A função social do sexo entre primatas

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19 jan 2026
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bonobos

Uma vez, quando eu era criança, fui à esquina comprar refrigerante e, no caminho, me deparei com uma cena que nunca mais sairia da minha cabeça. Meu gato, o Mr. M, estava ali, numa postura típica de acasalamento. Sobre ele, havia um gato preto. Fiquei olhando por alguns segundos, confuso, tentando decidir se aquilo significava mesmo o que eu estava pensando.

Anos depois, já adulto, descobri que cenas assim não são raras no mundo animal — especialmente entre primatas. Assisti a um documentário sobre bonobos que mostrava duas fêmeas; elas se aproximavam, ficavam frente a frente, abraçavam-se pelos ombros e esfregavam os genitais uma na outra por alguns segundos. O narrador explicava, naquele tom burocrático e involuntariamente engraçado típico dos documentários, que bonobos fazem isso com certa frequência para reduzir o estresse e fortalecer a coesão social.

Cenas como essas coincidem com os achados de um estudo publicado na Nature Ecology & Evolution no início de 2026. Nele, os autores se perguntam em que contextos comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo aparecem com mais frequência.

Para responder a essa pergunta, reuniram dados sobre 491 espécies de primatas, mapeando a presença documentada desse comportamento ao longo da filogenia do grupo. A hipótese central deles era de que se esses comportamentos surgem repetidamente ao longo da árvore da vida, então provavelmente não são aleatórios — tampouco antinaturais. Devem estar associados a condições ecológicas e sociais específicas, contextos em que  tais padrões oferecem alguma vantagem.

O que esses pesquisadores mostraram é que realmente emerge um padrão dos dados, quando examinados em conjunto. Comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, em primatas, ocorrem com mais frequência em espécies que vivem sob condições ecológicas mais exigentes e em arranjos sociais particularmente complexos. Bonobos vivem em grupos densos, com interações frequentes e alianças instáveis; macacos-japoneses exibem hierarquias rígidas e contato social intenso. Em sistemas assim, viver em grupo é custoso: conflitos são frequentes, alianças precisam ser constantemente renegociadas e a estabilidade social é sempre provisória.

Nesse contexto, o sexo deixa de ser apenas um evento ligado à reprodução e passa a integrar um repertório mais amplo de estratégias de regulação social. Algo semelhante já é bem conhecido na primatologia: o grooming, que à primeira vista parece uma atividade pragmática de remoção de parasitas, funciona sobretudo como um cafuné social, fortalecendo vínculos e amortecendo tensões. Com o sexo, algo parecido acontece. As funções não reprodutivas recorrentes do sexo são bem conhecidas na literatura: redução de tensões após disputas, fortalecimento de vínculos específicos e mediação de relações hierárquicas. São comportamentos que impedem a desorganização do grupo, contribuindo para a cola social.

Trata-se de padrões comportamentais sensíveis ao contexto, que surgem repetidamente quando determinadas condições ecológicas e sociais se combinam. O comportamento se insere num sistema maior — no qual sobreviver e se reproduzir depende, em grande medida, da capacidade de conviver.

Para interpretar esse conjunto de padrões, os autores recorrem à teoria das estratégias de história de vida, uma das lentes mais produtivas da biologia evolutiva para entender por que espécies diferem tanto em comportamento. A ideia central é simples: organismos precisam distribuir tempo e energia entre crescimento, sobrevivência, reprodução e investimento social. Como esses recursos são limitados, diferentes espécies acabam seguindo estratégias distintas — a estratégia mais vantajosa para uma pode não ser para outra.

Entre os primatas, aquelas espécies que exibem com mais frequência comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo tendem a compartilhar um mesmo perfil: histórias de vida “lentas”. São animais de desenvolvimento prolongado, longevos, com reprodução espaçada e longos períodos de convivência social. Nessas espécies, o sucesso evolutivo não depende apenas de quantos descendentes se produz, mas de como relações sociais estáveis se mantêm ao longo do tempo — espécies longevas têm mais tempo de estabelecer laços sociais mais arraigados e complexos.

Sob esse prisma, comportamentos como grooming, contato sexual e outras formas de interação geradora de vínculos passam a ser vistos como parte de um portfólio adaptativo. Não garantem benefícios imediatos e mensuráveis, mas contribuem para a redução de conflitos crônicos, para a previsibilidade das interações e para a estabilidade do grupo.

O argumento dos autores do estudo não é que esses comportamentos “existem para” cumprir uma função específica, mas que se tornam mais prováveis e mais persistentes em contextos em que a vida social é prolongada, custosa e inevitável. Em outras palavras, quando sobreviver e reproduzir-se depende de conviver por muito tempo com os mesmos indivíduos, flexibilidade comportamental deixa de ser exceção e passa a ser vantagem.

Há limites claros para o que esse estudo permite afirmar, e os próprios autores são cuidadosos ao explicitá-los. A análise não trata de orientação sexual, identidade ou psicologia individual, tampouco pretende explicar a sexualidade humana. Seu escopo é outro: compreender quando e em que contextos certos comportamentos emergem de forma recorrente entre espécies. Extrapolar além disso seria cometer o mesmo erro — em sinal trocado — de quem reduz o fenômeno a slogans morais (como o de que ser homossexual é errado, antinatural, dentre outros).

Ao mesmo tempo, o trabalho se insere em uma tradição mais ampla da primatologia e da ecologia comportamental, que há décadas descreve a plasticidade do comportamento social em animais altamente sociais. O ganho aqui não está em uma explicação definitiva, mas na combinação de escala comparativa, método filogenético e teoria de história de vida, que transforma observações dispersas em um padrão inteligível.

Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo

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