“Datafobia”, o medo de informação que ameaça o Brasil

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23 ago 2019
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Homem ameaçado por fantasma

Muitas pessoas têm medo de baratas. De acordo com o pesquisador Albertino Rafael, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o habitat dos animais influencia o julgamento humano sobre quais bichos devemos temer.

Quanto mais asqueroso o meio circundante, maior nossa repugnância. Algumas pessoas têm medo do escuro, crianças mais do que adultos. Na música “Fear of the Dark”, Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, afirma que se sente ansioso quando está escurecendo. E algumas pessoas têm medo dos dados, em geral, políticos e gestores governamentais. Em 19 de julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro questionou a confiabilidade das informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) relativas ao desmatamento da Amazônia. O chefe do Executivo Nacional expressou sintomas do que iremos denominar aqui de datafobia.

Bolsonaro disse suspeitar que o então diretor do órgão, Ricardo Magnus Osório Galvão, estaria “a serviço de alguma ONG” com o objetivo de prejudicar imagem do Brasil no cenário internacional.  No dia 1 de agosto de 2019, o presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participaram de um evento para discutir novamente a validade dos dados divulgados pelo Inpe. 

Quando questionado sobre qual o exato valor do desmatamento, o ministro afirmou que “a nossa preocupação não é trabalhar para criar número, seja número qual for. É dizer que o número, da forma como foi apresentado, e a análise que foi feita, não estava correta”. Já Bolsonaro disse que “na minha opinião, parece que está aumentando, mas não desta forma como foi divulgado”. Como bem colocado pelo professor Claudio Ferraz em um artigo recente sobre o assunto: “afirmações que seriam aceitáveis somente numa discussão de bar passaram a fazer parte do discurso oficial do presidente Jair Bolsonaro e de seus ministros”.

Políticas públicas devem ser guiadas por evidências científicas, e não por opinião. Por um motivo muito simples: opiniões podem estar erradas. Muito erradas. Por exemplo, algumas pessoas realmente acreditam que “a terra é plana”. Outras acham que “vacinas causam autismo”. E tem gente que defende que “os portugueses não pisaram na África em busca de escravos”. Essas proposições são falseáveis, ou seja, são passíveis de refutação mediante observação empírica: e foram falseadas pela evidência.  

A terra não é plana. Ponto. Não existe nenhuma evidência consistente que relacione a vacinação ao autismo. Ponto. E sim, existem registros confiáveis de que portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses estiveram na África em busca de escravos. 

A incapacidade de compreender o papel da evidência limita as possibilidades objetivas dos governos em utilizar o conhecimento disponível para melhorar a qualidade de vida da população.   

Para evitar a tuberculose, podemos tomar a BCG ou visitar uma benzedeira. Para nos proteger contra sarampo, rubéola e caxumba, podemos tomar a tríplice viral ou rezar contra o vírus.  Para saber o sexo do bebê, podemos fazer simpatias com cabelo e aliança ou um ultrassom. Para curar anemia podemos ingerir alimentos ricos em vitamina B12ou visitar um curandeiro. Em todos os casos, a escolha mais segura é sempre a baseada em ciência. 

Não importa a sua opinião. Nem a minha, nem a do presidente. Por que na área de políticas públicas seria diferente? Não é. Instituições como o Banco Mundial tem desempenhando um importante papel na difusão do conceito de evidence-based-policy, o que significa que as decisões governamentais devem ser ancoradas em evidências científicas. O EGAP (Evidence in Governance and Politics) reúne uma rede de pesquisadores preocupados com a produção de evidências confiáveis que possam subsidiar o processo de tomada de decisão e a formulação de políticas públicas. Um dos principais objetivos do Berkeley Initiative for Transparencyin the Social Sciences (BITSS) é fortalecer a qualidade da pesquisa social e da evidência ofertada aos gestores públicos.  

Infelizmente, todavia, o Brasil ainda engatinha quando o assunto é a implementação de políticas baseadas em evidências (“evidence based policy”) ou avaliação do impacto dos programas governamentais. 

A propósito, em 18/08/2019, os dados oficiais do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) confirmam as informações catalogadas pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Ao que tudo indica, o desmatamento observado é ainda maior do que o anteriormente estimado. Em um estudo recente sobre o assunto, conduzido pela Universidade de Oklahoma a partir de uma metodologia mais precisa, o Brasil perdeu cerca de 400 mil km2de floresta, mais do que o dobro do registrado pelo Sistema Prodes. A conclusão é bastante simples: ou o presidente e seus ministros estão de fato infectados pela datafobiaou Prodes, Deter e a Universidade de Oklahoma estão sorrateiramente conspirando para depreciar a imagem do Brasil.  

Como já dizia Carl Sagan, as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período da história. É alarmante, para dizer o mínimo, que algumas pessoas ainda contestem a teoria da evolução, enquanto outras seguem negando o aquecimento global. Mas afinal, qual é a relevância de opiniões demonstravelmente falsas? 

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Tecnicamente, qualquer intervenção na realidade social deve ser planejada a partir da análise rigorosa de dados. Depois de implementadas, as políticas públicas devem ser avaliadas, com o objetivo de estimar em que medida produziram os seus efeitos esperados. A ausência de ferramentas sistemáticas de coleta e processamento de informações dificulta o controle social sobre a administração pública, inviabiliza a avaliação de políticas públicas e reduz a transparência das ações governamentais. E aí apenas nos resta viver em um mundo assombrado por demônios. 

 

Dalson Britto Figueiredo Filho é professor-assistente de Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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