
O criacionismo, seja ele da terra-jovem, terra-antiga, ou design inteligente, não se sustenta cientificamente. Suas alegações são, quando muito, ciência ruim. Na maioria das vezes, muito ruim. Os criacionistas estão num círculo vicioso sem fim de reciclar argumentos já amplamente refutados para ouvintes já cansados da ladainha ou para novas vítimas.
A prevalência do criacionismo, contudo, não é apenas uma questão de ciência. Aliás, eu diria até que ciência não é a maior das preocupações dessa estirpe de negacionista. Como eu já argumentei antes, a persistência e prevalência do criacionismo não é questão de desinformação, mas algo quase inerente ao ser humano. E não tem nada a ver com veracidade.
O criacionismo frequentemente atende ao desejo humano de encontrar propósito e ordem no mundo, oferecendo uma narrativa simples e reconfortante sobre a origem da vida, alinhada a nossas inclinações naturais para acreditar em histórias que conectem causa e efeito de forma direta.
Uma pessoa criada em um ambiente religioso ou conservador pode estar exposta desde cedo a uma leitura literal do relato bíblico, desenvolvendo preconceitos que dificultam a aceitação de ideias contrárias, como a evolução. A "caverna" cultural e familiar em que vivem reforça a visão criacionista.
Na minha visão, portanto, a culpa pela contínua insistência de parte da população no criacionismo não é dos cientistas e divulgadores, que “falharam” em sua missão de ensinar e/ou transmitir a ciência e o modo científico de pensar. Um dos maiores culpados, eu diria, é teologia ruim.
Um exemplo de teologia ruim é a negação sistemática de que a Bíblia é um construto humano. São diversos livros, escritos em épocas diferentes, por pessoas bem diferentes, e com propósitos diferentes. Você pode acreditar que cada uma foi, de alguma forma, inspirada por Deus? Pode, não sou fiscal de crença. Mas se já leu a Bíblia a sério, isto é, respeitando o texto, sua história e os povos para os quais os textos foram escritos, você vai saber que é um compilado, no mínimo, heterogêneo.
Claro, é muito mais fácil ceder à preguiça ou blindar-se do conhecimento do que tentar compreender os pormenores do texto. É muito mais fácil e reconfortante acreditar que a Bíblia é, do começo ao fim, um texto ditado pelo papai do céu. Do meu ponto de vista, e do ponto de vista de muitos bons cristãos, isso é aviltar o intelecto e desprezar a história desse texto fascinante.
Ecoando as palavras de um cientista e presbiteriano sobre essa mesma questão:
“No entanto, a Bíblia é um livro poderoso, repleto de sabedoria, inspiração espiritual e alimento para a fé. Mas ela precisa ser lida com perspectiva e compreensão, e não com um literalismo servil. Os cristãos não devem confundir a adoração da Bíblia com a adoração de Deus”.
A visão literalista de muitos criacionistas empobrece a Bíblia. Na Bíblia, nem tudo pretende ser fato. Há muito de alegoria, de metáfora, de poesia. Não requer interpretação literal.
Essa insistência em absurdos, como a ideia de que Noé colocou sei lá quantos animais dentro de uma arca, mais prejudica do que ajuda a religião. Se tomamos as metáforas e parábolas como eventos literais, perde-se o poder da pregação religiosa.
A insistência no literalismo, especialmente quando diz respeito à evolução da vida, gera ainda outras formas de degradar e macular a religião. Os criacionistas, talvez sem perceber, fazem uma caricatura de Deus. O que me lembra uma declaração do saudoso Papa Francisco: “Quando lemos a respeito da criação em Gênesis, corremos o risco de imaginar que Deus era um mágico, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas isso não é assim”. Se Deus criou (no sentido mais amplo da palavra) a vida na Terra (e sabe-se lá onde mais), pode ter utilizado muitos mecanismos.
Muitos cristãos acreditam que Deus criou as leis naturais. Podemos entender essas leis e explicar a arquitetura, origem e composição do Universo, como resultado de causas secundárias, plenamente naturais, mas nem por isso “ateístas”.
E isso me traz outra vez à noção de teologia ruim. Muitos acreditam que adotar uma visão naturalista do Universo e da vida, e aceitar, por exemplo, que a vida na Terra surgiu naturalmente e evoluiu ao longo de bilhões de anos, é ir contra a Bíblia, é ir contra Deus, é ir contra o Cristianismo. Que mentalidade pequena! Não preciso nem dizer que muitos, mas muitos cientistas, são bons cristãos e não negam a ciência.
No fundo, me parece que as pessoas que insistem no criacionismo são pessoas de fé fraca. Como já apontei em “A Crise Interna do Criacionismo”, até mesmo grande apologistas cristãos parecem concordar. William Lane Craig, famosos debatedor e apologista, certa vez disse o seguinte sobre o criacionismo da terra-jovem:
“A ideia de que o mundo – o Universo – foi criado há apenas alguns milhares de anos em seis dias consecutivos de 24 horas é indefensável. A ideia de que houve um dilúvio global dentro da história humana que exterminou toda a vida terrestre na Terra (tanto animal quanto humana) é indefensável. A ideia de que todas as línguas humanas se originaram de um zigurate na Babilônia há alguns milhares de anos é intelectualmente indefensável. Portanto, o criacionismo da terra jovem é um grande embaraço para a fé cristã hoje...esse movimento está causando um enorme dano à fé cristã... e impede que as pessoas cheguem a Cristo ao erguer obstáculos desnecessários em seu caminho”.
Claro, o próprio Craig ainda comete o erro de aderir ao design inteligente. Mas há algo que aprendi com o Altay de Souza (Naruhodo Podcast): é importante estar menos errado. Menos errado é melhor que mais errado.
Evidentemente, você é livre para acreditar (ou não) que Deus falou, fala e falará com seus fiéis. Mas eu tenho certeza de que a natureza de certa forma “fala” conosco. E a melhor forma desenvolvida até agora para entender o que ela diz a respeito de sua constituição e funcionamento é a ciência, ainda que imperfeita.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
