Realidade virtual para transtorno alimentar?

Artigo
4 mai 2025
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Prato de salmão virtual

 

Recentemente, em um reencontro com alguns colegas de faculdade, acabei mencionando que havia comprado um Meta Quest 3s e perguntei se alguém queria testar. A experiência de fingir ser um Jedi no Blade and Sorcery foi, possivelmente, uma das melhores sensações que já tive em videogame.

Entre as piadas de nerd, um dos comentários que acabou dando origem a este artigo foi a pergunta de um colega, que indagou se eu já tinha lido algo sobre o uso da realidade virtual no tratamento de transtornos alimentares, sua principal área de atuação.

À primeira vista, ainda leigo no tema, imaginei algo próximo de iniciativas mal fundamentadas que, ocasionalmente, surgem na saúde digital. Um exemplo enigmático foi a plataforma AURA, que prometia prever recaídas e auxiliar no tratamento psiquiátrico com inteligência artificial e realidade virtual. No marketing, tudo era “baseado em evidências”, mas, na prática, as evidências eram inexistentes ou preliminares, com a tecnologia ainda em fase inicial de validação.

O caso acabou cercado por controvérsias graves, incluindo um evento adverso registrado, levantando questionamentos sobre segurança, transparência e as próprias alegações da empresa.

Surpreendentemente, meu interlocutor não conhecia esse episódio e comentou que, até onde havia lido, os estudos sobre realidade virtual em transtornos alimentares seguiam um caminho bem mais promissor. Ofereceu-se para me enviar alguns artigos.

Após a leitura, achei o tema suficientemente interessante para compartilhar um pouco mais sobre essa abordagem — ainda experimental, vale deixar claro.

A teoria

Um dos nomes mais fortes na aplicação da realidade virtual aos transtornos alimentares é o psicólogo e presidente da International Association of CyberPsychology, Training, and Rehabilitation (iACToR), Giuseppe Riva que, entre tantos trabalhos, apresenta dois que sintetizam bem a plausibilidade da intervenção.

Começando pelo mais antigo, publicado em 2011: “The key to unlocking the virtual body: virtual reality in the treatment of obesity and eating disorders” revisa a hipótese do bloqueio alocêntrico. A proposta é que pacientes obesos ou com transtorno alimentar ficam presos a uma imagem corporal negativa, pouco sensível à atualização mesmo após mudanças físicas.

A hipótese parte do pressuposto de que a experiência espacial, incluindo a corporal, integra diferentes entradas sensoriais em dois referenciais: o egocêntrico, em primeira pessoa (como em Call of Duty), e o alocêntrico, no qual o corpo é visto como objeto (como em Pac-Man).

Em condições normais, esses sistemas se integram dinamicamente; quando esse processo falha, as entradas egocêntricas deixam de atualizar a representação alocêntrica. Assim, indivíduos com transtornos alimentares podem permanecer presos a uma imagem corporal negativa armazenada na memória de longo prazo —  imagino que esse short de menos de 1 minuto do desenho American Dad reflete a hipótese.

Esse quadro se soma ao papel central do corpo na cultura ocidental, que associa magreza à felicidade e ao sucesso e excesso de peso à falta de controle, reforçando a tendência de tratá-lo como objeto de avaliação externa. Transtornos de ansiedade, comuns nesses pacientes, também contribuem para a manutenção da imagem negativa, assim como a influência social, com mídia e cultura promovendo dietas como solução central.

Nesse contexto, a realidade virtual (RV) poderia auxiliar ao permitir exposições sistemáticas, controladas e seguras em consultório. Estudos preliminares sugerem que a RV pode melhorar a imagem corporal ao facilitar a atualização de representações alocêntricas “fixadas”.

Os resultados iniciais indicaram superioridade em relação à terapia nutricional isolada e à terapia cognitivo-comportamental (TCC)  tradicional, embora com limitações importantes, como baixo número amostral, curto acompanhamento e necessidade de replicação. Além disso, a RV pode gerar efeitos adversos, como náusea e tontura.

