Pseudociências são vítimas de "inquisição"?

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25 mai 2026
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multidão furiosa

Em um debate sobre certa prática pseudocientífica, um dos praticantes, que havia acabado de ver seu argumento desmontado por evidências de alta qualidade, recorreu a uma frase muito comum: "Isso é uma inquisição científica. Vocês queimam quem não pensa como vocês, exatamente como a Igreja fazia com as bruxas".

A frase aparece com frequência suficiente para merecer uma análise mais aprofundada. Profissionais e defensores de homeopatia, florais de Bach, constelação familiar, ozonioterapia e dezenas de outras práticas sem evidências de eficácia recorrem à comparação com a Inquisição quase como um reflexo condicionado, quando confrontados com ceticismo organizado. "A ciência virou dogma". "Vocês perseguem quem pensa diferente". "Galileu também foi julgado". "Isso é uma caça às bruxas".

Há uma falácia lógica já batizada na literatura da filosofia da ciência que reflete parte desse raciocínio: o chamado Galileo Gambit ("Apelo a Galileu", em uma tradução mais simples), argumento de que ser perseguido pelo establishment é, por si só, evidência de que se está certo. Galileu foi perseguido e estava certo; eu sou perseguido; logo, estou certo. Carl Sagan apontou o problema da falácia há décadas: "O fato de que alguns gênios foram ridicularizados não implica que todos os que são ridicularizados sejam gênios".

A comparação com a Inquisição, no contexto que citei, é algo que vai um pouco mais além do Apelo a Galileu convencional. Proponho chamá-la aqui de Falácia do Inquisidor Perseguido, um erro lógico cometido por quem ocupa a posição do inquisidor (pois é adepto de uma crença dogmática, imune à evidência, ancorada em autoridade arbitrária), mas se apresenta, retoricamente, como um “herege perseguido”.

 

A Inquisição

A Inquisição, em suas diversas manifestações entre os séculos 13 e 19, era um tribunal eclesiástico cujo objetivo central era a detecção e supressão do desvio doutrinário. Sua principal característica, como sistema cognitivo, estava na natureza da “verdade” que defendia: uma verdade revelada, divina, antiga e impermeável ao questionamento empírico. O Index Librorum Prohibitorum deixou intocados Descartes, Kepler e Newton por muito tempo e, quando os alcançou, a acusação era a de contradizer as Escrituras. O critério de verdade e aceitabilidade era, portanto, conformidade com o dogma, e não correspondência com a realidade observável.

Giordano Bruno foi queimado em Roma em 1600. Entre outras posições consideradas heréticas, defendia ideias cosmológicas incompatíveis com a visão teológica dominante. Galileu foi condenado em 1633 ao isolamento domiciliar por defender o heliocentrismo copernicano com base em observações astronômicas verificáveis. A evidência, nestes casos, era inconveniente pois respaldava empiricamente afirmações que contradiziam o dogma.

O mecanismo inquisitorial era, portanto, o seguinte: 1) a verdade já é conhecida (revelada, estabelecida, sagrada); 2) qualquer evidência que a contradiga carrega suspeita antes mesmo de ser examinada; 3) quem a apresenta responde por heresia.

A realidade objetiva, nessa estrutura, não tem o poder de forçar uma revisão da crença. A crença é tanto o ponto de partida quanto o de chegada.

 

O inquisidor

Agora, apliquemos esse diagnóstico à postura epistemológica da homeopatia e de práticas similares.

Samuel Hahnemann publicou o Organon da Arte de Curar em 1810. Os princípios fundamentais, similia similibus curantur (semelhante cura semelhante) e a lei dos infinitesimais (quanto maior a diluição, maior a potência terapêutica), foram propostos antes do estabelecimento dos ensaios clínicos randomizados, antes da compreensão da estrutura molecular da água e antes de qualquer metodologia capaz de testar suas premissas com rigor. Desde então, mais de dois séculos de testes controlados, revisões sistemáticas e metanálises indicaram que a homeopatia não demonstra eficácia superior ao placebo para nenhuma condição clínica.

Diante disso, o que a homeopatia fez? Revisou seus princípios? Abandonou as premissas que se mostraram inconsistentes com a física e a química modernas? Integrou as evidências negativas como parte de um processo de autocorreção?

Não. Os princípios e os argumentos são os mesmos de 1810. O vocabulário certamente mudou. Hoje, a "memória da água" e a "física quântica" substituem o “éter” e o “vitalismo” hahnemanniano como apropriações do jargão científico que camuflam a obsolescência. Mas a estrutura continua igual: a verdade já está estabelecida, os estudos contrários são descartados como mal-conduzidos, financiados pela indústria ou metodologicamente inadequados para capturar a "especificidade individualizada" da terapia. O critério de validade, portanto, não é a correspondência com a realidade mensurável, mas a fidelidade ao sistema de Hahnemann.

