
Há cerca de um ano, o cientista Denis Noble deixou evolucionistas furiosos – e criacionistas felizes – quando proclamou a morte do neodarwinismo. Ele disse isso em uma entrevista conduzida pela jornalista Andréa Morris, que escolheu carregar o vídeo no YouTube com o título bastante exagerado de “A Ciência Está Reconsiderando A Evolução”. A verdade, contudo, não poderia estar mais longe disso. A perspectiva de Noble não é de que a evolução é falsa, mas de que a teoria que explica como se deu a evolução foi comprometida por descobertas das últimas cinco ou seis décadas.
Noble não é antievolucionista, mas um crítico da síntese moderna, muitas vezes chamada simplesmente de neodarwinismo (um rótulo que não é historicamente preciso). É um dos proponentes da “Terceira Via da Evolução” (TVE), uma vertente evolucionista rival do neodarwinismo. Segundo os proponentes da TVE:
“O neodarwinismo ignora processos evolutivos rápidos importantes, como simbiogênese, transferência horizontal de DNA, ação de DNA móvel e modificações epigenéticas. Além disso, alguns neodarwinistas elevaram, sem uma base empírica real, a Seleção Natural a uma força criativa única que resolveria todos os difíceis problemas evolutivos. Muitos cientistas hoje veem a necessidade de uma exploração mais profunda e completa de todos os aspectos do processo evolutivo.”
A expressão usada por Noble, contudo, tem uma história bem conhecida da biologia evolutiva da segunda metade do século 20. Remonta a um agora clássico artigo publicado em 1980 pelo paleontólogo, ensaísta e biólogo evolutivo americano Stephen Jay Gould.
Gould e a morte do neodarwinismo
Nas décadas de 1970 e 1980 a biologia evolutiva experimentou o que foi chamado por David Sepkoski de Revolução Paleobiológica, na qual seu pai, Jack Sepkoski, e os paleontólogos David Raup, Steven Stanley, Niles Eldredge, Stephen J. Gould e Elisabeth Vrba, entre outros, desempenharam papéis fundamentais. O papel de Elisabeth Vrba e dos outros dois “mosqueteiros da macroevolução” (Eldredge e Gould) na revolução paleobiológica foi discutido por mim e pelo professor Andrej Spiridonov no Journal of the History of Biology, e já tinha sido tema de coluna aqui na RQC.
É nesse contexto que Gould publica, na Paleobiology, seu artigo, cujo título já é bastante sugestivo: Uma teoria da evolução nova e geral está emergindo? Na seção do artigo na qual Gould discute a Síntese Moderna, lemos a proclamação da morte do neodarwinismo:
“Tenho relutado em admitir isso — pois aquilo que é sedutor muitas vezes o é para sempre —, mas, se a caracterização da teoria sintética feita por Mayr estiver correta, então essa teoria, como proposição geral, está efetivamente morta, apesar de sua persistência como ortodoxia nos livros-texto.”
Para compreender exatamente o Gould queria dizer, precisamos, primeiro, entender o que ele compreendia como sendo a essência do darwinismo e da Teoria Sintética da evolução.
A Estrutura da Teoria Evolutiva
Em sua última e monumental obra, The Structure of Evolutionary Theory, publicada em 2002, Stephen Jay Gould argumenta que o darwinismo tem uma estrutura conceitual relativamente simples, organizada em torno de três princípios fundamentais. Gould descreve essa estrutura como um “tripé” composto pelos pilares da agência, eficácia e escopo.
O primeiro pilar é o da agência. Na concepção darwinista clássica, a seleção natural atua primordialmente no nível dos organismos individuais. Em outras palavras, a unidade de seleção é o indivíduo. A aparente ordem adaptativa da natureza emerge como consequência indireta da interação entre organismos que lutam pela existência (não necessariamente no sentido literal de combate, mas no sentido mais amplo de competição por recursos e sucesso reprodutivo). Nesse quadro, genes, células ou espécies não são considerados os principais alvos da seleção. A evolução, portanto, seria essencialmente um processo que opera em um único nível privilegiado: o organismo.
O segundo pilar é o da eficácia. Aqui está uma das teses mais distintivas do darwinismo: a ideia de que a seleção natural não é apenas um processo negativo de eliminação, mas uma vera causa – uma causa verdadeira e criativa na produção de adaptações. Muitos críticos de Darwin admitiam a existência da seleção natural, mas a viam apenas como um filtro que remove variantes menos aptas. Darwin, por outro lado, defendia que a seleção natural poderia construir adaptações complexas por meio da acumulação gradual de pequenas variações, moldando-as ao longo de muitas gerações. Já discuti a criatividade da seleção natural aqui na RQC.
O terceiro pilar é o do escopo. Trata-se da afirmação de que os mesmos mecanismos que produzem pequenas mudanças evolutivas dentro das populações também explicam de forma suficiente os grandes padrões observados ao longo do tempo geológico. Em outras palavras, a macroevolução – o surgimento de novos grupos, a diversificação das linhagens e as tendências evolutivas de longa duração – seria essencialmente a extrapolação temporal da microevolução.