Dez anos depois, Riva, em colaboração com outros pesquisadores, publicou o “Virtual reality in the treatment of eating disorders”, consolidando duas principais abordagens terapêuticas baseadas em RV: a exposição a estímulos (VR Cue Exposure), que busca reduzir respostas de fissura e ansiedade associadas à comida, e a mudança de referencial (VR Reference Frame Shifting), voltada à reorganização de memórias relacionadas ao corpo.

O VR Cue Exposure pode apresentar vantagens sobre a exposição tradicional ao simular cenários realistas, permitindo repetição, progressão gradual e personalização. Alguns estudos mostram que alimentos virtuais podem gerar respostas emocionais comparáveis — ou até superiores — às de imagens e, em certos casos, semelhantes às de alimentos reais.

Já no VR Reference Frame Shifting, técnicas como o imagery rescripting (uma técnica que visa reduzir o sofrimento associado a memórias negativas) associadas à RV mostraram bons resultados de curto prazo, especialmente em casos refratários à TCC. As sessões envolvem a evocação de memórias negativas, a recriação do ambiente virtual e a revivência sob diferentes perspectivas. 

Entre as novas utilizações, cresceu o interesse pelas “ilusões corporais”, baseadas na integração multissensorial. Um exemplo clássico é a ilusão da mão de borracha, na qual o indivíduo observa o toque em uma mão artificial enquanto sente, simultaneamente, o toque em sua mão real, criando a ilusão de pertencimento.

Pacientes com transtornos alimentares parecem experimentar essas ilusões de forma mais intensa, possivelmente por maior dependência de informações visuais, o que pode ser explorado em RV, inclusive com manipulação de avatares.

Outro avanço é o uso de rastreamento ocular integrado à VR, permitindo avaliar vieses atencionais em tempo real. Evidências iniciais sugerem maior foco desses pacientes em aspectos corporais, algo que pode ser monitorado e potencialmente modulado.

Funciona?

Publicada em 2022 sob o título “Various Types of Virtual Reality-Based Therapy for Eating Disorders: A Systematic Review”, trata-se de uma revisão sistemática composta por 15 artigos, publicados entre 2015 e 2021, que utilizaram realidade virtual em diferentes transtornos alimentares, como anorexia nervosa, bulimia e transtorno de compulsão alimentar periódica.

De modo geral, os estudos empregaram principalmente VR-cue exposure, exposição corporal — a mais frequente — ou abordagens alternativas. Parte deles descreveu intervenções com múltiplas sessões, variando de duas a 12 semanas, com seguimento entre duas semanas e 12 meses.

Em relação à exposição corporal em RV, os estudos focaram tanto em populações com distorção de imagem corporal quanto em anorexia nervosa. No caso da VR-cue exposure, observou-se redução de episódios de compulsão alimentar e purgação após exposições repetidas em ambientes virtuais que simulavam situações do cotidiano.

De modo geral, os autores concluem que a realidade virtual pode provocar respostas realistas a estímulos relevantes e contribuir para reduzir episódios de compulsão alimentar, melhorar a imagem corporal e aumentar a motivação para mudança, embora, em alguns contextos, intervenções tradicionais apresentem desempenho semelhante.

Passados quase cinco anos, uma nova revisão sistemática, publicada em 2025 sob o título “Innovative Approaches to Eating Disorders Treatment: A Systematic Review on the Effectiveness of Virtual Reality”, avaliou evidências entre novembro de 2021 e fevereiro de 2025.

A análise incluiu nove estudos, com predominância de intervenções baseadas em exposição em RV, frequentemente combinadas a outras técnicas. De modo geral, os resultados apontam melhora em desfechos psicológicos e comportamentais, embora com alta heterogeneidade entre amostras, transtornos e instrumentos.

