Ginkgo biloba serve para alguma coisa?

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10 abr 2026
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folhas de gingo

No último ano, a OMS trouxe dados alarmantes sobre a demência — um termo que engloba condições caracterizadas por perda de memória, linguagem, raciocínio e outras funções cognitivas. Em 2021, cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência, mais de 60% em países de baixa e média renda. Em 2019, o custo global foi estimado em US$ 1,3 trilhão.

A demência resulta de diferentes doenças que afetam o cérebro. O Alzheimer responde por 60%–70% dos casos. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras de 2024 estima que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convivem com a doença, representando aproximadamente 1,8 milhão de casos. Até 2050, a projeção é que esse número alcance 5,7 milhões.

Diversos fatores aumentam o risco: idade, hipertensão, hiperglicemia, obesidade, tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, isolamento social e depressão.

O medo da demência acompanha esses números. Um editorial recente no periódico Alpha Psychiatry, intitulado “Advancing Research on Fear of Dementia Through eHealth solutions in an Aging Society”, sugere que essa condição tem ganhado centralidade nas preocupações de saúde, associando-se à ansiedade, lapsos de memória interpretados de forma catastrófica e até ao adiamento de exames. O estudo “Terror is a Better Word: A Qualitative Analysis of Dementia-Related Anxiety” explora esse medo a partir de entrevistas semiestruturadas, nas quais foram analisados os impactos psicossociais de um possível diagnóstico. Muitos participantes consideraram a demência o pior cenário possível.

Essa combinação de medo, incerteza e ausência de soluções definitivas não apenas impulsiona a pesquisa científica, mas também abre espaço para oportunistas. No passado, os vendedores de óleo de cobra ofereciam soluções com microcuries de rádio para tratar dispepsia e impotência; hoje, fazem algo mais elegante, lucrativo e socialmente aceito: vendem suplementos para cognição.

O mercado global desses produtos era estimado em cerca de US$ 10,95 bilhões em 2024, com projeções de ultrapassar US$ 23 bilhões até 2030. Extratos herbais representam uma parcela relevante, impulsionados pelo apelo ao “natural”, pela multifuncionalidade e por estratégias agressivas de marketing.

Entre eles se destaca o ginkgo biloba — uma árvore utilizada há milhares de anos na medicina tradicional chinesa. Estudos in vitro mostram efeitos biológicos na neuroproteção, na prevenção de neurotoxicidade pelo β-amiloide (um peptídeo que parece desempenhar papel central na patologia do Alzheimer) e na proteção contra danos oxidativos.

No entanto, quando avaliado em ensaios clínicos, o efeito terapêutico se mostra inconsistente. Isso levanta a hipótese de que estejamos, mais uma vez, diante de um produto que se mantém popular não por méritos científicos, mas graças a uma estratégia de marketing bem construída.

 

As evidências

Apesar da medicina tradicional chinesa utilizar o ginkgo biloba para diferentes condições de saúde, suas indicações variavam conforme a parte da planta. As sementes eram empregadas para tosse, asma e parasitoses intestinais, enquanto as folhas eram utilizadas para perda de memória, distúrbios cognitivos, arritmias e câncer. Essas aplicações, porém, baseavam-se em experiências anedóticas e em correspondências mitológicas sem respaldo em evidências científicas.

Na década de 1970, a empresa Dr. Willmar Schwabe Pharmaceuticals desenvolveu os métodos que permitiram a produção do extrato EGb 761 a partir das folhas da planta. Estudos pré-clínicos em animais sugeriram benefícios em cognição, humor, AVC e lesão cerebral traumática.

Esses achados iniciais, somados a interesses comerciais, impulsionaram um mercado altamente lucrativo, projetado para atingir cerca de US$ 2,8 bilhões em 2036 (ante US$ 1,8 bilhão em 2025), mesmo sem evidências clínicas robustas.

