Ideologias políticas cultivam pseudociências de estimação

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9 set 2024
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Não importa o grau de irracionalidade da crença, sempre haverá uma justificativa “plausível” para que as pessoas defendam a pseudociência de estimação. Refletir sobre o motivo que leva cidadãos intelectualmente razoáveis a acreditar em coisas sem sentido tem sido objeto do estudo de profissionais de diversas áreas. No livro “Por que pessoas acreditam em coisas estranhas”, o psicólogo americano Michael Shermer investiga o problema e, embora não chegue a uma única conclusão, observa que, em média, pessoas inteligentes têm uma capacidade maior para inventar boas desculpas para as fantasias.

O pensamento conflitante, com a defesa de ideias mutuamente excludentes, mostra que, embora a modernidade tenha trazido notáveis avanços tecnológicos, na essência a Humanidade de hoje não difere muito da de séculos passados. Com decisões baseadas primordialmente em paixões e posicionamentos políticos radicais, sejam progressistas ou reacionários, grupos que se dizem pró-ciência reagem com embaraço a críticas à homeopatia, e pessoas que atacam as vacinas ignoram o aumento global da expectativa de vida trazido pelos imunizantes.

Falta de boa fundamentação e de razão são características da defesa passional de algo, já dizia Bertrand Russell. Neste caso, ainda que a postura cética não seja uma panaceia, ela fornece ferramentas para que hipóteses sejam testadas à exaustão antes de serem aceitas como fatos. Por esse mesmo caminho, é possível entender o caráter conservador da própria ciência e traçar um paralelo com o conservadorismo no âmbito social.

O filósofo inglês Michael Oakeshott, no livro Rationalism in Politics, apresenta uma visão positiva do conservadorismo social: “ser conservador, então, é preferir o familiar ao desconhecido, é preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o riso presente à felicidade utópica”. A ideia é que mudanças sejam feitas de maneira cuidadosa e embasada em fatos – não apenas em desejos.

De acordo com o ideário conservador, as propostas de mudança devem ainda focar em um problema bem definido: propostas com objetivos amplos ou difusos – ação pela paz mundial, manifestos em defesa da ciência e da vida ou projetos em defesa da moral e dos bons costumes – deveriam ser reservados para concursos de beleza. Em ciência, os projetos também devem ser considerados de maneira restrita, já tivemos casos vexatórios como a fosfoetanolamina sintética que se propunha a curar todos os cânceres.

O respeito à tradição no conservadorismo, àquelas ideias que sobreviveram aos testes do tempo, não deve ser confundido com um comportamento reacionário, que exalta e deseja um retorno ao passado. A tradição no pensamento conservador deve ser encarada como algo a ser levado em conta, mas que deve ser abandonado ao entrar em conflito com a própria realidade.

A forma idealizada do conservadorismo descrita até aqui pode dar a falsa impressão de que os princípios teóricos se refletem no dia a dia daqueles que se autodenominam conservadores. Na prática, porém, o que vemos são pessoas penduradas em para-brisa de caminhão, acampando na frente de quartéis e pregando a volta da monarquia.

O pensamento falacioso do apelo à antiguidade como condição suficiente para encarar algo como válido não surpreende muito quando aparece junto a reacionários, mas causa espanto quando proveniente de intelectuais progressistas. Neste caso, o comportamento contraditório aparece quando, do ponto de vista político, assumem uma postura que prega o rompimento com a tradição, endossando de maneira precipitada teses que sequer foram testadas, ao mesmo tempo que se agarram a um reacionarismo, defendendo práticas que não encontram lastro na realidade.

Um dos exemplos notórios é a homeopatia. Criada no final do século 19, antes mesmo da teoria dos germes, a prática se baseia em dois axiomas. Um deles é que semelhante cura semelhante: substâncias que causam sintomas semelhantes a uma enfermidade podem ser utilizadas para curar a própria enfermidade. Cafeína serviria para curar insônia.

O segundo axioma foi criado em complementação ao primeiro. Não é qualquer quantidade de cafeína que poderia curar a insônia, mas somente doses extremamente diluídas, tão diluídas até o ponto de não haver absolutamente nenhuma molécula ativa do soluto na solução final. Este segundo axioma apoia-se em uma completa fantasia a respeito da água – de que ela guardaria uma memória residual do princípio ativo que foi chacoalhado com ela.

Em algum momento da história, as suposições acima em relação à homeopatia podem ter feito algum sentido, mas atualmente não passam de fantasia. Mesmo assim, grande parte das associações científicas, da mídia e até mesmo da própria academia, geralmente vistas como progressistas, adotam uma postura reacionária de retorno a uma época em que nem existia a radiografia. Este pensamento conflituoso poderia ser apenas um exemplo pitoresco, caso a homeopatia não estivesse sendo ensinada e praticada em instituições públicas.

Do outro lado do espectro político, os reacionários repetem o mesmo negacionismo antivacina do início do século 20, logo após a popularização da vacina contra a varíola. A Revolta da Vacina, ocorrida em 1904 no Rio de Janeiro, então capital do país, colocou pessoas contrárias à vacinação obrigatória contra a varíola com argumentos que iam desde a agressão à liberdade individual até a famigerada conspiração mundial liderada pela “big pharma” – ou seja, mesmo com mais de 50 anos do Programa Nacional de Imunizações, aumentando em mais de 30 anos a expectativa de vida do brasileiro, pessoas continuam repetindo a mesma ladainha dos anos 1900.

Nas palavras do cientista político Samuel Huntington, tanto faz destruir o presente em nome de um comportamento revolucionário ou reacionário. Neste caso, o conservadorismo/ceticismo da ciência, submetendo qualquer hipótese a inúmeros testes e questionamentos, poderia ser aplicado com mais frequência no âmbito político. De maneira mais enfática José Ortega y Gasset, no livro “A Rebelião das Massas”, colocou: “Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas da hemiplegia moral”.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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