
Avistada por aí nas redes sociais: uma tabela com três colunas, a primeira rotulada como “Planetas”, contendo, como seria de esperar, “Mercúrio”, “Vênus”, “Terra”, “Marte”, etc. Na segunda, o rótulo é uma pergunta: “Algum humano já morreu lá?”. Na terceira, outra questão: “Existem pássaros?”. O único planeta que dá um “sim” a ambas as interrogações é, é claro, a boa e velha Terra. Conclusão: aves são a causa da mortalidade humana.
É uma piada, por óbvio, mas que tem lá sua profundidade. Imagine a manchete: “Mortalidade humana fortemente associada à presença de pássaros na biosfera”. Poderia estar na seção de saúde e bem-estar do The New York Times, ou no caderno “Equilíbrio” da Folha.
Claro, a verdade é que a mortalidade humana está inextricavelmente ligada à existência de humanos, e os humanos, para existirem em grande número e sem equipamento especial, requerem o tipo de biosfera que temos aqui na Terra. Uma biosfera que inclui, entre muitas outras coisas, pássaros. A mesma manchete poderia ter sido elaborada com lagartos, flores, besouros, peixes ou árvores.
Teoricamente, todos sabem, ou são capazes de intuir, que as coisas que andam juntas não necessariamente têm ligação de causa e efeito.
Elas podem ser efeitos de uma mesma causa subjacente; podem ser simplesmente fenômenos independentes que se movem na mesma direção ao longo do tempo (como o crescimento de uma criança recém-nascida e o da muda de árvore no quintal do vizinho). Podem até não ter nenhum elo, sendo a associação uma coincidência. Em alguns círculos, “Correlação não implica causalidade” é um clichê tão batido quanto “clichê batido”. Você o repete, e as pessoas ao redor apenas acenam com a cabeça, entediadas.
Além disso, existem regras bem conhecidas sobre como elevar, de um modo intelectualmente responsável (não dizer minimamente honesto), uma dupla de eventos da categoria “coincidência” para a de “implicação causal”.
Em termos ideais, você precisa de uma maneira de isolar ou, no mínimo, fornecer um relato adequado a respeito de todos os fatores extras que podem ser relevantes para o problema: o que mais, além do crescimento da mudinha do jardim do vizinho, poderia estar fazendo o bebê se desenvolver? Se essa avaliação for impossível ou impraticável, você precisará, pelo menos, apresentar fortes indicadores de plausibilidade e de uma base teórica (qual a lógica de ligar o desenvolvimento de um vegetal ao de um ser humano?).
Pode-se esperar, por exemplo, uma sequência de tempo (a suposta causa sempre precede o suposto efeito), consistência (a mesma associação é observada em diferentes cenários e condições) e viabilidade empírica (há uma base lógica ou mecanicista apoiando e explicando a alegação causal).
Mas, apesar de tudo isso, você pode achar conversas do tipo “Acho que vi A e B juntos, então obviamente B é o mérito/culpa de A” como se fossem argumentos de boa-fé em todos os lugares, de editoriais da grande imprensa a teses de doutorado. E existe, claro, a epidemiologia especulativa.
“Epidemiologia especulativa” é outro nome para o fenômeno que escolhi para título deste artigo: a causa em busca de um problema. Ao contrário da clássica falácia de correlação causal, ela não transforma uma coincidência intrigante, já evidente no mundo real, em base para uma inferência inválida.
Em vez disso, começa com algo de que alguém não gosta – podem ser pessoas de uma determinada raça, religião ou gênero, ou um produto químico, ou uma tecnologia, ou uma forma de arte – e depois vai a campo tentando pescar algo, qualquer coisa, que possa ser interpretada como uma coincidência sugestiva. Você começa com a causa, e depois passa um arrastão na realidade para pegar qualquer coisa que possa ser apresentada como efeito. O único critério: o efeito tem que ser ruim.
Nas ciências sociais, exemplos seriam a conexão espúria entre raça e QI e os vários pânicos morais da delinquência juvenil (que já foi “causada” por histórias em quadrinhos, videogames, música heavy metal...). Mas o terreno mais fértil para a epidemiologia especulativa é, é claro, a saúde humana. Mais especificamente, alegações assustadoras (e, portanto, supostamente dignas de notícia) sobre coisas que vão arruinar a saúde humana.
Algumas décadas atrás, tivemos celulares e câncer no cérebro. Por um tempo, contraceptivos e depressão. Então, o herbicida glifosato, transgênicos e tudo que existe de errado no mundo. Em seguida, “disruptores endócrinos” são algo muito ruim, mas ainda amorfo e indefinido, a mesma categoria em que se encontram os micro e nanoplásticos.
Com a ascensão de Robert F. Kennedy Jr. ao equivalente a ministro da Saúde nos Estados Unidos, a associação entre aditivos alimentares e câncer está agora em voga novamente. O flúor na água, as vacinas (e agora o paracetamol) também foram alvo de esforços semelhantes.
A lista de coisas que são ruins para você, mesmo que ninguém saiba exatamente explicar por que ou como (ou, inversamente, por qualquer motivo e de qualquer maneira imaginável), cresce a cada dia, publicada em revistas científicas de boa ou má reputação, e é amplificada pela imprensa de saúde e bem-estar – tanto que os charlatões da indústria “detox”, os maiores beneficiários de toda essa atividade, têm de correr para não ficar para trás.
Uma combinação da falácia naturalista ("natural é sempre bom, artificial é sempre mau") e uma antipatia difusa, mas bem enraizada, em relação a agentes poderosos (grandes corporações ou o Estado, dependendo de suas inclinações ideológicas) tende a orientar a escolha dos candidatos para a lista.
Claro, dado o histórico sombrio das grandes corporações em lidar eticamente com os riscos à saúde e ao meio ambiente que seu apetite por lucros cria (os casos de gasolina com chumbo e do tabaco sendo os mais notórios, assim como o dos refrigerantes açucarados), a má vontade do público e da comunidade científica não é imerecida. Mas pode ser, e muitas vezes é, mal aplicada.
O problema com a caça de problemas – a atividade frenética de tentar encaixar uma causa em algum efeito terrível, qualquer efeito terrível – é que, mais cedo ou mais tarde, terá sucesso, por puro acaso. Se você se lançar numa busca incansável por coincidências que pareçam terríveis e significativas, você as encontrará. No entanto, haverá uma grande chance de que o significado seja ilusório.
Imagine um campeonato mundial de cara e coroa, com pouco mais de 1 milhão de participantes. Na primeira rodada, todos jogam uma moeda. Aqueles que obtêm cara ficam, aqueles com coroa são eliminados. Os vencedores então jogam suas moedas novamente: caras ficam, coroas saem. E assim a próxima rodada. E na próxima.
O campeão — o último jogador restante — terá acumulado uma sequência de cerca de 20 caras consecutivas. Em quase qualquer outro contexto imaginável, 20 caras seguidas seriam uma prova incontestável de que a moeda é viciada. Mas esta moeda é honesta: a configuração do torneio fez com que uma incrível coincidência se tornasse inevitável.
Mesmo que a produção de epidemiologia especulativa em escala industrial fosse bem-intencionada (e não, digamos, motivada pela pressão predatória do sistema de "publicar ou perecer", ou por simples antipatia ideológica), o fato é que seus efeitos mais salientes são reduzir a confiança do público na ciência e criar um mercado vibrante para charlatões venderem "proteção" e “desintoxicação” contra ameaças inexistentes.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
