Polilaminina e o dano ao letramento científico

Artigo
20 fev 2026
Autor
criança aprendendo o básico sobre ciência

 

O fundamental que precisava ser dito, do ponto de vista da comunicação e da percepção pública da ciência, sobre o atual clima de Copa do Mundo antecipada que se vai criando em torno das pesquisas sobre o uso da molécula polilaminina no tratamento de lesões medulares, já está contido em artigo de setembro do ano passado, assinado nesta Revista Questão de Ciência pelo físico Marcelo Yamashita.

Infelizmente, de lá para cá, o nível de ruído em torno do assunto só aumentou. Os estudos, encabeçados pela bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já viraram até combustível para a aparentemente inesgotável sede de polarização política das redes, com uma torcida alucinada tentando empurrar vozes mais críticas ou cautelosas para o canto dos “traidores da Pátria”.

O dado bruto, no entanto, é que tudo o que se tem a respeito da eficácia da polilaminina em humanos vem de um número pequeno de casos, cuja descrição técnica, no momento, só existe como pré-print. Até que estudos controlados de boa qualidade sejam realizados, é irresponsável — para não dizer desonesto — cantar loas ao tratamento. É importante manter em mente que o processo científico de testes clínicos não é uma “frescura” burocrática: a rigor, até que os resultados de testes controlados de boa qualidade estejam disponíveis, a verdade é que ninguém realmente sabe se um tratamento é eficaz ou não, ou quais são seus possíveis efeitos adversos.

Exceto em situações muito raras e especiais, em que a eficácia da intervenção é garantida por leis básicas da natureza — paraquedas são o exemplo clássico — ou o efeito registrado é tão grande que se torna autoevidente (aqui, o exemplo mais comum é a vitamina C para escorbuto), comparações justas entre grandes grupos são a única forma de comprovar relações de causa e efeito quando se fala em saúde. Essa é uma lição que a Humanidade aprendeu a duras penas, ao longo de milênios dominados por tratamentos aparentemente eficazes que, na verdade, eram inúteis ou, pior, abreviavam as vidas que pretendiam salvar.

Comoção pública em torno de medicamentos ou tratamentos ainda não devidamente testados é sempre preocupante: a história da ciência em geral, e da medicina em particular, está repleta de fenômenos e curas que foram abraçados pela opinião pública antes do tempo e que acabaram frustrando expectativas ou, até mesmo, causando danos.

A história brasileira dos últimos dez anos assistiu às tragédias da fosfoetanolamina sintética, irresponsavelmente promovida como cura universal para o câncer, e da cloroquina e da ivermectina para COVID-19. O fato de a imprensa e, o que é ainda mais chocante, de uma parcela estridente dentro da própria comunidade científica aparentemente não terem aprendido nada com essas lições é lamentável.

 

Plausibilidade

Muitos rejeitam a comparação do caso atual da polilaminina com as crises anteriores, notando que o tratamento proposto para lesão medular tem plausibilidade muito maior — isto é, mesmo antes dos testes, pensando apenas em termos teóricos, a polilaminina “faz sentido” (médico, biológico) de um jeito que a “fosfo”, a cloroquina e a ivermectina nunca fizeram.

Do ponto de vista do dano à cultura científica, à compreensão pública da ciência, ao letramento científico da população e à qualidade e racionalidade das políticas públicas, no entanto, a distinção é de pouca relevância. E o potencial de frustração ainda é enorme: estimativas otimistas põem em cerca de 15% a chance de uma terapia que entra em fase 1 de testes clínicos se mostrar realmente segura e eficaz. Essa é a fase em que o estudo da polilaminina se encontra no momento.

A criação de expectativas prematuras e, por isso mesmo, possivelmente exageradas pode ter consequências negativas de curto e de longo prazo. No curto prazo, o interesse aumentado do público gera estímulo ao uso irresponsável, à judicialização e à politização de uma questão técnica, produz pressão em favor de decisões de política pública que serão precipitadas e, por isso mesmo, potencialmente desastrosas. Também estabelece condições para a busca de “atalhos” no processo de liberação do tratamento.

Durante a pandemia, a Anvisa resistiu heroicamente às pressões do então presidente Jair Bolsonaro para que os tratamentos “de estimação” daquele governo fossem aprovados sem o rigor científico necessário. Seria tragicômico se o governo Lula, que gosta de se apresentar como a antítese do obscurantismo anticientífico de seu predecessor, acabasse se prestando ao mesmo papel.

 

 

Confiança pública

No longo prazo, caso o tratamento se mostre menos eficaz ou mais perigoso do que as promessas prematuras sugeriam, ocorre desgaste da confiança pública na ciência, reforçando a síndrome de “cientistas não sabem o que dizem”, “não dá para confiar na ciência” etc.

Também já estão sendo plantadas as sementes do negacionismo: caso o tratamento acabe falhando pelo caminho — destino de 85% dos produtos que iniciam a jornada dos testes clínicos — haverá aqueles que, hiperestimulados pela propaganda antecipada, vão se recusar a aceitar o resultado.

Mesmo que o tratamento se mostre bem-sucedido, há o impacto cultural de reforçar o mito do “gênio” individual, que tem uma intuição superior ao método científico. Esse é um mito que, ao disseminar-se na sociedade, abre caminho para diversos tipos de abuso e exploração.

 

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto).

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