
Sim, aqui estamos novamente: equilíbrios pontuados, mais uma vez. Como cientista e divulgador de ciência, não é (nem deve ser) meu papel defender minhas teorias de estimação. Porém, dado que eu talvez saiba uma coisa ou outra, posso captar alguns deslizes que aparecem na mídia sobre evolução. Esses deslizes, que são pequenos equívocos, não produto de má-fé, podem servir para elaborar um pouco mais sobre assuntos interessantes.
Recentemente, uma matéria online chamou minha atenção, pois segundo a manchete foi “descoberto mecanismo de evolução que apoia teoria alternativa a Darwin”. Que teoria alternativa seria essa? Fiquei interessado. Segundo a matéria “Agora, Carlos Vargas-Chávez e colegas de várias instituições da Espanha descobriram um mecanismo de reorganização genômica rápida e massiva que pode ter desempenhado um papel na transição de animais marinhos para terrestres há 200 milhões de anos”, e isso “seria a primeira demonstração de um mecanismo biológico concreto a dar suporte à teoria de Gould e Eldredge” — a Teoria dos Equilíbrios Pontuados.
Meu radar apitou na hora, especialmente pela forma como havia sido descrita a teoria de Eldredge e Gould (para mais sobre a história da ideia, e porque é Eldredge & Gould, não Gould & Eldredge, veja essa coluna aqui):
“Em 1972, a escassez de formas intermediárias levou os paleontólogos Stephen Jay Gould e Niles Eldredge a propor uma ideia alternativa, hoje conhecida como ‘equilíbrio pontuado’. Segundo essa teoria, em vez de mudar lentamente, as espécies permanecem estáveis por milhões de anos e, de repente, dão saltos evolutivos rápidos e radicais. Esse modelo explicaria por que o registro fóssil parece tão silencioso entre as espécies: grandes mudanças ocorreriam repentinamente e em populações pequenas e isoladas, bem fora do radar paleontológico”. (ênfase minha)
Sim, é verdade, segundo os equilíbrios pontuados as espécies estão geralmente em estase morfológica — oscilando para lá e para cá, mas reconhecíveis como espécie morfológica por milhões de anos de sua existência. A ideia de estase, portanto, nega que, se tivéssemos um registro fóssil bem completo, veríamos uma espécie se transformando em outra gradualmente. De fato, em geral não vemos isso no registro fóssil. Também é verdade que a ausência de “fósseis transicionais” é um problema que existe entre espécies, especificamente pares de ancestral-descendente. Não deveríamos observar essa transformação gradual, pois ela ocorre rápido demais para os padrões geológicos, em pequenas populações isoladas. Mas os equilíbrios nada dizem sobre fósseis transicionais entre grupos mais elevados que espécies — eles existem aos montes.
O problema, então, é quando se diz que a mudança ocorre em “saltos evolutivos rápidos e radicais”. O que é rápido? Qual o padrão? Segundo os equilíbrios pontuados, essa rapidez é relativa, entendo, como padrão, aos milhões de anos em estase. Ainda assim, o processo de mudança evolutiva em populações isoladas pode levar dezenas de milhares a centenas de milhares de anos.
Adicionalmente, o que é uma mudança radical? Mais uma vez, falta um padrão. Mas se a ideia é dizer que os equilíbrios sugerem uma brusca mudança morfológica, nos moldes do saltacionismo, então isso não é uma boa descrição da teoria. É preciso que algo fique muito claro: embora o saltacionismo seja consistente com os equilíbrios pontuados, eles não são necessários nessa teoria. Como já discuti aqui, equilíbrios pontuados e saltacionismo não são sinônimos.
Os padrões de estase e pontuações podem ser produzidos tanto pela mudança saltacional quanto por uma mudança menos abrupta, acumulada ao longo de algum tempo (mais uma vez, dezenas a centenas de milhares de anos).
Outra parte da matéria diz que “embora alguns fósseis deem suporte a esse padrão, a comunidade científica permanece dividida: isso é uma regra da evolução ou uma exceção?”. Sim, é verdade que continuamos a busca para estabelecer a frequência relativa dos diferentes modos evolutivos (gradualismo filético vs equilíbrio pontuado, por exemplo), mas não são “alguns fósseis” que dão suporte aos equilíbrios pontuados.
Em tempo: modos evolutivos são padrões de mudança observados na evolução das espécies ao longo do tempo. O gradualismo filético propõe que a evolução ocorre de forma lenta e consistente, com pequenas mudanças acumuladas gradualmente. Já os equilíbrios pontuados sugerem longos períodos de estabilidade (estase), interrompidos por mudanças relativamente rápidas associadas à formação de novas espécies (especiação).
