
Há uma cena que se repete em debates sobre saúde, terapias alternativas e práticas sem comprovação de eficácia. A exigência de evidências científicas para embasar decisões em saúde ou em políticas públicas acaba recebendo o rótulo de “cientificismo".
Isso, na maioria das vezes, deflagra uma discussão circular sobre os limites da ciência que não diz nada a respeito da necessidade de critérios para definir se um tratamento ou intervenção de saúde é ou não eficaz. E aí está o que acho mais interessante neste fenômeno: como uma pergunta tão modesta ("isso funciona? como você sabe?") pode se transformar em uma acusação contra quem perguntou (“cientificista”)?.
Suspeito que parte da resposta para esse pequeno mistério esteja escondida em um detalhe gramatical que passa despercebido: a diferença entre sufixos.
Dois sufixos, dois mundos
Em português, o sufixo "-idade" costuma indicar uma propriedade, uma qualidade que algo possui em maior ou menor grau. Já o sufixo "-ismo" costuma indicar uma doutrina, um sistema de crença, ou, em muitos casos, o exagero de uma qualidade até o ponto em que ela se torna outra coisa.
Pense em "moralidade" e "moralismo". Moralidade é uma propriedade: dizemos que uma ação, uma pessoa ou uma instituição tem mais ou menos moralidade, dependendo de quão bem se sustenta diante de princípios éticos. Moralismo é outra coisa: é a postura de quem aplica julgamentos morais de forma rígida, descontextualizada, e frequentemente fora do lugar. Uma pessoa pode ter elevada moralidade sem o menor traço de moralismo, por exemplo.
Podemos pensar também em "legalidade" e "legalismo". Legalidade é a propriedade de estar em conformidade com a lei. Legalismo é a doutrina (ou vício) de tratar a letra da lei como mais importante do que seu propósito, mesmo quando isso produz resultados absurdos ou injustos. Uma decisão pode ter legalidade plena e, ainda assim, ser definida por bom senso, não por legalismo. E o oposto também é possível: o legalismo pode, inclusive, ser usado para violar o propósito da legalidade, escondendo-se atrás de tecnicismos.
"Cientificidade" e "cientificismo" seguem um padrão semelhante. Cientificidade é uma propriedade: o grau em que uma afirmação, um método ou uma prática se expõe ao teste, aceita correções, e não se protege de antemão contra qualquer resultado possível. Cientificismo, por outro lado, é uma postura: a de tratar o método ou a autoridade da ciência como aplicáveis a qualquer situação, como se não houvesse limites a seu alcance.
Uma afirmação pode ter cientificidade sem que ninguém, ao defendê-la, esteja praticando cientificismo. E uma pessoa pode ser cientificista (no sentido de tratar a ciência como árbitro de tudo) sem que isso tenha qualquer relação com o grau de cientificidade da afirmação específica que está sendo discutida no momento.
É essa distinção, bastante simples quando explicitada (mas quase sempre ignorada na prática), que norteia este texto.
O que cientificidade significa
A pergunta "isso tem cientificidade?" tem origens filosóficas que se relacionam com o complexo “problema da demarcação”, ou seja, o esforço para distinguir afirmações científicas de afirmações pseudocientíficas, metafísicas, ou simplesmente vazias de conteúdo.
A resposta mais conhecida, de Karl Popper, é que uma afirmação tem cientificidade na medida em que é falseável: na medida em que existe, ao menos em princípio, alguma observação possível que a contradiria, caso ela fosse falsa. "Esse medicamento reduz a pressão arterial em 10 mmHg, em média, comparado a placebo" prevê algo específico, que pode não se confirmar. "Esse cristal realinha as energias do seu corpo" não, uma vez "energia" e "realinhamento", nesse contexto, não correspondem a nada que se possa medir ou observar de forma independente.