Um dos principais ensaios clínicos sobre o tema, publicado em 2006 sob o título “The Ginkgo Evaluation of Memory (GEM) study: design and baseline data of a randomized trial of Ginkgo biloba extract in prevention of dementia”, envolveu mais de 3.000 participantes sem doenças neurológicas estabelecidas, com 75 anos ou mais, acompanhados por até cinco anos e tratados com 120 mg de EGb 761 duas vezes ao dia.

O objetivo principal foi avaliar a incidência de demência (incluindo doença de Alzheimer), além de desfechos secundários como declínio cognitivo e funcional, eventos cardiovasculares e mortalidade.

Ao longo do estudo, 523 participantes desenvolveram demência, sendo 246 no grupo placebo (16,1%) e 277 no grupo ginkgo (17,9%). Não houve diferença entre os grupos na incidência de demência total nem de Alzheimer, e os resultados permaneceram consistentes em diferentes análises.

Com base nesses resultados, os autores concluíram que o ginkgo biloba não reduziu a incidência de demência ou doença de Alzheimer em indivíduos com mais de 75 anos. Da mesma forma, não houve redução no risco de Alzheimer nesse grupo.

Os desfechos secundários, publicados em 2009, também não mostraram diferença no declínio cognitivo entre os grupos.

Entre as limitações do trabalho, destacam-se o longo intervalo entre alterações neuropatológicas e manifestação clínica, possível confundimento residual, limitações no cronograma de avaliação e adesão de cerca de 60%. Além disso, os resultados não são generalizáveis para populações mais jovens.

Apesar dessas limitações, o veredito deveria ser claro: as evidências mais robustas disponíveis apontam consistentemente para a ausência de benefício.

O levantamento “An Overview of Systematic Reviews of Ginkgo biloba Extracts for Mild Cognitive Impairment and Dementia”, uma revisão sistemática de revisões sistemáticas e meta-análises sobre ginkgo biloba, analisou dez trabalhos de qualidade metodológica variável, em geral com falhas menores, mas com pelo menos um classificado como de baixa qualidade. Apenas duas abordaram prevenção — ambas inconclusivas.

Curiosamente, uma delas incluiu o estudo GEM, mas os autores argumentaram que a adesão “extremamente baixa” comprometeria a interpretação dos resultados — uma leitura questionável, considerando que a adesão foi, na realidade, moderada e semelhante entre os grupos.

Na demência, o ginkgo foi superior ao placebo em desfechos clínicos globais, com possível efeito dose-dependente, mas os resultados para atividades da vida diária foram inconsistentes. Também foram relatadas melhoras em sintomas neuropsiquiátricos e qualidade de vida, sem evidência de impacto na progressão da doença. Os eventos adversos foram inconsistentes entre as revisões.

Os autores concluem que a análise apoia a eficácia do extrato de ginkgo biloba no comprometimento cognitivo leve e em diferentes formas de demência. Além disso, os extratos são, de modo geral, considerados seguros.

Se parássemos por aqui, a conclusão pareceria inevitável: o ginkgo biloba funciona — e o estudo GEM teria simplesmente falhado em capturar seus efeitos. Essa interpretação, no entanto, não se sustenta.

A primeira coisa que chama atenção é o tom adotado ao longo do texto, que, em diversos momentos, se aproxima mais de uma defesa do extrato do que de uma análise crítica das evidências. Por exemplo, quando os autores discutem resultados desfavoráveis ao ginkgo biloba, como os da revisão de Yang et al. (2016), há um esforço recorrente em destacar limitações e relativizar seus achados — algo que não se repete na discussão de outras revisões igualmente problemáticas, levantando a possibilidade de viés narrativo.

Outro ponto relevante é a sobreposição de estudos entre as revisões incluídas. Ao analisar os trabalhos, fica evidente que uma parcela considerável deles se apoia em um conjunto relativamente pequeno de ensaios clínicos, que acabam sendo repetidamente incluídos. Isso cria uma falsa impressão de consistência, quando, na prática, estamos olhando, em grande medida, para os mesmos dados sendo reciclados.

Quando se examinam esses estudos recorrentes, surge outro problema: muitos apresentam conflito de interesse. Embora isso não invalide automaticamente os resultados, aumenta a probabilidade de achados positivos e sugere possível superestimação dos efeitos.

