Universidades precisam distinguir entre o cosmético e o essencial

Artigo
7 out 2025
Placa com a frase "Sou Contra" em francês

 

Toda vez que sai alguma notícia sobre rankings universitários, há uma agitação em torno do sobe e desce das posições. O mais recente ranking noticiado pela imprensa, QS World University Rankings 2026: América Latina e Caribe, chama a atenção para a queda da Universidade de São Paulo (USP) para a segunda colocação, perdendo a liderança para a Pontifícia Universidade Católica do Chile (UC).

Desde a primeira infância temos fetiche por saber se o colega do lado foi melhor ou pior na prova – ainda que todos vão mal, saber que o vizinho foi pior alivia um pouco o sentimento de culpa. Uma universidade pode continuar exatamente como está e ainda assim subir em um ranking, porque as concorrentes pioraram, ou porque deixaram de apresentar algum dado considerado relevante pelos avaliadores. Acrescenta-se a isso que a disputa por melhores posições na corrida entre universidades, apesar de explicitar algumas fortalezas e deficiências de cada instituição, pode gerar efeitos deletérios.

Pautar-se por critérios externos, buscando um engajamento performático através de pautas da moda ou do preenchimento de lacunas em planilhas determinadas por empresas de ranking, normalmente desvia a universidade de sua verdadeira missão: ser a melhor fonte de conhecimento, formação de capital humano e geração de ideias inovadoras.

O resgate da imagem da universidade passa, portanto, pela busca da excelência: fazer bem aquilo para que foi criada. O discurso e as ações populistas que vendem a universidade pública como redentora de todas as mazelas sociais acabam tendo como resultado prático a pulverização da verba pública em projetos de importância duvidosa, viagens protocolares e criação de setores cuja principal função é demonstrar alinhamento político ou ideológico, e não aprimorar a formação ou a pesquisa.

Enquanto algumas universidades correm atrás de formas de validação externa impostas por modas culturais ou pressão midiática, em outras esferas da vida social vemos instituições que parecem despertar para o resgate de suas funções essenciais.

Por exemplo, o ministro Edson Fachin assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal em 29 de setembro prometendo “voltar ao básico”. Em seu discurso, afirmou: “Queremos racionalidade, diálogo e discernimento. Nossa matéria há de ser empírica e verificável. Antes mesmo dos direitos ou das garantias temos deveres a cumprir. A dinâmica que enlaça tradição e movimento projeta mudanças sem açodamentos, senda na qual caminharemos”.

A Suécia, considerada um modelo de educação nos anos 1990, com os alunos ocupando lugares de destaque em avaliações da OCDE, viu o desempenho cair a partir dos anos 2000. Em entrevista para O Público, um dos principais jornais de Portugal, Johan Pehrson, que foi ministro da Educação até junho deste ano, ao ser questionado sobre a modernização e forte digitalização da educação sueca, coloca de maneira categórica: “Fomos muito ingênuos, diria eu. A Suécia tem muito medo de uma coisa: de não ser um país moderno. Pensamos que quanto mais ecrãs, quanto mais plataformas digitais utilizássemos, melhor sistema educativo teríamos. Estava errado. Estamos a voltar ao que é essencial, ao papel e à caneta, e aos livros em papel para os mais novos”.

As declarações do ministro Edson Fachin e do ex-ministro sueco Johan Persson ilustram recuos importantes que países e instituições começam a adotar diante dos efeitos negativos de posturas frágeis, tomadas em grande parte para se ajustar a uma modernidade que escorre pelos dedos. Ambos representam uma tentativa de reencontro com o essencial, seja na sobriedade das instituições públicas, seja na educação.

Nas universidades, porém, essa autocrítica ainda é rara. Muitas continuam a perseguir uma lógica imediatista, seguindo o ritmo de militâncias e movimentos identitários, sem uma reflexão aprofundada. Multiplicam-se ações frágeis, remodeladas e substituídas ao sabor de modismos, deixando para trás instituições que cada vez mais perdem credibilidade, coerência e respeito.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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