Mas cientificidade não se limita a falseabilidade, uma vez que a discussão do problema da demarcação não se encerrou ali. Também envolve coisas como: a afirmação foi de fato testada, e não apenas declarada testável em tese? O teste foi replicado por outras pessoas, em outras condições? Existem mecanismos de revisão caso novas evidências apareçam? Há transparência suficiente para que outros possam verificar o que foi feito? Cientificidade, no entendimento contemporâneo, não é um selo binário, mas um espectro.
O ponto mais importante talvez seja o seguinte: cientificidade é uma propriedade de afirmações específicas. Não é uma visão de mundo. Perguntar se uma afirmação tem cientificidade exige apenas que se trate aquela afirmação específica como uma afirmação sobre a realidade e, portanto, sujeita ao tipo de verificação que afirmações sobre a realidade comportam.
Cientificismo
O termo "cientificismo" tem uma história mais longa e mais sinuosa. No início do século 19, era um termo usado para descrever os hábitos e a linguagem de "homens de ciência". Foi na década de 1930, entre escritores franceses, que o termo começou a circular como crítica a propostas como o positivismo lógico (que buscava fundamentar o conhecimento legítimo exclusivamente na lógica formal e na verificação empírica). O economista Friedrich Hayek, numa série de artigos reunidos no livro The Counter-Revolution of Science (1952), popularizou o termo em inglês com o sentido que estamos discutindo aqui: cientificismo como a imitação da forma da ciência sem sua substância.
Hayek estava preocupado especificamente com as ciências sociais de sua época, pela importação (sem reflexão adequada) do aparato formal das ciências naturais (como equações, leis, previsões etc.) sem que houvesse, por trás dessa importação, o mesmo tipo de testagem rigorosa que dá a essas ferramentas seu valor.
Há também um sentido mais amplo: tratar a ciência como a única fonte legítima de conhecimento, inclusive sobre questões que não são, por natureza, empíricas. "O que é uma vida bem vivida?", "o que torna uma obra de arte bela?" etc. são perguntas para as quais a ciência pode, no máximo, oferecer pistas relevantes, mas não respostas definitivas.
Ambos os sentidos acima descrevem uma extensão indevida do método ou da autoridade da ciência para além de seu domínio e de suas limitações. A discussão sobre cientificismo, portanto, é uma discussão sobre escopo. Sobre até onde a ciência (ou a expectativa de cientificidade) deveria ou é capaz de ir.
Podemos notar também aquilo que nenhum desses sentidos descreve: perguntar se uma afirmação específica sobre o mundo físico tem evidência a seu favor. Essa pergunta não se estende nada além de seu domínio óbvio. Ela está, por definição, dentro do território em que a cientificidade é o critério relevante.
Mudança de domínio
Há uma variação da mesma troca, ainda mais sutil, que vale destacar separadamente. Em vez de responder à pergunta sobre evidência chamando-a diretamente de cientificismo, alguns interlocutores preferem um passo anterior: redefinir a própria afirmação, de modo que ela pareça não pertencer mais ao domínio em que a cientificidade é o critério relevante.
"Minha prática não pode ser avaliada pelos métodos científicos convencionais" é a frase típica dessa manobra. Ela converte uma afirmação empírica ("X produz o efeito Y no organismo de quem o recebe") em algo mais parecido com uma afirmação sobre afinidade, cultura ou crença pessoal (domínios em que exigir cientificidade poderia configurar uma forma de cientificismo).
O problema é que a afirmação original nunca deixou de ser empírica. "Esse óleo essencial reduz a inflamação" é uma afirmação sobre química e fisiologia, não sobre uma preferência estética. "Essa terapia reorganiza seus meridianos energéticos e melhora sua imunidade" é uma afirmação sobre a saúde humana e não sobre significado pessoal. Redefinir essas afirmações como pertencentes a "outro tipo de conhecimento", que seria incompatível com testes convencionais, não as remove do domínio da cientificidade.
