de “restaurar a verdadeira ciência” inclui demonstrar que vacinas são desnecessárias ou perigosas).

Esse discurso atraiu apoiadores de diferentes partes do espectro político, transformando-o em um problema para as campanhas rivais. Como sabemos, Kennedy acabou se unindo a Trump — e, em troca, assumiu o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS).

A parceria foi selada na ordem executiva 14212, de 12 de fevereiro de 2025, que institucionalizou a pauta MAHA e a estabeleceu como comissão oficial do governo, sob comando do HHS. Sua missão: combater doenças crônicas infantis. Em 100 dias, deveria apresentar o relatório Make Our Children Healthy Again Assessment, comparando dados internacionais e avaliando riscos ligados a medicamentos, alimentos e exposições químicas. Em 180 dias, viria a Make Our Children Healthy Again Strategy, com propostas de reorganização do sistema federal e outras medidas.

Agora, com os dois documentos enfim publicados, podemos discutir seus erros, suas ideias mal-acabadas e — incrivelmente — alguns acertos.

 

O relatório

Como vocês devem ter imaginado, nesta seção haverá muita desinformação científica, pseudociências e outros problemas. Apesar de ter lido o documento na íntegra, adianto que focarei quase exclusivamente no meu campo, a nutrição.

Já na abertura, algo que me passou despercebido, mas foi bem apontado pelo médico David Gorski em seu artigo The MAHA Report: The Good, The Bad, and The Ugly (mostly the bad and ugly), é a composição peculiar do grupo escalado para auxiliar na formulação do texto. Peculiar porque, tratando-se de um documento que deveria investigar as causas do declínio da saúde infantil, seria natural esperar especialistas em saúde pública, epidemiologia ou nutrição.

Em vez disso, a equipe incluía dois médicos negacionistas da COVID-19 (Jay Bhattacharya e Marty Makary), a ex-CEO da WWE — sim, a companhia de luta livre — e empresária Linda McMahon, o vice-diretor de políticas e assessor de segurança nacional Stephen Miller, além do ex-atleta jogador de futebol americano e atual secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Scott Turner. Nomes sem histórico técnico ou acadêmico que os qualificasse para a tarefa.

Além disso, o próprio tom do relatório deixa claro como as evidências científicas seriam manipuladas para corroborar a narrativa MAHA e “respaldar” as ações futuras.

Alguns problemas reais — como a má alimentação e o sedentarismo — são reconhecidos, mas apenas na medida em que reforçam a visão do movimento. Para sustentar suas propostas, os autores recorrem a uma seleção tendenciosa de estudos, apresentada como consenso científico, e revestem o discurso com o apelo emocional de “proteger a saúde das crianças”.

O trabalho aponta que mais de 40% das cerca de 73 milhões de crianças (0-17 anos) nos Estados Unidos têm pelo menos uma condição crônica, como asma, alergia, obesidade, doença autoimune ou transtorno comportamental.

Em dado momento, o relatório passa a apresentar aquilo que chama de provas cabais de que a alimentação infantil seria, de forma inequívoca, a responsável por esse cenário. Já nas primeiras linhas surge uma contradição digna de nota — em tradução livre:

"O sistema alimentar americano é seguro, mas poderia ser mais saudável. A maior parte das dietas infantis é dominada por alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares adicionados, aditivos químicos e gorduras saturadas, e pobres em frutas e vegetais. Essa dieta moderna já foi associada a uma série de doenças crônicas, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer".

Como algo considerado seguro pode, ao mesmo tempo, ser apontado como um dos responsáveis por todos os problemas de saúde graves que o relatório tenta corrigir? Eu não sei; você não sabe; e, muito provavelmente, os autores também não.

Na visão do relatório, a alimentação — marcada pelo domínio dos ultraprocessados — é um dos principais fatores por trás da epidemia de doenças crônicas não transmissíveis.

Em relação aos demais capítulos, o relatório acerta pontualmente, ao reconhecer que microplásticos podem impactar a saúde infantil, mas logo se perde em alegações infundadas. Entre elas estão a ideia de que o flúor reduziria o QI de crianças; que o glifosato causaria desde distúrbios reprodutivos até câncer — apesar das evidências indicarem segurança quando usado com precaução; e que a radiação de celulares ou wi-fi prejudicaria espermatozoides, DNA ou aumentaria o risco de câncer em roedores.

O relatório mergulha na narrativa antivacina de Kennedy Jr. ao alegar que plataformas digitais foram coagidas por agências federais a censurar e/ou suprimir conteúdos que questionavam os perfis de risco de vacinas pediátricas ou as políticas de fechamento de escolas durante a pandemia — insinuando que o problema não foi o vírus, mas as medidas de contenção.

