Ministério da Ciência precisa se lembrar de que é "da Ciência"

Editorial
24 jul 2019
Julgamento de Galileu

Condenado à morte por não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e a corromper os jovens, Sócrates poderia ter modificado a sua pena após o veredicto da condenação. Ele, porém, preferiu não fazer concessões. Propor a própria pena seria aceitar uma culpa que não existia em sua consciência. Galileu Galilei, ao ser obrigado a renegar o heliocentrismo em frente a um tribunal da inquisição, teria murmurado "eppur si muove" (mas se movimenta), referindo-se ao fato de que a Terra gira ao redor do Sol. As duas situações são exemplos, talvez extremos, de sustentar, ou preservar, alguma dignidade frente às imposições do poder político.

Recentemente, o Presidente da República, ao se referir aos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento da Amazônia, declarou que "nosso sentimento é que isso não coincide com a verdade, e parece até que [o presidente do Inpe] está a serviço de alguma ONG". Essa afirmação, leviana e irresponsável, não possui lastro em nenhum fato, nem é sugerida pela evidência. Nasce de processos mentais totalmente alheios à razão e ao método científico.

Esta não é a primeira vez que altas autoridades do atual Executivo Federal reagem à verdade científica com o que só pode ser descrito como chiliques de crianças mimadas. Dos ataques aos dados de desemprego apurados pelo IBGE à supressão forçada das conclusões da Fundação Oswaldo Cruz sobre a situação do abuso de drogas no país, vemos um padrão pueril que se estabelece.

A vítima mais recente, o Inpe, criado em 1961, é uma Instituição respeitada no Brasil e no exterior. O atual diretor do Instituto, Prof. Ricardo Magnus Osório Galvão, é um cientista sério e reconhecido mundialmente pelos seus pares. Já foi presidente da Sociedade Brasileira de Física e diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Um ataque sem fundamentos à integridade pessoal do diretor e da instituição que ele representa é, portanto, inaceitável. 

Dados científicos podem, e devem, ser questionados. Métodos utilizados para as análises de imagens de satélite e posterior aferição do desmatamento, também. É assim que a ciência aproxima-se mais da verdade objetiva: a partir da crítica competente e do debate técnico. “Competente” e “técnico” são palavras-chave aí. 

É pouco provável que um cidadão sem o treinamento necessário em ciência e nas tecnologias específicas do imageamento remoto possa produzir críticas bem fundamentadas aos dados fornecidos pelo Inpe. Ao realizar um ataque ad hominem ao Prof. Galvão, o atual ocupante do gabinete presidencial desonra o cargo que exerce. 

Voltemos aos exemplos de Sócrates e Galileu. Até onde o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – ao qual o Inpe é vinculado – está disposto a ir para agradar aos inimigos da ciência?  Recentemente, o Ministro Marcos Pontes saiu em defesa do Presidente através de uma nota oficial onde declara compartilhar da "estranheza expressa pelo nosso presidente Bolsonaro quanto à variação percentual dos últimos resultados na série histórica [dos dados de desmatamento]". 

Não temos expectativa de encontrar algo muito razoável referente à ciência em outros ministérios, mas no MCTIC? Onde está a razoabilidade de uma crítica ad hominem ao diretor do Inpe e à veracidade dos dados divulgados? Nenhuma. Isso é científico? Não é. Senhor Ministro, arriscamos dizer que nem o senhor esteja muito convicto daquilo que escreveu. Todos sabemos que não existe nada de ciência na nota em defesa da fala do Presidente. 

Como já é frequente neste governo, vimos que o Presidente arrefeceu o teor da sua primeira declaração, dizendo que está acostumado com uma hierarquia e que gostaria de ver os dados antes de serem publicados. Disse ainda que "a questão ambiental, o mundo todo leva em conta. Outros países que estamos negociando a questão do Mercosul, ou até acordos bilaterais, nos dificulta com a divulgação desses dados. Temos que ter responsabilidade". 

Senhor Presidente, responsabilidade está em adotar uma política ambiental séria. O problema não está nos dados divulgados, mas naquilo que eles revelam: o aumento do desmatamento da Amazônia, estimulado por palavras e ações de seu governo.

A Bíblia, talvez o único livro consultado atualmente na Esplanada dos Ministérios, diz, em Mateus (6:24), que “ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro”. Esperamos que o Ministro Pontes opte por honrar o nome do ministério que ocupa.

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