Ou seja, primeiro, muda-se o domínio da afirmação (de "efeito físico mensurável" para algo vagamente classificado como "outra forma de saber"); depois, qualquer exigência de cientificidade nesse novo domínio passa a parecer uma extensão indevida, ou seja, cientificismo. A acusação se torna, assim, aparentemente verdadeira, mas apenas porque a afirmação original foi substituída por outra.
Troca injusta
Agora voltemos à ideia inicial. Alguém pergunta, sobre uma prática terapêutica qualquer, se existe evidência de que ela funciona melhor do que placebo. Essa é uma pergunta sobre cientificidade: pede-se que uma afirmação específica ("este tratamento produz este efeito") seja avaliada pelo critério apropriado a afirmações desse tipo.
A resposta "isso é cientificismo” responde a uma pergunta adequada sobre cientificidade como se fosse uma tentativa de cientificismo. É como se, diante da pergunta "isso é honesto?", alguém respondesse "pare de moralismo!", substituindo uma pergunta sobre uma propriedade específica (esta ação é honesta?) por uma acusação sobre uma postura geral (você julga tudo moralmente). Na prática, poucos notam que a pergunta original não foi respondida. Foi apenas substituída por uma pergunta completamente diferente, sobre a pessoa que perguntou e não sobre o que foi perguntado.
Por que a troca funciona tão bem? Porque "cientificismo", em seu emprego adequado, é um conceito relevante (e a maioria das pessoas, incluindo quem defende a prática baseada em evidência, concordaria que a ciência não resolve tudo, não é infalível, e não deveria ser tratada como religião). Ao ouvir "isso é cientificismo", muita gente reage ao que a palavra poderia significar (fé exagerada e absoluta na ciência), não ao que ela está sendo usada para fazernaquele momento específico (evitar responder se existe evidência para “X”).
E aqui está o efeito adverso mais grave da troca: ela transforma a ausência de evidência em vitória retórica. Se a defesa de "X funciona" não precisa mais responder "onde estão os dados?", porque essa pergunta foi recategorizada como sintoma de uma postura ideológica equivocada, então a ausência de dados deixa de ser um problema para “X”. O problema, supostamente, passou a ser a pessoa que insiste em perguntar. É importante notar ainda que essa troca não exige má intenção. Muitas vezes, quem recorre a ela acredita que está identificando um excesso.
E, a exemplo do que comentamos sobre a Falácia do Inquisitor Perseguido, é curioso notar quem, nessas discussões, está mais perto de praticar o cientificismo. Termos como "frequência vibracional", "memória celular", "energia quântica" ou "epigenética do trauma" aparecem nos discursos que defendem práticas sem cientificidade porque tentam sequestrar a autoridade científica de disciplinas como física e biologia, sem se submeter aos processos que tornam essas disciplinas confiáveis.
Em outras palavras: a acusação de "cientificismo" frequentemente parte de quem mais se aproxima da definição original do termo, e é dirigida a quem está apenas fazendo a pergunta mais básica a que qualquer afirmação sobre o mundo físico deveria responder.
Considerações finais
Cientificidade e cientificismo não são sinônimos. A primeira diz respeito à disposição de uma afirmação para se expor ao teste. O segundo, à pretensão de transformar a ciência em resposta para tudo. Confundir os dois conceitos faz com que a pergunta mais básica que se pode fazer sobre uma alegação passe a parecer uma forma de intolerância intelectual.
Imagine a mesma ideia do início do texto, mas com outro desfecho. Alguém pergunta se há evidência de que um tratamento funciona melhor que placebo. E a resposta é: "Sim, há alguns ensaios clínicos, com resultados consistentes." Ou: "Ainda não existem estudos de boa qualidade sobre isso, só relatos isolados." Ou, então: "Não sei. Vou procurar e te conto."
O fato é que, no fim, nenhuma discussão sobre cientificismo elimina a necessidade de responder à pergunta mais simples de todas: como você sabe isso que acaba de afirmar?
André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)