O capítulo sobre hipermedicalização aprofunda esse viés, descrevendo vacinas como potenciais promotoras de doenças. Embora reconheça sua eficácia, o texto sugere riscos infundados, como o suposto excesso de doses, um calendário mais extenso que o de outros países (sem comparações diretas), a alegada falta de ensaios com placebos “reais”, conflitos de interesse e ausência de investigação adequada sobre vínculos com doenças crônicas.

Essas alegações, além de falaciosas, ignoram pontos centrais: calendários vacinais variam conforme prevalência de doenças e estrutura dos sistemas de saúde; não é eticamente aceitável negar vacinas comprovadas a pessoas em risco apenas para estabelecer grupos controle; e, ao contrário do que afirmam, ensaios clínicos de vacinas frequentemente incluem grandes amostras e longos períodos de acompanhamento.

No conjunto, o relatório constitui uma obra tão terrível que poderia facilmente ser um livro sobre pseudociências.

Para piorar, algumas das referências citadas para embasar o que o relatório afirma nem existiam.

Como descrito na matéria Trump officials downplay fake citations in high-profile report on children’s health, após a publicação do relatório, o jornal NOTUS descobriu que, dentre as mais de 500 referências publicadas no documento, algumas traziam links quebrados, outras eram usadas para corroborar uma narrativa, mesmo que as conclusões do estudo não fossem compatíveis, e outras sete pareciam não existir.

Horas depois, uma versão atualizada do relatório foi publicada no site da Casa Branca, com as citações fictícias substituídas por referências agora reais. A porta-voz do HHS afirmou que alguns pequenos erros de citação e formatação foram corrigidos, mas que o conteúdo do relatório permanecia o mesmo.

Vários pesquisadores cujos supostos trabalhos foram citados no relatório MAHA confirmaram ao NOTUS que os artigos citados não existiam. Outros, cujos estudos foram citados, disseram que o relatório havia deturpado suas conclusões.

Investigações separadas de The New York Times e de The Washington Post sugeriram que os responsáveis por montar o texto final do relatório, cujos nomes Kennedy se recusou a divulgar, podem ter usado IA, visto que os problemas com citações assemelham-se às alucinações que a tecnologia às vezes gera.

Além disso, o Washington Post informou que algumas das referências no relatório incluíam marcadores “oaicite” anexados a seus URLs, um forte indício de que a IA foi usada para criá-las.

Agora que sabemos a base teórica, é hora de avançar para a segunda parte deste documento: as estratégias para devolver saúde e bem-estar às crianças.

 

As estratégias

A comissão MAHA publicou um documento com estratégias para enfrentar a crise de doenças crônicas. Entre elas, destacam-se o avanço da pesquisa, o realinhamento de incentivos, o aumento da conscientização pública e o estímulo a colaborações com o setor privado.

Em seguida, o relatório propõe iniciativas de órgãos reguladores e departamentos estatais para estudar as causas, a detecção precoce e o tratamento de doenças crônicas. A Agência de Proteção Ambiental (EPA), o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e o NIH darão foco à exposição cumulativa a substâncias químicas, lesões relacionadas a vacinas, causas do autismo, “contaminantes” da água (incluindo flúor), poluição do ar, radiação eletromagnética, uso da IA para diagnósticos e elaboração de planos personalizados, além de pesquisas nutricionais.

Também são previstas reformas políticas, desregulamentações e melhorias estruturais. Por exemplo, a FDA  limitará ou proibirá corantes alimentares à base de petróleo — já tendo banido a eritrosina, por motivos regulatórios específicos — e atualizará os requisitos para fórmulas infantis, incluindo testes mais rigorosos de metais pesados.

As agências aumentarão a fiscalização contra publicidade enganosa em mídias digitais e estabelecerão diretrizes para reduzir o marketing de alimentos não saudáveis dirigido a crianças. Bancos de dados públicos sobre relações financeiras e pagamentos da indústria a pesquisadores visam aumentar a transparência.

Na vacinação, serão atualizados os calendários infantis, abordadas lesões vacinais, corrigidos conflitos de interesse e garantida a liberdade científica.

O USDA priorizará alimentos integrais em seus programas de nutrição, reorientará o programa de benefícios alimentares para famílias carentes para escolhas mais saudáveis e incentivará programas extracurriculares de atividade física.

A desregulamentação focará em reduzir encargos para pequenas fazendas, agilizar licenças de supermercados em áreas carentes, eliminar exigências federais sobre gordura em alimentos e acelerar a aprovação de medicamentos e dispositivos, com a FDA trabalhando para eliminar encargos regulatórios, abolir exigências de testes em animais, reduzir custos de ensaios clínicos por meio de melhor aproveitamento de dados de saúde e agilizar o uso de certos medicamentos ainda em investigação.

Uma nova agência será criada especificamente para coordenar e liderar a resposta do governo federal à crise de doenças crônicas: a AHA.

Há, no conjunto, ações positivas, como parcerias com o setor privado para usar drones na aplicação de pesticidas, reduzindo contaminação e os riscos à saúde dos trabalhadores rurais.

Outras são mais brandas, como a nota de rodapé sobre orientações do cirurgião-geral a respeito de cigarros eletrônicos e álcool infantil, mostrando que o governo age com rigor em temas menores, como corantes, mas adota complacência preocupante diante de questões críticas como álcool e tabaco.

Detalhe: antes que me acusem de defensor da Big Food, não tenho problema algum com o banimento de corantes artificiais e a utilização de naturais. Na verdade, a atuação foi até fraca ao não atacar a composição nutricional de produtos americanos, que geralmente têm mais calorias, gorduras e açúcares do que equivalentes de outros países. Um estudo mostrou que cardápios infantis de redes nos EUA têm, em média, 43,7 kcal e 181,1 mg de sódio a mais do que no Reino Unido. O problema está em criar bodes expiatórios com base científica mínima, enquanto questões reais, como álcool e cigarros eletrônicos, recebem pouca atenção.

Existem, ainda, ações extremamente preocupantes, como a utilização indevida do discurso de “busca pelo padrão-ouro da medicina” para justificar mudanças deletérias no esquema de vacinação.

Além dessa, outra questão que me causa arrepios é o fato de o relatório afirmar, aos quatro ventos, que está comprometido com evidências de maior qualidade e com metodologias rigorosas, mas, no mundo real, demitir centenas de funcionários do CDC, NIH e de outros órgãos — o que enfraquece a atuação dessas instituições — e censurar estudos que contrariem suas narrativas.

 

Boas intenções

Publicado no final de agosto em The Lancet, editorial intitulado “RFK Jr and MAHA: dangerous, emboldened, and escalating” sintetiza perfeitamente por que devemos ficar atentos ao movimento e, especialmente, ao seu discurso sedutor de boas intenções.

Nesse editorial, os autores lembram que, durante a primeira semana de agosto, um atirador — conhecido como Patrick Joseph White — desconfiado das vacinas contra a COVID-19, disparou mais de cem vezes contra o CDC e matou um policial. Paralelamente, RFK Jr. cancelou US$ 500 milhões de dólares em financiamento para pesquisas com vacinas de mRNA e solicitou a retratação de um estudo sobre segurança de vacinas publicado no Annals of Internal Medicine.

Como justificativa para a interrupção do financiamento, afirmou que as vacinas não eram efetivas, mas promoviam mutações do vírus durante a pandemia e que os riscos superavam os benefícios, afirmações comprovadamente falsas.

No final das contas, Kennedy Jr. e alguns líderes do MAHA optam por cultivar a desconfiança por meio da desinformação, redirecionando preocupações legítimas de modo a alinhá-las a uma agenda anticiência e antivacinas, enquanto são apoiados por uma rede de empreendedores e influenciadores da indústria do bem-estar, que por vezes lucram diretamente com essas distrações.

Embora a comunidade científica e de saúde deva se engajar e compreender o que torna esse movimento tão sedutor, ninguém deve ter ilusões sobre sua verdadeira natureza: trata-se de “um perigoso programa pseudocientífico que sustenta uma indústria de bem-estar corrupta e anticientífica, busca desacreditar a medicina convencional e retrata instituições e especialistas como inimigos, e não como parceiros”.

Essa conclusão, na verdade, só reflete algo que já sabemos sobre o movimento: seus posicionamentos erráticos e anticientíficos parecem mais coerentes com a sigla MASA — Make America Stupid Again. O humor do novo nome não diminui a gravidade de suas estultices, mas ao menos alinha o rótulo à realidade.

 

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

The MAHA Report. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/05/WH-The-MAHA-Report-Assessment.pdf.

The MAHA Strategy Report. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/09/The-MAHA-Strategy-WH.pdf.

GORSKI, D. The MAHA Report: The Good, The Bad, and The Ugly (mostly the bad and ugly). 2025. Disponível em: https://sciencebasedmedicine.org/the-maha-report-the-good-the-bad-and-the-ugly-mostly-the-bad-and-ugly/.

JACOBS, P. Trump officials downplay fake citations in high-profile report on children’s health. Science. 2025. Disponível em: https://www.science.org/content/article/trump-officials-downplay-fake-citations-high-profile-report-children-s-health.

HUANG, Y. et al. Differences in energy and nutrient content of menu items served by large chain restaurants in the USA and the UK in 2018. Public Health Nutr. 2022 Jun 1;25(10):2671–2679. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9991847/.

LANCET. RFK Jr and MAHA: dangerous, emboldened, and escalating. Lancet. 2025 Aug 23;406(10505):779. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40849124/.

 

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