
O Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, também conhecido como Livro de Aço, está depositado no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Criado em 1992, homenageia cidadãos brasileiros que prestaram relevantes serviços à nação. A inclusão de cada nome precisa ser aprovada por lei, após dez anos da morte ou da presunção de morte da pessoa homenageada. Entre os nomes já registrados estão Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Anna Neri, Heitor Villa-Lobos, Jovita Feitosa, Zuzu Angel e Luiz Gama.
Em 2019, Dandara dos Palmares e Luíza Mahin tiveram seus nomes inscritos no livro. Segundo o parecer do Senado Federal sobre o Projeto de Lei da Câmara nº 55, de 2017, Dandara dos Palmares foi esposa de Zumbi, com quem teve três filhos, e participou ativamente da defesa do Quilombo dos Palmares, contribuindo para as estratégias de resistência desde a infância. Conhecida por sua coragem e determinação, teria se oposto a acordos de paz com o governo português por temer o retorno à escravidão. Morreu em 1694, em circunstâncias incertas. Alguns relatos apontam suicídio, outros, assassinato. Luíza Mahin, por sua vez, teria nascido na Costa da Mina, em 1812, vindo escravizada para o Brasil. Teria atuado na articulação de revoltas na Bahia, destacando-se na Revolta dos Malês (1835), e foi mãe do poeta e abolicionista Luiz Gama. Sua trajetória também é envolta em mistério, incluindo a data e as condições de sua morte.
O próprio texto do parecer reconhece que as histórias das duas “misturam realidade e ficção”. São, portanto, homenagens a figuras icônicas, símbolos da força e da luta da mulher negra. Mas há uma lacuna importante: não há documentação histórica que comprove a existência de Dandara e Luíza tal como narrada. No caso de Mahin, em 2025 surgiram registros que indicam que pode ter sido mãe de Luiz Gama, mas não há evidência documental de seu envolvimento na Revolta dos Malês. No caso de Dandara, não há qualquer prova de que tenha existido, embora sua imagem tenha se tornado símbolo da resistência negra feminina.
A partir dessas contradições, uma reflexão: até que ponto é legítimo, para a história de um país, reconhecer oficialmente figuras sem comprovação documental? Há o argumento político e cultural da reparação e da representatividade, importante conquista do movimento negro. Afirmar que Dandara e Mahin existiram, ainda que simbolicamente, é reivindicar espaço na narrativa nacional para mulheres negras apagadas dos registros oficiais. Mas há o rigor da história e da arquivologia, sustentado pelos princípios da proveniência, da autenticidade e do contexto. É esse método que assegura que a história se construa sobre provas verificáveis, e não apenas com base em crenças, relatos e desejos.
É possível que a ausência de alguns registros seja reflexo do apagamento histórico das populações negras escravizadas. Mas, no caso de Dandara, há documentação sobre outras mulheres que participaram do Quilombo dos Palmares. Por que não homenagear aquelas cuja existência é comprovada? E, no caso de Luíza, se há evidências de sua vida, por que insistir em ligá-la a um evento do qual não há prova de participação? Por que forçar a narrativa quando outras mulheres, igualmente negras e atuantes, poderiam representar com verdade esse protagonismo?
Pode-se supor que o vínculo simbólico com figuras masculinas já consagradas, como Zumbi dos Palmares e Luiz Gama, tenha influenciado a escolha. A associação das mulheres a homens historicamente reconhecidos parece funcionar como forma de legitimação, tornando sua incorporação à narrativa pública mais aceitável do que a valorização de trajetórias femininas autônomas. Essa hipótese, se confirmada, evidenciaria um paradoxo: ao buscar reparar apagamentos históricos, a construção simbólica dessas figuras acaba por reproduzir o mesmo sistema machista que tanto busca superar.
A questão, afinal, não está na importância do símbolo, mas no risco de confundir mito e fato. A historiografia contemporânea reconhece o valor da história oral e das tradições populares, mas permanece o desafio: como atribuir valor documental a fontes simbólicas sem comprometer a objetividade histórica? Reconhecer o valor simbólico de Dandara e Luíza é legítimo; transformá-las em personagens factuais, com biografias inventadas e feitos heroicos sem registro, enfraquece o método histórico e abre espaço para distorções futuras.
Em entrevista sobre o livro Um defeito de cor, a autora Ana Maria Gonçalves, recém-eleita para a Academia Brasileira de Letras, comenta as lacunas documentais encontradas durante sua pesquisa e afirma que a história do povo negro se preserva também como um “arquivo de corpo”, transmitido para além do papel e da oficialização institucional. A personagem principal do romance, que pode ser associada à figura de Luíza Mahin, foi construída, segundo a autora, a partir da articulação simbólica de múltiplas histórias de mulheres negras, compondo uma narrativa literária de grande força e beleza, que não se pretende um documento histórico. Quando o discurso se desloca e a ausência de prova é compensada pela noção de uma memória inscrita no corpo, há poesia, mas também o risco de que a sensibilidade simbólica seja confundida com evidência histórica.
Se aceitarmos homenagens baseadas em personagens cuja existência não está comprovada, o que mais estaremos dispostos a aceitar como verdade histórica? Flexibilizar o rigor da prova em nome de uma causa justa pode reproduzir o mesmo mecanismo de poder que, em outros tempos, silenciou as vozes subalternas. Não é prudente supor que apenas as causas “nobres” farão uso desse tipo de brecha; a história mostra que, como em episódios recentes da vida pública brasileira, quando levantamentos técnicos do INPE sobre o desmatamento na Amazônia foram relativizados ou colocados em dúvida no debate público, a abertura desse precedente pode servir também a propósitos menos legítimos, o que nos leva, por fim, a refletir sobre quem define o que é legítimo.
O mito pode e deve cumprir uma função social, desde que não seja tratado como fato histórico. O silêncio dos arquivos existe e deve ser compreendido, não preenchido com suposições: é, ele próprio, um dado histórico. A busca por representatividade não deve se sobrepor ao método, mas ampliá-lo de forma crítica e transparente. O caso de Dandara e Luíza Mahin ultrapassa a dúvida sobre suas existências e expõe o desafio de equilibrar memória e prova, um terreno instável onde podem nascer tanto heroínas simbólicas quanto distorções históricas.
Martha Martins de Morais é arquivista, documentalista e fotógrafa
