
Fevereiro trouxe novidades relevantes para os nutricionistas brasileiros, algumas possivelmente positivas e outras preocupantes. No início do mês, houve eleições do Conselho Regional de Nutrição da 3ª Região (SP e MS), em que a chapa “Nova Voz” derrotou a gestão anterior. O resultado pode indicar uma mudança na atuação do conselho, dependendo da implementação das propostas apresentadas.
Entre elas, destaca-se o fortalecimento da fiscalização para coibir o exercício ilegal da profissão e garantir que apenas nutricionistas e técnicos habilitados atuem. Propõe-se também a criação de um cargo específico voltado ao monitoramento da internet e das redes sociais.
As propostas que mais chamam a atenção, contudo, são as relacionadas à formação. Sugere-se reavaliar o currículo mínimo, alinhando-o às demandas atuais, com foco em hard e soft skills; revisar a carga horária mínima em parceria com entidades educadoras e o CFN; promover eventos técnico-científicos; e estimular a regulamentação das especialidades por meio de entidades de classe.
Apesar do palavreado generalista e pouco explicativo sobre o que representaria, na prática, a reavaliação do currículo mínimo para o mercado de trabalho atual, é possível que represente, ao menos, uma sinalização em direção ao fortalecimento do raciocínio crítico e da metodologia científica.
Essa é uma esperança que se liga diretamente ao segundo fato do mês: a Resolução nº 849, de 4 de fevereiro de 2026, do Conselho Federal de Nutricionistas, que altera a Resolução nº 689/2021 e passa a reconhecer a Nutrição em Acupuntura como especialidade, exigindo certificado de residência na área ou, alternativamente, certificado de curso de formação ou pós-graduação com carga horária mínima de 1.200 horas, sendo pelo menos 30% provenientes de aulas práticas presenciais.
Meu receio, expresso em 2021 no artigo “Nutrição, a próxima vítima da pseudociência”, parece hoje ainda mais atual.
Acupuntura funciona?
Endereçando o elefante na sala: com base em todo o racional fisiológico e biológico que conhecemos, entende-se que a acupuntura, por mais que existam estudos que demonstrem sua “superioridade” em relação ao placebo, não é nada mais do que um placebo com pedigree, no qual o mise-en-place cria a falsa sensação de que uma prática milenar estaria conseguindo curar algo que a medicina moderna não conseguiu.
Curiosamente, essa crítica não é minha, mas ecoa o artigo de 2010 “Paradoxes in Acupuncture Research: Strategies for Moving Forward”, publicado na revista Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, que foi removida do Web of Science (uma base de dados multidisciplinar que reúne artigos de revistas conceituadas) em 2023 e encerrou atividades em 2024. O texto resultou de um simpósio internacional promovido pela Society for Acupuncture Research (SAR), cujo objetivo era revisar os avanços da década posterior à Conferência de Consenso sobre Acupuntura, que reconhecera evidências suficientes para expandir seu uso, mas destacara a escassez de ensaios metodologicamente robustos.
Segundo o artigo, o campo cresceu desde 1997, com ensaios clínicos controlados por placebo e diversos estudos básicos relatando correlações bioquímicas e fisiológicas associadas ao agulhamento. Ainda assim, os participantes do simpósio reconheceram dois paradoxos centrais.
O primeiro destaca que muitos ensaios bem delineados mostram que a acupuntura não apresenta desempenho significativamente superior à acupuntura sham/falsa (técnica simulada, com inserções superficiais ou fora dos meridianos). Isso contraria a própria teoria tradicional, que pressupõe especificidade de pontos e técnicas.
A explicação mais simples, segundo os autores, é que ambos os procedimentos produzem efeitos por fatores inespecíficos — expectativa, interação profissional-paciente e ritual terapêutico — e não por mecanismos específicos do agulhamento. Nesse cenário, os efeitos terapêuticos seriam, essencialmente, placebo. Outras hipóteses incluem: (1) tanto o agulhamento real quanto o falso terem efeitos terapêuticos; (2) o falso preservar componentes ativos da intervenção; ou (3) a acupuntura verdadeira, limitada pelo desenho dos ensaios, estar sendo aplicada de forma inadequada.
O segundo paradoxo envolve a dissociação entre achados mecanicistas e desfechos clínicos. Efeitos fisiológicos observados em estudos experimentais — em animais ou humanos — podem não se traduzir em benefícios terapêuticos. Além disso, parte significativa da pesquisa envolve condições com fisiopatologia pouco compreendida, desfechos subjetivos e ausência de bons modelos animais ou biomarcadores. Tampouco está claro se existem equivalentes animais para conceitos centrais da acupuntura, como meridianos e “chi”.
Para enfrentar esses problemas, os autores recomendam mais pesquisa básica para identificar biomarcadores que distingam efeitos específicos de efeitos sham, além de ensaios clínicos que declarem explicitamente suas hipóteses, utilizem controles adequados (inclusive cuidado usual), avaliem componentes específicos da intervenção e incorporem medidas objetivas sempre que possível.
Enquanto lia este trabalho, a sensação que tive foi a de estar assistindo à final da Copa do Brasil de 2015 entre Santos e Palmeiras, quando Nilson perdeu um gol sem goleiro. A analogia, neste caso, é mais do que clara:
Os próprios pesquisadores admitem que a explicação mais simples é que os efeitos da acupuntura sejam essencialmente placebo, o que ajudaria a explicar a ausência de diferenças relevantes em relação à acupuntura falsa, a falta de biomarcadores específicos que distingam ambas e a indefinição sobre quais componentes seriam realmente responsáveis pelos supostos “efeitos terapêuticos”. Somam-se a isso a ampla divergência entre acupunturistas quanto à localização dos pontos e o fato de que conceitos centrais como “chi”, meridianos e pontos de acupuntura jamais tenham sido identificados ou demonstrados empiricamente.
Ainda assim, em vez de concluir que, diante das evidências disponíveis e da implausibilidade biológica, a acupuntura provavelmente se resume a um placebo sofisticado, os autores optam por uma postura mais cautelosa — preferem manter a hipótese em aberto e propor mais estudos, como se o problema fosse apenas metodológico e não também conceitual.
Uma revisão mais recente, publicada em 2022 sob o título “Use of Acupuncture for Adult Health Conditions, 2013 to 2021: A Systematic Review”, adotou o formato de mapa de evidências para responder à seguinte pergunta: qual é o grau de certeza das evidências nas revisões sistemáticas sobre acupuntura em adultos?
Foram incluídas 82 revisões sistemáticas, sendo a maioria conduzida na China (34). Cinquenta e nove revisões incluíram mais de um tipo de acupuntura; quase todas avaliaram acupuntura manual.
Foram abordadas 56 condições, mas a maioria das revisões concentrou-se em dor. O número de conclusões com alta certeza foi muito pequeno, com apenas quatro revisões enquadradas nessa classificação: três favoráveis (fibromialgia, dor no ombro e recuperação pós-AVC) e uma desfavorável (fertilidade).
As demais conclusões das revisões foram julgadas pelos autores originais como de baixa ou muito baixa certeza, indicando que a confiança na estimativa do efeito é limitada ou que o verdadeiro efeito pode ser substancialmente diferente do observado.
Os autores destacam que, apesar da vasta literatura, o número de condições com pelo menos evidência de certeza moderada foi modesto e concentrado sobretudo em dor.
Se aceitarmos apenas as conclusões gerais, poderíamos inferir que existe evidência moderada para parte relevante dos desfechos, especialmente relacionados à dor. Contudo, há limitações importantes: possível exclusão de estudos não indexados ou publicados em outros idiomas e heterogeneidade na definição de acupuntura falsa (como agulhamento em pontos não ativos ou uso de agulhas não penetrantes em pontos ativos ou não).
A limitação central, porém, é metodológica. O mapa de evidências não reavaliou de forma independente o risco de viés ou a certeza das evidências, adotando as classificações das próprias revisões incluídas. Isso abre espaço para um efeito “garbage in, garbage out”, em que revisões baseadas em estudos frágeis ou com alto risco de viés podem produzir estimativas imprecisas ou infladas.
Além disso, vale considerar o comentário de Steven Novella, editor executivo do Science-Based Medicine, sobre essa revisão. Ele observa que a revisão positiva sobre recuperação após AVC avaliou eletroacupuntura, que funciona mais como estimulação elétrica nervosa do que como acupuntura tradicional. Já outra revisão sobre AVC, que não incluiu eletroacupuntura, encontrou resultados negativos.
Quanto às revisões com conclusões favoráveis para dor no ombro e fibromialgia, ambas incluíram poucos estudos, não houve consenso sobre quais seriam os pontos “corretos” ou “incorretos” usados no comparador, e foi identificado alto risco de viés, além de possíveis problemas de viés de publicação — especialmente em estudos conduzidos na China.
Esse ponto é crucial, pois 41% dos estudos analisados eram chineses. Uma revisão sistemática de 2014, “Positive Results in Randomized Controlled Trials on Acupuncture Published in Chinese Journals: A Systematic Literature Review”, mostrou que, entre 840 estudos publicados em periódicos chineses, 838 relataram resultados positivos e apenas dois resultados negativos ao comparar acupuntura com tratamentos convencionais ou falsos — uma proporção praticamente absoluta de achados favoráveis.
Segundo Novella:
“Como esta revisão demonstra, a maior parte das evidências é de baixa qualidade, e quase nenhuma é considerada de alta qualidade. Apenas dois subgrupos apresentaram evidência de alta qualidade mostrando um efeito da acupuntura, e estes sofreram com pequeno número de estudos e problemas metodológicos que foram ignorados pelos revisores. Além disso, se você realizar estudos suficientes para um número suficiente de condições, acabará encontrando alguma evidência positiva apenas por acaso, especialmente se houver algum viés de publicação envolvido.
“O padrão geral da literatura sobre acupuntura, portanto, é claramente negativo. É consistente — eu diria até altamente preditivo — de um fenômeno nulo. Observamos esse mesmo padrão em outras alegações cientificamente implausíveis, como percepção extrassensorial (ESP) e homeopatia. Provavelmente, não é coincidência”.
Em termos mais diretos: trata-se de uma intervenção biologicamente implausível que tende a “funcionar” sobretudo em estudos metodologicamente frágeis.
Diante disso, resta a pergunta inevitável: o que motivou o Conselho Federal de Nutricionistas a decretar que nutricionistas poderiam prescrever acupuntura?
Acupuntura e nutrição
Sendo o mais objetivo e sucinto possível, não há evidências de boa qualidade que estabeleçam uma relação entre a prática e desfechos comumente buscados por nutricionistas, como a perda de peso. O documento publicado pelo Conselho Federal de Nutricionistas não explicita qual seria o racional terapêutico que serviria de base teórica para que nutricionistas utilizassem essa “ferramenta” em suas consultas.
No entanto, pelo que pude (des)aprender no site da pós-graduação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a acupuntura poderia auxiliar no controle do apetite e da ansiedade por meio da modulação de neurotransmissores associados à saciedade e ao bem-estar, reduzindo impulsividade alimentar. Também se alega que a prática favoreceria função renal e linfática, eliminação de fluidos, melhora do fluxo sanguíneo e, consequentemente, traria maior eficiência metabólica e “queima de gordura”.
Já a revisão narrativa “Acupuncture and nutritional parallels in obesity: a narrative review of multi-pathway modulation of the microbiota–gut–brain axis” propõe que a acupuntura poderia modular obesidade por vias microbianas, hormonais, neuroendócrinas e comportamentais simultaneamente.
Entretanto, essas hipóteses carecem de validação robusta, sobretudo em humanos. Persiste alta heterogeneidade nos pontos utilizados, nos parâmetros de estimulação, na duração do tratamento e nos desfechos avaliados, o que dificulta comparações e a síntese confiável dos dados. Além disso, grande parte das evidências deriva de modelos animais ou de estudos observacionais.
Contudo, imagino que algum nutricionista holístico possa alegar que minha posição não passa de uma visão preconceituosa e “ocidental”, desrespeitosa aos saberes orientais, e que existiriam evidências sustentando a relação entre acupuntura e nutrição. Nesse contexto, considero válido examinarmos um estudo que sintetiza, basicamente, as “evidências” dessa possível relação.
Sob o título “Efficacy and safety of acupuncture for weight management: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials”, o artigo avaliou a eficácia e a segurança de diferentes modalidades de acupuntura para o controle do peso em adultos com sobrepeso ou obesidade. Foram incluídos ensaios clínicos publicados em inglês ou chinês entre 2013 e março de 2025, comparando acupuntura (isolada ou combinada) com acupuntura falsa, outras formas de acupuntura, dieta e/ou exercício.
Houve ampla variação na escolha dos pontos, duração das intervenções (de 10 dias a 4 meses) e frequência dos tratamentos, variando de uma vez por mês a uma vez por dia.
Constatou-se que 61 artigos (de um total de 64) relataram eficácia da acupuntura para perda de peso, enquanto três não demonstraram efeito. Quanto à segurança, 22 ensaios relataram eventos adversos. Os mais comuns foram constipação, diarreia, dor abdominal e náusea, além de desconforto ou dor no local de aplicação. Contudo, também foram descritos eventos mais graves, como aperto no peito acompanhado de pânico, tremores ao ficar em pé e nos dedos, além de um caso de síncope (desmaio).
A qualidade metodológica foi baixa. Faltaram informações sobre cálculo amostral, ocultação da alocação, implementação da randomização, cegamento adequado, registro de protocolo, financiamento e qualificação dos profissionais. Apenas três estudos foram classificados como de baixo risco de viés; a maioria foi considerada de risco incerto.
Com base nesses achados, os autores concluem que a acupuntura apresenta alguns benefícios para o controle do peso. No entanto, devido à escassez de dados robustos sobre segurança, não é possível chegar a uma conclusão definitiva. E persistem preocupações relevantes quanto à qualidade metodológica e ao risco de viés das evidências disponíveis.
Cabe ainda mencionar limitações importantes, como o fato de a maioria dos ensaios ter sido conduzida na China e publicada em chinês. Isso levanta a possibilidade de diferenças regionais na condução e nos resultados dos estudos, comprometendo sua representatividade externa — ou, como discutido anteriormente, sugerindo viés sistemático, considerando que ensaios clínicos sobre acupuntura conduzidos na China tendem a relatar resultados quase sempre positivos.
Embora os autores tenham observado um efeito estatisticamente significativo para perda de peso em voluntários submetidos à acupuntura, a análise do contexto metodológico em que esse resultado foi produzido permite afirmar que a qualidade dos estudos está aquém do aceitável.
Levando em consideração que se trata de uma prática carente de estudos de boa qualidade, com resultados “positivos” observados apenas em estudos fracos e com limitações gritantes, além da possibilidade de eventos adversos que variam de uma dor de cabeça leve até perfurações de pulmão — sim, um evento raro, mas que ocorreu aqui no Brasil em 2021 —, fica nítido que a relação risco-benefício pende para mantermos aquilo que sabemos ser eficaz na perda de peso: exercício físico, dieta hipocalórica, acompanhamento psicológico e médico e, se necessário, fármacos.
Torço para que a mudança no Conselho Regional de Nutrição da 3ª Região seja um indício de que, no futuro, quem sabe, o Conselho Federal reconheça seu erro e decida que a nutrição será a primeira área da saúde a não compactuar com pseudociências, mas sim com o pensamento crítico e baseado nas melhores evidências.
Mauro Proença é nutricionista
REFERÊNCIAS
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