Se esse tripé permanecer firme, o darwinismo permanece de pé. Derrube um de seus pilares, e a teoria clássica entra em colapso. Contudo, como Gould enfatiza, a história da biologia evolutiva recente não tem sido uma história de destruição do darwinismo, mas de reformas em seus pilares.
Reformas
No caso da agência, por exemplo, diversas propostas ampliaram o nível no qual a seleção pode operar. Ideias como a seleção gênica, popularizada por Richard Dawkins em The Selfish Gene (O Gene Egoísta), deslocaram o foco para níveis inferiores de organização biológica. Por outro lado, alguns paleontólogos e teóricos macroevolutivos argumentaram que processos seletivos também poderiam ocorrer em níveis superiores, como o das espécies. Pesquisadores como Niles Eldredge, Elisabeth Vrba e Steven Stanley defenderam que taxas diferenciais de especiação e extinção podem produzir padrões macroevolutivos análogos aos da seleção natural. Nesse contexto, a evolução passa a ser concebida como um processo hierárquico, operando em múltiplos níveis de organização.
Reformas semelhantes ocorreram no pilar da eficácia. Embora a seleção natural continue sendo reconhecida como um mecanismo central, tornou-se cada vez mais claro que não atua sozinha. Estruturas biológicas impõem restrições desenvolvimentais e estruturais que limitam os caminhos evolutivos possíveis. O apego cego ao adaptacionismo (“tudo tem que ter uma função”) também foi extremamente criticado, inclusive por Gould; uma versão mais divertida dessa crítica você pode conferir aqui na RQC. Além disso, estudos recentes têm destacado o papel de fatores como viés mutacional, em que certos tipos de mutação ocorrem mais frequentemente do que outros, influenciando a direção da mudança evolutiva antes mesmo que a seleção natural atue.
O terceiro pilar, o escopo, talvez tenha sido o mais profundamente debatido pelos atores da Revolução Paleobiológica. A questão central é se os padrões macroevolutivos podem ser explicados exclusivamente pela extrapolação de processos microevolutivos. A publicação da teoria dos equilíbrios pontuados, proposta por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould em 1972, intensificou esse debate ao sugerir que o registro fóssil revela padrões de mudança evolutiva descontínua, com longos períodos de estase interrompidos por episódios relativamente rápidos de especiação. Além disso, eventos como extinções em massa podem reorganizar profundamente a diversidade da vida, redefinindo as trajetórias evolutivas de forma que não pode ser explicada apenas pela seleção natural atuando continuamente em populações locais. Esses fenômenos reforçam a ideia de que a macroevolução tem dinâmicas próprias, que nem sempre podem ser reduzidas aos processos microevolutivos tradicionais.
Que teoria morreu, afinal?
É nesse ponto que a famosa frase de Gould ganha seu verdadeiro significado. Ele não estava afirmando que o darwinismo estava errado ou que a teoria sintética da evolução, o neodarwinismo, havia sido refutada. O alvo de sua crítica era uma formulação específica da síntese moderna, apresentada por Ernst Mayr, que em 1963 escreveu o seguinte:
“Os proponentes da teoria sintética sustentam que toda a evolução se deve ao acúmulo de pequenas mudanças genéticas, guiadas pela seleção natural, e que a evolução transespecífica nada mais é do que uma extrapolação e amplificação dos eventos que ocorrem dentro de populações e espécies.”
Isto é, toda a evolução seria causada pela acumulação gradual de pequenas mudanças genéticas guiadas pela seleção natural, e a macroevolução não seria nada além da extrapolação desses processos. Vale notar que Gould não escolheu a citação de uma figura periférica, mas um dos principais atores no movimento de síntese da biologia evolutiva que ocorreu na primeira metade do século 20.
Se essa definição restrita fosse aceita, argumentava Gould, então ela estaria “efetivamente morta como proposição geral”, pois já não seria capaz de explicar adequadamente os fenômenos macroevolutivos revelados pela paleontologia. Em outras palavras, Gould não proclamava a morte do darwinismo. Ele afirmava algo mais sutil e talvez mais interessante: que a teoria evolutiva havia se tornado mais rica, mais plural e mais complexa do que a versão clássica formulada durante a síntese moderna.
Nesse sentido, o darwinismo não morreu. Foi reformado, ampliado e parcialmente reinterpretado — algo que, aliás, é exatamente o que se espera de qualquer teoria científica viva. Uma visão estrita do darwinismo pode ter morrido, mas ainda somos, essencialmente, darwinistas e herdeiros intelectuais e metodológicos da síntese moderna.
Nota final: alguns leitores mais ávidos podem gostar de saber que eu não sou um proponente da Terceira Via da Evolução. Embora eu concorde com Gould, discordo da abordagem de Noble. Mas isso é assunto para outro texto.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