A alta heterogeneidade entre os estudos é outro ponto crítico. Em muitos casos, os resultados são tão discrepantes que a combinação em meta-análises se torna questionável.

Há ainda preocupações sobre o próprio processo de revisão por pares, já que um dos revisores tem vínculo com a indústria do extrato analisado — o que, embora não invalide o processo, levanta dúvidas sobre sua independência.

O problema não está em uma limitação isolada, mas no acúmulo delas. O que parece um corpo de evidência consistente revela-se, na prática, um conjunto de dados heterogêneos, potencialmente enviesados e reutilizados — um cenário clássico de “entra lixo, sai lixo”.

Felizmente, uma nova revisão sistemática publicada pela Cochrane tem o potencial de esclarecer esse mito que ainda permeia o campo da prevenção da saúde cognitiva.

 

O prego no caixão?

Publicada em 2026 pela Cochrane, a revisão sistemática “Ginkgo biloba for cognitive impairment and dementia” parte de um cenário relevante. A versão anterior, de 2009, não encontrou benefício do ginkgo biloba sobre a cognição. Desde então, novos estudos passaram a sugerir efeitos modestos em cognição, atividades da vida diária e função global, respaldados inclusive por diretrizes e consensos, como o Asian Clinical Expert Panel on Neurocognitive Disorders, que defende seu uso.

Diante desse contexto, somado ao crescimento do mercado e ao argumento de que pequenos efeitos poderiam impactar a qualidade de vida, a revisão avaliou ensaios clínicos randomizados publicados até 2024.

Foram incluídos 82 estudos, totalizando 10.613 participantes. O tamanho amostral foi pequeno (mediana de 92), e apenas quatro estudos apresentaram baixo risco global de viés.

Quarenta e um estudos não relataram financiamento nem apresentaram relação aparente com financiadores. Entre os demais, 13 foram financiados pela Dr. Willmar Schwabe GmbH & Co., quatro por outras empresas e os 24 restantes por instituições governamentais, acadêmicas ou sem fins lucrativos.

Os autores concluem que, em pessoas com queixas cognitivas, não está claro se o ginkgo melhora o estado clínico global aos seis meses, podendo inclusive estar associado a um aumento no risco de eventos adversos aos três meses.

Em indivíduos com comprometimento cognitivo leve, os resultados reforçam a ausência de benefício clínico relevante, sem diferenças significativas no risco de eventos adversos, incluindo eventos adversos graves, em até 12 meses.

Em pessoas com demência, pode haver benefícios pequenos a moderados aos seis meses em termos de estado clínico global, cognição e atividades da vida diária — uma conclusão que soa relativamente otimista, considerando que se baseia em evidência de baixa certeza e marcada por alta heterogeneidade.

Entre as limitações, destaca-se que há grande heterogeneidade entre estudos, uso inconsistente de extratos (com melhor padronização apenas em estudos ocidentais com EGb 761), critérios diagnósticos variados e diversidade de instrumentos cognitivos, dificultando comparações diretas. Além disso, não foi possível descartar viés de publicação.

Embora a revisão tenha descrito as fontes de financiamento e possíveis vínculos com a indústria, não houve análise estratificada por financiamento — uma omissão importante, considerando que, em estudos sobre demência, seis de dez incluíam autores afiliados à fabricante Schwabe. Dada a consistente associação entre financiamento industrial e resultados favoráveis, isso levanta a possibilidade de superestimação dos efeitos.

No fim, o quadro que emerge é consistente: os possíveis benefícios do ginkgo biloba são, na melhor das hipóteses, pequenos, incertos e baseados em evidência de baixa qualidade.

Ainda assim, o suplemento segue amplamente comercializado, sustentado por uma percepção de eficácia que não se confirma quando confrontada com as melhores evidências disponíveis. Mais do que uma estratégia eficaz para prevenir demência, o ginkgo se encaixa em um padrão recorrente. Ele promete mais do que entrega — e cobra por isso.

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

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