Considere, por exemplo, o que diz o paleontólogo Bruce Lieberman em artigo publicado esse ano na prestigiada Paleobiology sobre a prevalência da estase morfológica:
“Muitos exemplos convincentes de estase foram reunidos entre 2008 e 2023, demonstrando que a estase é um fenômeno comum, mesmo em clados que passam por radiações evolutivas rápidas e diversificação (Van Bocxlaer e Hunt 2013). Estimativas da prevalência do gradualismo filético — frequentemente definido, nos últimos 15 anos, como mudança direcional — também continuam a demonstrar que ele é incomum, ocorrendo em apenas cerca de 13% dos casos analisados (Hunt et al. 2015), ou até relativamente raro, sendo identificado talvez em menos de 5% das vezes (Hopkins e Lidgard 2012; Hunt e Rabosky 2014)”.
E sobre a importância da mudança cladogenética (ou seja, mudança que ocorre na formação de uma nova linhagem, quando uma nova espécie se separa da ancestral, como um novo ramo se destacando na árvore da vida) em relação à mudança anagenética (essencialmente, a expectativa do gradualismo filético, de evolução agindo consistentemente ao longo de milhões de anos, com uma espécie lentamente transformando-se em outra, sem ramificação visível):
“Desde 2008, uma série de estudos tem se concentrado na análise de filogenias moleculares para testar a hipótese dos Equilíbrios Pontuados (EP)... Esses estudos incluíram o desenvolvimento de novas abordagens... que, em última análise, fortaleceram o apoio ao EP ao demonstrar que quantidades significativas de mudança molecular estão concentradas nos momentos de especiação e cladogênese e, além disso, que uma parcela substancial da evolução do tamanho corporal em mamíferos ocorre durante períodos de cladogênese rápida (Mattila e Bokma 2008; Monroe e Bokma 2009). A consequência dessa constatação é que a quantidade de mudança anagenética deve ser muito menor do que seria prevista sob o gradualismo filético. Esses estudos mostraram, em última instância, que 'a evolução pontuada é comum e amplamente distribuída nos dados de sequência gênica'” (Venditti e Pagel 2008: p. 274)”. (ênfase minha)
Em tempo, Lieberman se refere ao período entre 2008 e 2023 porque é o recorte de seu artigo, a partir do desenvolvimento de metodologias computacionais modernas para lidar com o problema de acessar a frequência relativa dos modos evolutivos alternativos. Mas o suporte empírico aos equilíbrios pontuados existe há décadas!
O estudo que inspirou a matéria discutida aqui foi publicado na Nature Ecology and Evolution. Os pesquisadores resumiram suas descobertas da seguinte maneira:
“Em suma, nosso estudo ilustra como mudanças saltacionais, e não graduais, desempenharam um papel importante durante a evolução de uma linhagem animal caracterizada por uma série de inovações morfológicas e ecológicas, oferecendo novas perspectivas sobre o modo e o ritmo da macroevolução em animais”.
Então, para ser sincero, sim, o estudo relatado dá algum apoio ao saltacionismo, que é de fato alternativo ao gradualismo darwiniano. O que deveria estar sendo reportado na mídia é isso, não necessariamente a conexão com os equilíbrios pontuados. O saltacionismo é alternativo ao darwinismo porque enfraquece a seleção natural como “força criativa” das novidades evolutivas. Se grandes novidades podem surgir sem a ajuda da “mão” da seleção natural, então essas novidades evoluíram de forma não darwiniana. E não há problema algum nisso. Como sempre digo: saltacionismo ocorre. A questão não é se ocorre, mas quanto da diversidade biológica pode ser explicada dessa forma? O bom e velho gradualismo (que não é a mesma coisa que gradualismo filético!) ainda parece ser mais comum.
Para finalizar, devo dizer que nem mesmo os próprios pesquisadores estão livres de incorrer em erro ao falar sobre esses temas. Veja o que disse Rosa Fernández, coautora do estudo, em uma matéria publicado no exterior:
“Ambas as visões, a de Darwin e a de Gould [aqui ela simplesmente excluiu Eldredge, sabe-se lá por quê], são compatíveis e complementares [concordo, até certo ponto]. Enquanto o neodarwinismo pode explicar perfeitamente a evolução das populações, ele ainda não conseguiu explicar alguns episódios excepcionais e cruciais na história da vida na Terra. Esses eventos incluem, por exemplo, a explosão inicial da vida animal nos oceanos há mais de 500 milhões de anos, ou a transição do mar para a terra há 200 milhões de anos, no caso das minhocas. É aí que a Teoria dos Equilíbrios Pontuados pode oferecer algumas respostas”.
Ai! Não, a solução não virá daí, pois não é disso que a teoria trata! Sim, talvez devêssemos pensar de forma que não seja estritamente darwiniana, mas é preciso não confundir fulano com beltrano. A perspectiva dos equilíbrios pontuados já traz uma visão ampla sobre os padrões da evolução no tempo profundo — a macroevolução —, mas os mecanismos embriológicos e evolutivos que dão origem a novas formas estão fora do escopo da teoria.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
