
Em 1961, os psicólogos R. C. Jacobs e D. T. Campbell realizaram um experimento que revelou algo interessante sobre a natureza humana. Colocaram voluntários em uma sala escura com uma luz piscante e perguntaram o quanto ela se movia (embora a luz estivesse completamente parada). O movimento, quando relatado, era fruto de ilusão de ótica, mas alguns “cúmplices” dos pesquisadores foram instruídos a responder valores específicos de movimentação, influenciando as respostas dos demais participantes.
O mais interessante veio depois: conforme os participantes originais foram gradualmente substituídos por novos voluntários, as respostas "herdadas" do grupo inicial continuaram se perpetuando por gerações, mesmo quando ninguém mais sabia por que aqueles valores específicos tinham sido escolhidos. Uma tradição arbitrária havia se cristalizado em "conhecimento coletivo".
Esse experimento, embora conduzido em ambiente controlado, espelha um fenômeno que permeia a área da saúde: a persistência de práticas cujas origens são puramente arbitrárias, mas que resistem teimosamente ao escrutínio científico e à mudança baseada em evidências.
Antes de continuarmos, é importante estabelecer o que caracterizaria uma prática como “arbitrária” no contexto de saúde. Não se trata simplesmente de ter origem questionável (muitas descobertas científicas surgiram de acidentes ou intuições iniciais). Aqui, consideramos uma prática arbitrária quando: (1) sua origem se baseia em convenções culturais, preferências pessoais ou decisões administrativas sem embasamento científico; (2) permanece inalterada ao longo de décadas, apesar da disponibilidade de evidências que sugerem alternativas superiores; e (3) sua manutenção se deve mais à inércia institucional que à validação empírica.
Medicina Baseada em... Calendário?
Considere este exemplo: por que os ciclos de antibióticos duram múltiplos de sete dias? Cistite, sete dias. Celulite, catorze. Prostatite, vinte e oito. A resposta é tão simples quanto arbitrária. No ano 321 da era comum, o imperador romano Constantino decretou que o domingo seria um dia de descanso para a população urbana, cimentando a semana de sete dias, que na época coexistia com outros ciclos, como o de oito dias, na lei romana.
Enquanto o ano padrão tem 365 dias porque reflete aproximadamente o tempo da órbita terrestre, e o dia tem próximo de 24 horas pelo período de rotação do planeta, a duração dos tratamentos antibióticos segue basicamente uma decisão semelhante à de um imperador romano (a adoção cultural do número 7 não segue nenhum critério biológico). É uma ironia que deveria nos envergonhar: uma das práticas mais fundamentais da medicina moderna está ancorada mais no calendário de Constantino do que na ciência farmacológica.
O PSA (antígeno prostático específico) oferece outro exemplo. O valor de corte de 4 ng/mL, usado mundialmente para decidir sobre biópsias de próstata, foi estabelecido de forma arbitrária, sem fundamentação em estudos clínicos robustos. Hoje sabemos que cerca de 15% dos homens com PSA inferior a 4 têm câncer de próstata, e que a própria quantidade de amostras coletadas durante a biópsia (também definida arbitrariamente) influencia diretamente a probabilidade de encontrar tumores.
Da mesma forma, a recomendação de operar hidroceles (acúmulo de líquido na bolsa escrotal) após os dois anos de idade baseia-se em uma convenção sem embasamento sólido. Por que dois anos, e não 18 meses ou três anos? Mais uma decisão que se cristalizou sem reflexão científica adequada. O mesmo pode ser dito sobre a episiotomia de rotina, que abordamos neste texto.
Psicologia da perpetuação
A persistência dessas práticas arbitrárias não pode ser explicada apenas pela falta de acesso a informações ou pela resistência individual à mudança. Trata-se de um fenômeno mais complexo e sistemático, que a chamada Economia Comportamental ajuda a desvendar por meio de conceitos como o viés do status quo, o poder da inércia e o efeito default.
O viés do status quo reflete nossa preferência natural pelo estado atual das coisas. Na medicina, isso se manifesta quando protocolos são seguidos simplesmente porque "sempre foi assim", comportamento frequentemente reforçado pelos argumentos clássicos de apelo à tradição ("sempre fizemos assim") e apelo à popularidade ("todo mundo faz assim"). Questionar o estabelecido requer energia cognitiva e coragem profissional que muitos preferem economizar.
O poder da inércia amplifica o fenômeno. Assim como empresas de assinatura colocam a renovação automática como padrão, sabendo que a maioria dos clientes não revisitará a decisão, protocolos médicos, uma vez estabelecidos, raramente são reavaliados criticamente. Um estudo sobre o sistema previdenciário sueco mostrou que 73% das pessoas que optaram pela escolha padrão de investimentos não revisaram a decisão por 16 anos consecutivos, mesmo quando sua aposentadoria dependia disso.
