
Imagine que você descobre um estudo que promete revolucionar o cuidado pós-parto. A pesquisa sugere que uma antiga técnica japonesa de "cura energética" pode acelerar a cicatrização e reduzir a dor após o nascimento. Parece promissor, não é mesmo? Mas, ao examinar mais de perto, você percebe algo além: todas as 86 mulheres do estudo foram submetidas a um procedimento cirúrgico que, segundo as melhores evidências científicas mundiais, não deveria ter sido realizado na maior parte dos casos.
Essa não é uma história hipotética. É exatamente o que encontramos no estudo "The impact of Reiki practice on episiotomy recovery and perineal pain: A randomized controlled study", publicado no African Journal of Reproductive Health em 2024. O trabalho ilustra de forma alarmante como a pseudociência pode encontrar terreno fértil quando aliada à naturalização de práticas médicas questionáveis.
O aspecto mais preocupante deste estudo não são as falhas metodológicas, que também exploraremos neste artigo. O problema central é a normalização implícita da episiotomia de rotina. Ao tratar 86 episiotomias como se fossem eventos banais, o estudo perpetua uma prática que as melhores evidências mundiais consideram frequentemente desnecessária e potencialmente prejudicial.
Em busca de justificativa
Para compreender a gravidade do problema, precisamos primeiro entender o que é a episiotomia. Trata-se de um corte cirúrgico realizado no períneo durante o parto, supostamente para "facilitar" o nascimento. Durante décadas, foi considerada uma prática de rotina, baseada na crença de que um corte controlado seria melhor que um possível laceramento natural.
Essa lógica, que já foi considerada plausível, começou a ruir quando pesquisadores se debruçaram sobre as evidências. Uma revisão sistemática da Cochrane analisou dados de mais de 6.000 mulheres e chegou a uma conclusão contundente: a episiotomia de rotina não apenas não traz benefícios, como aumenta o risco de complicações.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi ainda mais direta: "a episiotomia de rotina não é recomendada para mulheres em parto vaginal espontâneo". O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia alinha-se à mesma posição. No Brasil, muitas maternidades ainda superam a marca de 50 % de episiotomias em partos vaginais, um desvio gritante em relação ao teto de 10%-15% recomendado.
No entanto, o estudo em questão tratou todas as 86 participantes como se a episiotomia fosse uma inevitabilidade. Essa banalização acrítica de uma prática potencialmente danosa representa, por si só, uma violação ética fundamental. Seria algo como estudar a eficácia de uma prática alternativa para dor de dente enquanto se ignora que os dentes foram extraídos rotineiramente de maneira desnecessária.
A anatomia do estudo
Quando analisamos a metodologia, encontramos uma sucessão de falhas que comprometem qualquer pretensão de rigor científico. É um exemplo didático do que podemos chamar de "pseudopesquisa", um trabalho que tem semelhança cosmética com ciência, mas não cumpre seus requisitos fundamentais.
A primeira falha crítica reside na ausência de um controle adequado. Reiki é uma intervenção baseada em performance (o praticante realiza uma série de gestos sobre o corpo do paciente, e às vezes pode chegar a tocá-lo), atenção e tempo dedicado ao paciente – elementos que, sabidamente, podem produzir efeito placebo e vieses de percepção sobre o estado de saúde. Um estudo sério exigiria um grupo controle que recebesse atenção, performance e tempo equivalentes, mas sem a suposta "transferência de energia universal" que é a base teórica do reiki, o que não ocorreu neste caso. Isso é o equivalente a testar a “eficácia de abraços”, comparando pessoas que recebem abraços com pessoas que são completamente ignoradas. Obviamente, quem recebe atenção humana vai sentir-se melhor, mas isso não prova que abraços têm propriedades curativas.
Além disso, os autores descrevem ter usado um processo de aleatorização por "Simple Random Numbers Table" para criar os grupos tratamento e controle, mas fornecem informações vagas sobre aspectos importantes: quem realizou a randomização? A alocação foi ocultada? A sequência foi protegida contra manipulação? Depois, os grupos foram fracionados em pacientes de primeiro parto e de mais de um parto após a alocação – uma violação clássica do princípio intention-to-treat (análise por intenção de tratar), que infla a chance de falsos positivos. Além disso, o uso de analgésicos foi apenas "anotado", não padronizado; diferenças na dor podem refletir esquemas farmacológicos díspares, não “energia universal”.
A falha mais grave, contudo, talvez seja a de que a mesma pesquisadora que aplicou o reiki realizou todas as avaliações de evolução das pacientes e dos níveis de dor, abolindo qualquer possibilidade de cegamento e criando um conflito de interesse direto. Isso é comparável, em certa medida, a permitir que um réu seja também o juiz do próprio julgamento, emitindo um veredito com base em sua própria interpretação particular das evidências.
Se após os problemas éticos e metodológicos mencionados ainda insistíssemos em aceitar os resultados do estudo como válidos (o que seria generoso demais), sua relevância clínica seguiria questionável.