Isso é muito semelhante à estrutura epistemológica da inquisição: a crença é anterior e impermeável à evidência e a realidade não tem poder de revisão sobre ela.

A ciência, por sua vez, faz o oposto. Questiona afirmações independentemente de quem as faz. Revisa consensos quando evidências de qualidade suficiente os contradizem. Abandona práticas quando estudos rigorosos demonstram sua ineficácia. A história da medicina está repleta de exemplos disso, das sangrias à talidomida. O critério de validade científico é a capacidade de uma afirmação ser testada, confrontada e revisada. Não existe "verdade revelada”. Em seu lugar, existe o melhor conhecimento disponível no momento, sujeito à revisão.

Quando alguém exige evidências para uma prática de saúde, não está impondo (mas sim recusando) um dogma.

 

A inversão

A Falácia do Inquisidor Perseguido é composta por três manobras argumentativas. A primeira é o Espantalho: a prática científica de exigir evidências é retratada caricaturalmente como "perseguição" ou "intolerância”. Trata-se de uma falácia, pois ninguém "persegue" uma determinada prática mais do que a necessidade de apresentar evidência "persegue" qualquer outra afirmação sobre o mundo natural. A mesma exigência que se aplica a um medicamento sintético se aplica a uma diluição homeopática.

O segundo é uma variação da falácia do apelo à hipocrisia (Tu Quoque): o adepto de uma prática pseudocientífica atribui à ciência o dogma que define sua própria postura, chamando a ciência de dogmática. Na verdade, quem mantém crenças imunes à testagem, que descarta arbitrariamente evidências contrárias e não tem critérios de revisão é o dogmatista.

E o terceiro é o apelo à perseguição (vítima perseguida): ao invocar a Inquisição, o praticante sinaliza aos leitores que está sendo injustiçado, evocando uma resposta emocional de solidariedade que dispensa a análise das evidências apresentadas. É equivalente a dizer: "Não vou responder ao argumento; vou transformar quem argumenta em um vilão". Nas redes sociais, esse movimento é particularmente eficiente.

 

O herege

O herege, no sentido histórico do termo, era aquele que se afastava do dogma estabelecido com base em argumento, experiência ou interpretação independente. Giordano Bruno era um herege porque afirmava, com base em raciocínio filosófico e cosmológico, que o Universo poderia ser infinito. Galileu era um herege porque afirmava, com base em observações telescópicas verificáveis, que a Terra girava ao redor do Sol. O elemento comum não é a perseguição, mas o resultado: ambos desafiavam a autoridade estabelecida. E é isso que os tornava “perigosos” para a estrutura inquisitorial.

O praticante de uma determinada prática pseudocientífica que exige que seus princípios sejam aceitos apesar de evidências negativas ou ausentes, que interpreta cada estudo desfavorável como “prova de uma conspiração” contra a prática e que trata o pedido por evidências como violência está, epistemologicamente, ao lado do Inquisidor, não do herege.

Não que isso automaticamente pressuponha má intenção ou consciência de causar danos. Mas porque sua estrutura de crença funciona como a do tribunal que condenou as bruxas medievais: a conclusão já está estabelecida, a evidência que a contradiz é suspeita por definição e o questionador é um inimigo a ser silenciado.

É bastante irônico, portanto, assistir a um defensor de práticas sem evidência invocar a Inquisição como metáfora de sua situação.

 

Considerações finais

A Falácia do Inquisidor Perseguido é um dispositivo que serve a uma função específica: transformar o debate sobre evidências em debate sobre identidade e lealdade de grupo. Quando a comparação com a Inquisição é acionada, a pergunta "essa prática tem evidências de eficácia?" desaparece e é substituída por "você está do lado dos perseguidores ou das vítimas?". É uma das manobras mais eficazes de deslocamento de tema, e é eficaz porque apela a algo muito caro para todos nós: a indignação moral diante da injustiça.

O problema é que a injustiça não está onde a metáfora sugere. A ciência não queima ninguém e não tem autoridade coercitiva. Tampouco proíbe que alguém acredite em homeopatia, florais, cristais ou constelação familiar. O que faz (e talvez seja isso que verdadeiramente incomode) é se recusar a tratar afirmações sobre a realidade como equivalentes, independentemente da qualidade das evidências que as sustentam.

Galileu não estava certo porque foi perseguido. Estava certo porque suas observações correspondiam à realidade de maneira verificável e replicável – e, por isso, foi perseguido. Exigir evidências não é inquisição. É, na verdade, o que a Inquisição temia.

André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros "Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades" e "50 Casos Clínicos em Farmacologia" (Sanar), "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), "Tarot Cético: Cartomancia Racional" (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é. (Editora Contexto)

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