O efeito default completa o trio: a tendência a aceitar opções pré-selecionadas sem questionamento. Na hierarquia médica tradicional, isso é amplificado pela transmissão vertical de conhecimento, na qual protocolos passam de professor para aluno com pouco ou nenhum questionamento sobre origens ou fundamentos.
A heurística da disponibilidade adiciona uma camada extra de complexidade. Este viés cognitivo faz com que profissionais baseiem julgamentos na facilidade com que conseguem recordar experiências passadas, em vez de considerar evidências probabilísticas mais amplas. Nas práticas em saúde, isso se manifesta quando um profissional mantém uma conduta específica porque "lembra de casos em que funcionou" ou evita mudanças porque "já viu dar errado".
Quando uma prática arbitrária se torna rotineira, os casos de "sucesso" associados a ela tornam-se mais fáceis de lembrar, criando uma falsa percepção de eficácia. Simultaneamente, devido à aversão à perda (tendência de valorizar mais o que perdemos do que o que ganhamos), desfechos negativos associados a mudanças de protocolo ficam marcados como exemplos que desencorajam futuras inovações.
Assim, forma-se um ciclo vicioso: práticas arbitrárias geram memórias seletivas que as "validam", enquanto tentativas de mudança são desencorajadas por lembranças amplificadas de eventuais problemas. A tradição se autoperpetua não porque seja eficaz, mas porque estamos programados para preservar o familiar e temer o desconhecido.
Arbitrariedade estrutural
A educação médica tradicional funciona como uma máquina de perpetuação dessas práticas. Ao enfatizar a memorização e repetição de protocolos, inadvertidamente cria profissionais menos propensos ao questionamento crítico. A pressão temporal das decisões clínicas reforça a dinâmica: revisar condutas estabelecidas demanda tempo que raramente está disponível na prática cotidiana.
A responsabilidade legal reforça a resistência. Desviar-se de práticas amplamente aceitas pode ser visto como risco jurídico, mesmo quando novas evidências sugerem alternativas superiores. O resultado é um sistema que pune a inovação baseada em evidências enquanto protege a conformidade com tradições, mesmo infundadas.
Paradoxalmente, profissionais de saúde que seguem protocolos arbitrários estão legalmente mais protegidos do que aqueles que aplicam as melhores evidências disponíveis, caso estas divirjam do “senso comum em saúde”. É uma inversão de valores que transforma o conhecimento científico atualizado em fator de risco profissional.
Retornando ao exemplo do uso de antibióticos, encontramos frequentemente a crença de que se deve sempre "completar o ciclo" (aquele baseado nas semanas de Constantino). Duas justificativas são rotineiramente evocadas: evitar recidivas e prevenir resistência bacteriana. O problema é que não existe evidência científica sólida sustentando nenhuma das duas afirmações. Ao contrário: estudos recentes sugerem que a duração excessiva de tratamentos antibióticos pode ser mais prejudicial do que benéfica, contribuindo para resistência bacteriana e efeitos adversos desnecessários. Mas a crença no "ciclo completo" está tão arraigada na cultura médica que questionar a prática ainda gera desconforto e resistência.
Isso não significa que, enquanto pacientes, possamos interromper o uso de antibióticos por conta própria a qualquer momento. É fundamental esclarecer: o debate sobre duração de tratamentos diz respeito à formulação de protocolos por profissionais e pesquisadores, não a decisões individuais de pacientes. O que questionamos aqui não é se pacientes devem cumprir suas prescrições, mas se os protocolos que orientam essas prescrições estão baseados nas melhores evidências científicas disponíveis.
Considerações finais
Os modelos da Economia Comportamental apresentados aqui foram descritos principalmente para contextos em que as consequências são financeiras, enquanto na área da saúde, as consequências envolvem doença e morte. É importante considerar que essa diferença pode alterar significativamente a manifestação dos vieses cognitivos.
A prática médica tem características particulares (responsabilidade pela vida humana, forte regulamentação, complexidade logística) que favorecem resistências à mudança que transcendem vieses individuais. Nem toda persistência de práticas arbitrárias pode, portanto, ser explicada apenas por fatores comportamentais; limitação de recursos, incertezas científicas legítimas e pressões sistêmicas também contribuem.
A compreensão desses mecanismos psicológicos e sistêmicos não deve gerar pessimismo, mas fomentar estratégias mais sofisticadas para transformar a prática em saúde. Reconhecer que a resistência à mudança não é só uma questão de "educação" ou "acesso à informação", mas um fenômeno comportamental complexo, pode orientar abordagens mais eficazes. A implementação da Medicina Baseada em Evidências não falha apenas por falta de evidências em si, mas por não considerar adequadamente os obstáculos psicológicos e estruturais.
Quem sabe, ao compreendermos melhor os mecanismos que sustentam práticas infundadas, possamos libertar a medicina da tirania de suas próprias tradições, construindo uma prática genuinamente baseada em evidências, questionamento crítico e benefício real para os pacientes.
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto).
João Eduardo Figueiredo é acadêmico do curso de Medicina da Universidade Federal de Rondonópolis