A revisão sugere que a realidade virtual apresenta potencial como ferramenta terapêutica. Apesar disso, limitações persistem, como amostras pequenas, ausência de grupos controle e falta de dados de longo prazo.

Se isso não bastasse para deixar claro que, embora a técnica possa ser útil em alguns contextos e para alguns participantes, ainda há um longo caminho antes que seja considerada uma ferramenta consolidada, outra revisão, publicada em 2022 no Clinical Psychology Review sob o título “Virtual reality in the diagnostic and therapy for mental disorders: A systematic review”, trouxe colocações importantes — como a revisão aborda diferentes transtornos mentais, focarei apenas na seção sobre transtornos alimentares.

Ensaios clínicos randomizados mostraram que a exposição em RV a alimentos altamente calóricos induz maiores níveis de ansiedade, depressão e insatisfação corporal em pacientes com transtornos alimentares, efeito não observado em controles saudáveis. Estudos caso-controle indicaram maior palatabilidade percebida, medo e envolvimento emocional ao “comer” em ambientes virtuais.

Os resultados sobre memória espacial foram conflitantes, enquanto os estudos sobre imagem corporal mostraram que a RV captura estimativas e insatisfação de forma semelhante a instrumentos tradicionais.

No campo terapêutico, foram identificados 37 estudos de intervenção, com destaque para a Terapia Cognitivo-Experiencial, desenvolvida por Riva, que combina TCC com RV. Ensaios clínicos indicam melhores desfechos em comparação à TCC padrão, embora grande parte das evidências venha de um mesmo grupo de pesquisa.

De modo geral, observa-se crescimento consistente da literatura, mas a heterogeneidade metodológica ainda limita conclusões no campo diagnóstico, enquanto, no terapêutico, permanece a necessidade de replicação independente.

Em minha visão, o que a literatura sugere até aqui é menos uma revolução terapêutica e mais uma possibilidade interessante, com plausibilidade teórica e alguns resultados iniciais animadores, mas ainda longe de se firmar como ferramenta consolidada.

As revisões sistemáticas apontam sinais positivos em desfechos como compulsão alimentar, imagem corporal e engajamento, mas também deixam claro que o campo ainda convive com amostras pequenas, alta heterogeneidade metodológica, poucos grupos controle adequados e concentração de evidências em poucos grupos de pesquisa. Isso não invalida os achados. Mas significa que, por enquanto, a realidade virtual deve ser vista mais como uma estratégia experimental e potencialmente complementar do que como uma intervenção pronta para ocupar lugar central no tratamento.

Resta saber se estudos maiores, mais rigorosos e replicados por equipes independentes vão confirmar essa promessa ou mostrar que parte do entusiasmo atual vinha mais do brilho da tecnologia do que da força dos dados.

Mauro Proença é nutricionista

 

 

REFERÊNCIAS

RIVA, G. The key to unlocking the virtual body: virtual reality in the treatment of obesity and eating disorders. J Diabetes Sci Technol. 2011 Mar 1;5(2):283-92. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21527095/.

RIVA, G.; MALIGHETTI, C. e SERINO, S. Virtual reality in the treatment of eating disorders. Clin Psychol Psychother. 2021 Jun 5;28(3):477–488. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8362149/.

CIĄŻYŃSKA J, MACIASZEK J. Various Types of Virtual Reality-Based Therapy for Eating Disorders: A Systematic Review. J. Clin. Med. 2022, 11(17), 4956. Disponível em: https://www.mdpi.com/2077-0383/11/17/4956.

LLABRÉS, M.; MEDIALDEA, M. e MALDONADO, J. Innovative Approaches to Eating Disorders Treatment: A Systematic Review on the Effectiveness of Virtual Reality. Appl. Sci. 2025, 15(6), 3334. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-3417/15/6/3334.

WIEBE, A. et al. Virtual reality in the diagnostic and therapy for mental disorders: A systematic review. Clin Psychol Rev. 2022 Dec:98:102213. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36356351/.

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