Segundo a própria Tabela 2 do artigo, a diferença no escore de edema entre os grupos foi de 0,20 versus 0,43 em uma escala de 15 pontos, ou seja, cerca de 1,5% da amplitude total da escala. Os autores não estabeleceram previamente qual seria a diferença mínima clinicamente importante, deixando-nos sem parâmetros para interpretar se essa diferença microscópica teria algum significado prático, mas é possível inferir que o impacto parece bastante pequeno (ninguém ficaria eufórico com uma redução de temperatura de 38,9°C para 38,5°C se uma técnica tivesse “demonstrado” essa “redução” no contexto de febre, por exemplo).
Falta de plausibilidade
Reiki baseia-se em conceitos como "energia vital universal", "chakras" e "transferência energética através do toque", noções que carecem de qualquer base na compreensão contemporânea da fisiologia humana. Não há mecanismo conhecido pelo qual tocar pontos específicos do corpo poderia "canalizar energia universal" para acelerar a cicatrização.
As revisões sistemáticas de alta qualidade são consistentes: não existem evidências de que reiki seja mais eficaz do que placebo para qualquer condição. Isso não significa que o contato humano seja irrelevante. Sabemos que atenção, cuidado e contato físico respeitoso podem ter efeitos psicológicos benéficos. Mas atribuir esses efeitos à "energia universal" é um salto completamente diferente e, até o momento, implausível.
Enquanto recursos limitados de pesquisa são desperdiçados com esse tipo de investigação enviesada, evidências robustas para intervenções obstétricas efetivas são ignoradas. Sabemos, por exemplo, que técnicas adequadas de sutura, materiais de sutura apropriados, manejo da dor baseado em evidências e, principalmente, a prevenção de lacerações desnecessárias têm impactos reais e mensuráveis.
O foco deveria estar em implementar essas intervenções baseadas em evidência e, principalmente, em reduzir episiotomias desnecessárias. O problema, além do desperdício de recursos, é a perpetuação de práticas potencialmente prejudiciais.
Impacto na confiança pública
Estudos como este, quando divulgados sem contexto crítico adequado, podem minar a confiança em práticas obstétricas baseadas em evidência. Mulheres podem questionar: "Por que não tentar primeiro o reiki, já que um estudo mostrou que funciona e é menos invasivo?". Ou, pior ainda, podem aceitar episiotomias desnecessárias acreditando que o reiki mitigará as consequências. A gravidez e o parto são momentos de particular vulnerabilidade, quando é fácil apegar-se a qualquer promessa de alívio ou controle. Aproveitar-se dessa vulnerabilidade com pesquisas pseudocientíficas representa uma forma sutil de exploração.
Este caso levanta ainda sérias questões sobre os padrões editoriais de revistas científicas (conforme discutimos neste artigo). Como um estudo com tantas falhas metodológicas óbvias passou pelo processo de revisão por pares? A mera presença do rótulo "randomized controlled trial" não deveria conferir legitimidade automática a uma pesquisa que viola princípios básicos do método científico.
Revistas científicas têm a responsabilidade ética de manter padrões elevados, especialmente para estudos envolvendo populações vulneráveis. A publicação de pseudociência com verniz acadêmico pode causar danos reais quando profissionais menos críticos a utilizam para justificar práticas questionáveis.
Em contraste com a abordagem do estudo analisado, existe um corpo robusto de evidências sobre cuidado perineal efetivo. O foco deveria estar em implementar essas intervenções e, principalmente, em auditar e reduzir taxas desnecessárias de episiotomia.
Considerações finais
O estudo sobre reiki e episiotomia serve como mais um caso emblemático dos perigos da pseudociência na obstetrícia. Não se trata apenas de metodologia falha ou conclusões exageradas, embora ambas estejam presentes. O problema central é a normalização acrítica de práticas médicas questionáveis, camuflada sob o verniz da investigação científica.
A medicina baseada em evidência vai além de estudos clínicos controlados. Exige plausibilidade biológica, metodologia rigorosa, relevância clínica e, fundamentalmente, questionamento constante de práticas estabelecidas apenas por tradição, sejam elas incorporadas à medicina convencional (como episiotomia de rotina) quanto à medicina alternativa (como reiki). Quando aceitamos episiotomias de rotina como inevitáveis, enquanto investigamos "energias universais" como tratamento, invertemos completamente essas prioridades.
A obstetrícia contemporânea tem a responsabilidade de questionar, e não perpetuar, a violência obstétrica. Cada episiotomia desnecessária representa uma oportunidade perdida de demonstrar que o cuidado baseado em evidência pode ser simultaneamente mais efetivo e mais humano.
O maior desafio não está, portanto, em investigar supostas curas energéticas para consequências de procedimentos desnecessários, mas em prevenir esses procedimentos em primeiro lugar. A fronteira entre medicina e pseudociência não se define pelo uso de terminologia técnica ou delineamentos experimentais, mas pelo compromisso inabalável com evidência, plausibilidade e, acima de tudo, o princípio hipocrático fundamental: primeiro, não causar dano.
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é" (Editora Contexto).
Melania Amorim é Médica Ginecologista e Obstetra, Professora Associada de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Campina Grande e Docente do Programa de Doutorado em Saúde Integral do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira.
