
Sou meio relojoeiro desde pequeno. Me acostumei a ver os objetos como coisas fluidas, que podiam ser desmontadas e remontadas. Um pote nunca era só um pote: podia ser vaso de planta, tambor, aquário. Uma tábua não era apenas madeira: podia ser banco, prateleira, apoio para subir no muro.
Essa mania teve origem em casa. Minha mãe tinha ondas de criatividade em que passava tardes transformando retalhos em tapetes, jornais em papel machê, garrafas em vasos. Meu pai guardava pregos tortos, parafusos sem par, dobradiças empenadas. Nada se jogava fora. A cada fim de semana surgia um banco improvisado, um conserto que desafiava a lógica, um objeto híbrido de madeira e ferragens. Uma vez ele apareceu em casa com ripas de madeira e as transformou num banco para fazer supino. Nossa casa às vezes parecia uma oficina de reaproveitamentos.
Esse contexto me fez crescer pensando em dilemas filosóficos sobre a essência das coisas. Virei um relojoeiro que montava e desmontava ideias também. Quando um sofá deixa de ser sofá e vira poltrona? Ou uma bicicleta, remendada peça por peça, ainda é a mesma bicicleta? Se todas as partes forem substituídas, em que momento o objeto deixa de ser o que era? Essas questões, que pareciam apenas filosóficas, mais tarde mostraram ter peso também na biologia.
A oficina de gambiarras
Durante muito tempo, falou-se da natureza como se fosse uma engenheira infalível, sentada diante de uma prancheta cósmica, desenhando cada detalhe de um organismo como se fosse um relógio suíço. Mas essa imagem começa a desmoronar quando trocamos a sala limpa do engenheiro pela oficina desarrumada do faz-tudo. Lá dentro, nada é impecável: há pregos tortos em potes de vidro, tábuas que já foram uma coisa e agora viram outra. É nesse cenário barulhento e improvisado que a vida se constrói.
Foi isso que o geneticista francês François Jacob capturou em 1977, no artigo Evolution and Tinkering, publicado na Science. Ele propôs abandonar a metáfora da natureza como engenheira e adotar a do bricoleur — a dona de uma oficina que improvisa com o que tem à mão. A vida, dizia Jacob, procede assim.
As penas dos pássaros contam bem essa história. Primeiro, aparecem na história evolutiva como penugem tímida para proteger do frio. Depois, como bandeira de exibição em rituais de acasalamento, plumagem que representa saúde e vigor — basta pensar na exuberância de um pavão ostentando sua cauda. Só muito mais tarde, na história da vida, penas revestiriam asas capazes de sustentar voo. As asas dos insetos contam uma história parecida. Esses pequenos artrópodes abriram caminho para os céus de forma independente dos vertebrados, com asas que a princípio serviram como painéis solares para captar calor, antes de se converterem em instrumentos de voo. O mesmo roteiro se repete com os ossículos do ouvido. Martelo, bigorna e estribo já formaram a mandíbula de répteis, triturando alimento antes de se converterem em aparelho acústico. Nada nasce do zero, tudo é reaproveitado.
Esses exemplos mostram que a natureza não é uma engenheira perfeita. A natureza é uma engenheira boa o bastante que opera com base em tentativa e erro. É como se trocássemos de metáfora: da prancheta e das planilhas para a oficina suja, barulhenta, cheia de quinquilharias. Jacob mostrou que não há plano nem projeto, apenas improvisos bons o bastante que se acumulam. Não é teleologia, é bricolagem.
A fábrica de reciclagem
No livro Darwin’s Dangerous Idea (1995), o filósofo Daniel Dennett apresenta a teoria da evolução como uma “ideia perigosa”, corrosiva, capaz de atravessar todas as áreas do conhecimento, como um ácido universal. Dennett mostra como a complexidade emerge da simplicidade e como a seleção natural é o motor que conduz o processo através da bricolagem. Juntando várias peças velhas para resolver problemas novos, aumenta-se a complexidade. Não é preciso milagres, saltos quânticos esotéricos nem — numa expressão consagrada pelo próprio autor — guindastes no céu.
Décadas depois, em From Bacteria to Bach and Back (2017), ele retomou essa linha para mostrar como o mesmo princípio atravessa a passagem da biologia à cultura. Ali, argumenta que a mente e a linguagem são produtos de reciclagens graduais. De bactérias a Bach, tudo se constrói a partir de etapas acumuladas, hábitos repetidos, memes culturais que se recombinam e ganham novas camadas de complexidade. Não há saltos miraculosos nem design escondido. O próprio título do livro carrega essa provocação, sugerindo que o percurso inteiro da vida, do organismo mais simples às mais sofisticadas expressões artísticas, segue a mesma lógica de improviso e acúmulo. A cultura, afinal, é uma continuação da biologia em outros termos. Essa leitura dá vigor à metáfora da fábrica de reciclagem, mostrando que a engrenagem não para na biologia, se estendendo até nossas sinfonias e sistemas de crenças.
Pense na escrita, que não apareceu de repente como literatura, mas brotou de contas e pictogramas usados em registros de comércio dos antigos sumérios, milênios atrás. Ou na imprensa, que não nasceu pronta, mas foi montada a partir de prensas de vinho reaproveitadas, moldes metálicos e papel vindo do Oriente. Ou ainda na música, que vive de reciclar velhos ritmos. Cada exemplo mostra que a cultura, assim como a biologia, cresce por acúmulo e reaproveitamento. Nada surge puro, nada começa do zero: tudo é remixado.
Esse raciocínio conecta diretamente os dois livros de Dennett. A mesma lógica que recicla ossos em ouvidos ou penugens em asas explica como a mente, a linguagem e até a moralidade emergem sem planejamento, sem grandes saltos — muito menos saltos mágicos e milagrosos.
Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo
