
A filha do ex-jogador de futebol Túlio Maravilha publicou nas redes sociais um vídeo ao lado da família em que explica por que não pretende cursar uma universidade pública. Segundo a mãe, a decisão foi tomada para preservar valores familiares: “Um dos fatores maiores que a gente não permite que a Tulianne e nossos filhos vão para a federal é a gente manter os nossos valores familiares. A universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”. Tulliane Maravilha foi aprovada em nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em odontologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
A fala viralizou, e as reações no meio acadêmico não demoraram. Parte das respostas recorreu a insultos – “imbecis”, “idiotas” –, acompanhados, como de costume, de uma crítica genérica ao “neoliberalismo”. É o procedimento padrão: desqualificar o interlocutor para não ter o trabalho de engajar com o argumento. No caso em questão, em nenhum momento se criticou a qualidade do ensino e da pesquisa, mas fatores associados a costumes e ideologias, além de problemas de infraestrutura.
Em 2025, o Brasil se manteve na sua pior posição no Índice de Percepção de Corrupção (IPC), publicado pela Transparência Internacional. Numa escala de 0 a 100, em que notas mais baixas indicam maior percepção de corrupção, o país marcou 34 pontos e ficou na 107ª colocação, atrás de países como a Etiópia (96ª), que saiu recentemente de uma guerra civil e ainda convive com tensões internas, e Burkina Faso (84ª), mergulhado em uma grave crise humanitária. Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) afirma que o IPC “não mede a ocorrência real de corrupção”; isso pode ser verdade, mas o índice mede a reputação e revela como o país é percebido por observadores da sociedade civil.
Isso funciona de maneira semelhante a rankings de vinhos que mostram impressões externas, e não necessariamente propriedades intrínsecas do produto. Estudos mostram como a experiência subjetiva pode ser influenciada por contexto e expectativas: um vinho branco tingido de vermelho passa a ser descrito com aromas de tinto, e o mesmo vinho, rotulado com preço mais alto, é avaliado como melhor, com efeitos mensuráveis até na atividade cerebral. Isso não torna a percepção “irrelevante” ou “falsa”: ela é um dado social, que traz consequências.
Tanto o IPC quanto a percepção sensorial do vinho e as opiniões sobre universidades, ainda que não correspondam diretamente à realidade dos objetos avaliados, influenciam decisões e reputações, como a imagem institucional do país, a posição de um rótulo num catálogo de vinhos e o grau de apoio da população ao ensino superior público. Em qualquer dessas situações, reagir com arrogância e desmerecer o observador não é a melhor maneira de fortalecer a própria marca.
As universidades públicas, ao se apresentarem cada vez mais como agentes políticos-morais, tratando a promoção direta de uma perspectiva particular de justiça social como parte da sua missão principal, e não apenas como instituições dedicadas ao ensino, à pesquisa e à extensão, mudam o cenário em que são avaliadas. Para uma parcela do público, o juízo deixa de incidir sobre os resultados científicos e a qualidade da formação oferecida, e passa a se organizar em torno de valores identitários e ideologias.
Nesse terreno de guerras culturais, a instituição perde a vantagem do rigor e da autoridade intelectual, mesmo porque seus próprios discursos e ações já incitam o comportamento militante. Exemplos de episódios de censura, em que se tenta impedir a circulação de ideias por motivos alheios ao mérito intelectual, tendem a repercutir muito mais na imprensa do que uma descoberta científica.
Manifestações públicas de desapreço pela universidade pública, sobretudo quando passam a ganhar adesão na classe média, somadas a cursos com poucos candidatos, com vagas não preenchidas, podem acionar um ciclo vicioso de perda de prestígio, retração de apoio político, subfinanciamento e baixa atratividade de profissionais qualificados. Foi um mecanismo semelhante, em parte, que contribuiu para a desvalorização das escolas estaduais e municipais e para a migração de alunos para o ensino privado.
No artigo “O dogmatismo continua sendo uma tendência na era atual da humanidade”, publicado na Folha de S.Paulo, Wilson Gomes, professor da Universidade Federal da Bahia, diz se surpreender “que justamente as arenas institucionais por excelência da liberdade de pensamento — universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam consensos e se testam certezas — tenham se tornado alguns dos principais espaços do dogmatismo e da ortodoxia. É mais que paradoxal, é contraditório, mas esses são os fatos”. Se a Academia voltasse a atuar como curadora criteriosa de profissionais e ideias, sem se desviar de sua missão, talvez houvesse menos ataques.
Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência
