
Existe uma frase, atribuída indevidamente ao físico alemão Albert Einstein, que diz o seguinte: “Duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana; e não tenho certeza quanto ao Universo”. Entendo o sentimento de quem a escreveu. Há muitos anos (quase uma década, portanto, um terço da minha vida) venho lidando com o negacionismo científico em torno da biologia evolutiva. E minhas expectativas nunca são frustradas: de onde eu mais espero nonsense, é dali mesmo que ele vem.
Outro dia me deparei com um corte do podcast Inteligência Ltda (nome bastante apropriado para o que estamos prestes a discutir), em que um cientista brasileiro cometia uma série de atrocidades relativas à ciência bem estabelecida. Esse mesmo cientista é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), apesar de tudo o que ele tem feito contra a educação científica e a compreensão pública da ciência nos últimos anos. Considero irresponsável e pusilânime a indiferença da ABC, que insiste em mantê-lo entre seus membros.
Bom, mas quais foram as atrocidades? Afirmar que o Livro de Jó (texto bíblico composto, provavelmente, no século 7 AEC) descreve, literalmente, um braquiossauro; que dragões medievais seriam dinossauros; que a presença de tecido mole e biomoléculas em fósseis invalida dezenas de métodos radiométricos independentes; que traços de carbono-14 em materiais antigos provam uma Terra de 6.000 anos, ignorando contaminação e limites instrumentais; que humanos conviveram com dinossauros, entre outras coisas.
Repito: essa pessoa é membro da Academia Brasileira de Ciências.
Como você pode suspeitar, são tantos “crimes” contra o intelecto que seria difícil cobrir todos no espaço de uma coluna. Então, vamos falar dos dinossauros “descritos na Bíblia”, especialmente da alegação de que o capítulo 40 do Livro de Jó descreve literalmente um dinossauro saurópode.
Os versículos relevantes para o caso (15 a 24) são os abaixo, reproduzidos da edição Bíblia Sagrada Almeida Revista e Corrigida, versão em português do cânone protestante que é popular em igrejas evangélicas brasileiras:
Contempla agora o beemote, que eu fiz contigo, que come erva como o boi./Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder, nos músculos do seu ventre. /Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos da suas coxas estão entretecidos./Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro. /Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada./Em verdade, os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam./Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo dos canaviais e da lama./As árvores sombrias o cobrem com a sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam./Eis que um rio trasborda, e ele não se apressa, confiando que o Jordão possa entrar na sua boca. /Podê-lo-iam, porventura, caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz?
A ideia de que o beemote de Jó 40 seria um braquiossauro é daquelas interpretações que parecem impressionantes à primeira vista, mas desmoronam quando a gente olha com um pouquinho mais de cuidado. O texto bíblico traz descrições bastante genéricas: animal herbívoro, forte, ossos robustos, força nos lombos. Isso serve para uma ampla gama de animais de grande porte.
Alguns estudiosos aventaram a possibilidade de que a descrição do beemote corresponde a animais reais, como elefantes ou hipopótamos. O nobre cientista, contudo, zomba dessa hipótese, pois as características mais conspícuas desses animais, a tromba e o marfim do elefante, a bocarra e as presas enormes do hipopótamo, não aparecem no texto bíblico. Pois bem.
Se o argumento é que não pode ser elefante ou hipopótamo porque faltam características marcantes como tromba ou presas, então eu devolvo exatamente o mesmo critério: cadê o pescoço absurdamente longo do saurópode? Cadê a característica mais conspícua do grupo? A gente literalmente chama esses animais de “dinossauros pescoçudos”. Se a Bíblia estivesse descrevendo um braquiossauro, por que omitir justamente o traço anatômico mais óbvio?
Os criacionistas se apegam a Jó 40:17, vertido em algumas traduções como dizendo que o Beemote balança sua cauda como um cedro. “Olha só, tinha uma cauda rígida, robusta como um cedro, que nem um saurópode!”. Bom, na verdade, mesmo que consideremos que a descrição se aplique realmente à cauda, e há discussão sobre isso, ela não se traduz imediatamente na descrição da cauda de um saurópode. Muitos dinossauros herbívoros de grande porte tinham caudas rígidas e longas, mas nem por isso eram saurópodes.
Outro ponto: o texto menciona o animal deitado entre plantas do pântano, associado a ambientes úmidos. Saurópodes não eram animais de pântano no sentido ecológico clássico. Aquela imagem antiga de dinossauro meio submerso, sustentando o peso na água, foi abandonada há décadas. Eram animais plenamente terrestres, com adaptações esqueléticas para sustentar o próprio peso em terra firme. Então, usar o ambiente descrito em Jó como evidência positiva para um saurópode simplesmente ignora o que a paleobiologia moderna conhece sobre a ecologia desses animais.
Além disso, há um problema metodológico sério aqui. A interpretação “é um braquiossauro” parte de uma leitura retroativa: nós já conhecemos dinossauros, então enxergamos dinossauros. Isso é enfiar significados no texto e não, como seria correto, extrair os significados que o autor pretendeu: eisegese, não exegese. O próprio debate dentro do criacionismo mostra que não há consenso. Há criacionistas que consideram beemote e leviatã (outro monstro citado em Jó) simbólicos. Um exemplo dessa discordância nos círculos criacionistas é apresentado num texto, escrito por criacionistas, sobre se “Há dinossauros no livro de Jó?”:
“O paleontólogo Raul Esperante, após afirmar que a maioria dos estudiosos discorda da interpretação de que Jó 40–41 descreve dinossauros, diz que o texto ‘não fornece evidências suficientes para afirmar que dinossauros são mencionados na Bíblia.’ Outro paleontólogo, Dr. Marcus Ross, costumava apoiar a ideia de que beemote e leviatã eram dinossauros ou algum réptil extinto semelhante. No entanto, recentemente, ele sugeriu que essas criaturas são simbólicas, representando outra coisa que Deus estava tentando comunicar”.
Também não podemos desconsiderar, como cristãos fundamentalistas frequentemente fazem, as fontes antigas não cristãs. Do ponto de vista do estudo bíblico secular, outra criatura trazida à tona pelo nobre cientista no podcast, o leviatã, ver Jó 41:1-34, tem paralelos claros com tradições do antigo Oriente Próximo, como Lotã, uma criatura mitológica associada ao caos. O livro de Jó é poesia, não um manual de zoologia mesozoica.
E, por fim, vamos ao teste empírico. Se seres humanos conviveram com saurópodes, então precisamos de evidência paleontológica. Enquanto cientista, tudo o que o nobre criacionista tem que fazer é ir a campo e encontrar, em camadas geológicas posteriores ao aparecimento dos seres humanos, pelo menos um único fóssil seguramente atribuível a um dinossauro não aviano. Mas ele não vai fazer isso, pois sabe que esses fósseis não existem.
O que fazer, então? Ora, negar a coluna geológica e dizer que a bioestratigrafia, a distribuição dos fósseis em estratos geológicos sucessivos, é resultado do dilúvio. É claro. Porém, para o azar do nobre cientista, a bioestratigrafia não dá suporte algum à ideia de que a coluna geológica pode ser explicada por um dilúvio de proporções bíblicas, como já discutimos em “Criacionismo afogado pelo dilúvio”.
Esse episódio só reforça o que já discuti nas páginas virtuais da RQC em “A persistência do criacionismo”: o negacionismo científico é produto de influência ideológica, cultural e de viés cognitivo, não de questões sérias sobre a natureza da evidência.
Começamos com a sabedoria de Jó, e com ela encerramos:
Ou fala com a terra, e ela to ensinará; até os peixes do mar to contarão. — Jó 12:8.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
